Sons da Escrita 269

20 de Março de 2010

Quinto programa do ciclo Hugo Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

HugoSantos

Os rios sobre a parede (Hugo Santos)

Os rios de minha mãe — 1

Pegou minha mãe as águas
com suas transparentes mãos de artesã de esperas.
Sem palavras, recolheu o espólio dos ventos deixados por meu pai
e decifrou seus ritos, readormeceu nenúfares.
Sabia da terra os nomes mais simples que habitavam o coração das coisas:
casa, pássaro, nave, trigo, solidão.
Recolhia seus murmúrios, repartia suas ânforas
e nelas vertia o grão de luz que lhes cabia.
Na parede escreveu um indeciso regato de algas e silêncios.
Semeou novos álamos
e decorou o nome de todos os pássaros que habitavam as florestas do olhar.
No dia seguinte à morte de meu pai fitou-me serenamente e apenas disse: — Filho.
Lembro-me que se ouvia o tinir das bicicletas que voltavam.

Os rios de minha mãe — 2

De meu pai nos ficou isto: um interrompido gesto de camponês de astros,
um celeiro de seus ventos, um porão de certezas e de dúvidas.
Não foram fáceis as palavras quando os potros da memória
fizeram ouvir seus cascos pelas longas planícies da solidão.
Sabíamos no entanto que outras naves assomavam já ao vale e recolhiam
o néctar de mais ventos, a anunciação dos deuses que tornavam.
 

Os rios de minha mãe — 3

Aí estão agora: suas harpas se ouvem entre os murmúrios da brisa no eucaliptal.
Mansamente tocam. Imagino-os sentados em almofadões de nuvens,
pelas palmas rodando o mercúrio das auroras, a filigrana dos crepúsculos.
Não têm pressa. Suaves são suas mãos quando desfiam as corolas da chuva
ou desenham o voo dos pássaros sob o azul das lonjuras.
Entre eles (sei-o) está meu pai:
a imensa sombra do seu braço vem às vezes tocar as folhas do plátano.
Uma memória tutelar e sempre irrecusável viaja pelas paredes da casa.
Têm as colheitas ainda o sabor grado de seus dedos recolhendo o cio da terra.
Ouvímo-Io aqui, agora que o rio de minha mãe cresce, cercado de choupos e silêncios.
Pela fundura da noite vem: sentimos seus passos na areia do pátio.
Cala, reparte as chuvas, ensina à brisa o toque mágico de suas liras
sobre os cabelos do trigo e das estevas.
De seus longos caminhos me pergunto (eu, inábil aprendiz de brumas)
e ao muro afeiçoo um nome: deixo correr as tímidas águas de meus regatos.
Então, deslumbrado, preparo minha primeira nave
e, do lado esquerdo da terra, semeio minha vara de prodígios.


Minha mãe (Djavan)

O descampado se via
E eu de esperar
Tava morta
Com jeito de agonia
Eu me encostava na porta

A disfarçar a barriga
Dos risos da fantasia
Fingindo ter
Nos meus olhos
Um sol que nunca podia

Via passar procissões
E os velhos nos caramanchões
ê, ê
Via passar esses dias
Como se fossem dobrados
Ardia em mim
Esse filho
Como se fosse pecado
Filho do pecado


HugoSantos

Os rios sobre a parede (Hugo Santos)

Os rios de minha mãe — 4

Frágil e transparente como o vidro o rio de minha mãe:
Pegava-o entre os braços, embalava-o suavemente
e deixava escorrer entre os dedos a fina areia das suas margens.
As palavras vinham sobre as folhas dos nenúfares:
devagar deslizavam pelo coração da casa.
Não perguntavam grandes coisas: corriam apenas,
como se só isso fosse preciso para conquistar oceanos.

Os rios de minha mãe — 5

Defronte para a colina, minha mãe bordava o enxoval da espera.
Entrecerrava os olhos, recolhia o néctar da luz
que se esfiava entre a seda dos salgueiros.
Não sei se falava com os deuses ou de meu pai ouvia
o som grato de suas mãos amparando os ventos
e sossegando as chuvas.
Ao vale aportavam agora novas naus, vindas dos abismos do tempo.
Os comboios continuavam atravessando a planície.
Nomes soubemos, de verdades adiadas desde sempre.
Nos inchados seios da terra confundiam-se as águas
e mais irrecusáveis se tornavam os pressentimentos.
Lembro os pássaros: voltavam das virgens florestas do sul,
em suas asas se alimentavam outros ventos.
Gratuita, sempre, a ilusão:
de mais úberes colheitas se lavraram os álamos do olhar.
À soleira da porta minha mãe continuava bordando seus nenúfares.
Os olhos viajavam com as andorinhas que tinham regressado na Primavera.
Meigas, as mãos acamavam seus voos
e perguntavam a foz para onde corriam as alvas garças do silêncio.
Entre os dedos, como se rezasse, esfiava lentamente a areia dos dias.
Quando vieram os primeiros frios de Novembro e a floresta calou seus sinos
minha mãe recolheu as naves, compôs sua cesta de tílias e subiu à colina.
Ao lado da de meu pai, deixou sua vara de aloendro.
E, sem pressas, esperou que a luz viesse dizer em que lugar
se semearia o quente pólen das sementes de Abril.

Os rios de minha mãe — 6

Plantámos um canteiro de cravos junto às janelas que se abrem para sul.
Minha mãe vem, com seus serenos passos de irmã das sombras,
dá-lhes um nome, uma pátria, e aduba-os da luz (toda)com que resguarda seus prodígios.
Para aí aponta o brando caminhar de seu rio.


Mother (ERA)

Mother you are always around
Let me tell you you're the only one.
Mother, when I see that look in your eyes
I know that you're my only child
And you make my world around
and round and round

Amio sumoni
Yofanati vorento
Amere coreni
Yoa simento canante

Rentiro men foni
Senti re da muntera
Ioshepa runo
Solite tiro re tira-o-o

Do you love your mother
Like I love mine?
Do you wanna hold her
All through the night?
The silence is my soul
Love just agree
Rest...

Do you love your mother
Like I love mine?
Do you wanna be
A one and only child
Desires of your soul
Love just agree
Rest...

I rest my head on her chest
Head on her chest
Head on her chest
Do you love your mother
Like I love mine?


HugoSantos

Os rios sobre a parede (Hugo Santos)

Os rios de minha mãe — 7

À mesa do álamo se sentou ontem um rouxinol vagabundo.
Sua guitarra de luas dedilhou, até a noite adormecer a alba.
Dono de mundos, construtor de crepúsculos, dele recolhemos
o fio de bruma do seu tear de astros.
Pelas solidárias pontes do olhar caminham os gnomos das recordações.
Chegam montados em seus potros de névoa,
sentimo-los depois perpassar pelas serpentinas de sombra do eucaliptal.
Com a terra conversam; um a um recontam
os grãos de luz que o tempo guardou em suas transparentes ânforas de vidro.
As grandes verdades cabem assim no cristal puro de qualquer lágrima inesperada.
«Ouve», diz minha mãe.
Ouço. Sinto o cheiro da terra e os furtivos passos de quem veio
cobrar o penhor de qualquer dívida das lembranças.
A nosso lado se sentam, numa das clareiras do pinhal,
adormecendo o suave ondular da caruma ressequida.
Trouxeram suas naves e escutam como nós
o canto mago do rouxinol do álamo.
Seus dedos estiam o mercúrio fugidio de memórias que o tempo não reteve.
Voltam pelo entardecer: sobre os alvos seios da planície
depõem o pólen lunar de seus longes.
Tomam a terra entre as mãos, reavivam seus ritos; talvez entre si se sorriam.
Pelo esvoaçar da brisa sabem o caminho das chuvas, a anunciação dos arco-íris.
E, sobre o lado esquerdo adormecendo,
sonham as pródigas colheitas dos vigilantes deuses da floresta.

Os rios de minha mãe — 8

Reconheço a angústia, os densos sinais da dor.
Um melro, na cerejeira, ensaia um voo rectilíneo até ao vértice da casa.
Chove. Sobre a cal da parede cresce o rio de minha mãe.
Agitam-se os nenúfares. A morte é um pássaro de cinza que ao coração acode.
Não canta. Senta-se sob a ogiva duma lágrima e olha apenas.
Cúmplice, ele. Por caminhos se irá que não sabemos a hora do retorno.
Mas volta. Sobre as coisas cresceu, pelos cimos do vento veio planando.
Pertence-lhe ainda a casa, a terra, os grãos (últimos) da colheita.
Não, não veio por eles.
Apenas testemunha o uso que fazemos do que (seu) aqui persiste.
De que matéria é feito, diz, este ingastável e tão certeiro gume de teu dardo?
Que mão, por ti, retesa o arco e, exultante, aponta?
Recolhe meu temor; cala este frio e vulnerável coração da noite.


If (Pink Floyd)

If I were a swan, I'd be gone.
If I were a train, I'd be late.
And if I were a good man,
I'd talk with you
More often than I do.

If I were to sleep, I could dream.
If I were afraid, I could hide.
If I go insane, please don't put
Your wires in my brain.

If I were the moon, I'd be cool.
If I were a book , I would bend.
If I were a good man, I'd understand
The spaces between friends.

If I were alone, I would cry.
And if I were with you, I'd be home and dry.
And if I go insane,
Will you still let me join in with the game?

If I were a swan, I'd be gone.
If I were a train, I'd be late again.
If I were a good man,
I'd talk with you
More often than I do.


HugoSantos

Os rios sobre a parede (Hugo Santos)

Os rios de minha mãe — 9

Fizeram tudo, as mãos. Colheram voos e ventos, adormeceram rios. Pelo júbilo da terra procuraram o lugar onde o corpo mais se abre e proclama a ferida e a festa de senti-la. Pelos frios de Dezembro perceberam o triunfo das chuvas, o mistério do pólen. Pelo corpo tacteiam, hesitantes, os mais fundos poços do êxtase. Perguntam à bruma qual a luz (tão fina) que se chega à palma, às polpas, de tão distinto fruto se apodera. Ah, tão quase sábias que, em seu ofício, por temor do encontrado se refreiam. 

Os rios de minha mãe — 10

Esta mulher plantou algas e ausências. Pelo silêncio entrou com suas naves:
nelas recolheu memórias e aproximou distâncias.
Tinha um rio sobre a parede; calados nomes escreveu sobre as folhas dos nenúfares.
Não soube grandes palavras; abria as mãos e deixava escorrer as pérolas dos sussurros.
Um celeiro encheu do que não disse.
Penso que mil vezes partiu com as bicicletas e mil vezes, clandestinamente, regressou.
As suas maiores viagens se fizeram entre a soleira da porta e os olhos construindo longes.
Assim souberam os pássaros o trapézio alado das suas pupilas d’água.
Armazenou pólen bastante para edificar qualquer floresta.
Calou. Era a terra que falava.
Prolongou no seguro gesto de meu pai o canto das colheitas, a anunciação dos frutos.
Serenamente cardava a lã da espera: escrevia cartas, entretecia as rendas da ausência.
Não pediu grandes coisas. Sentou-se numa das margens do seu rio
e afagou pela última vez os nenúfares que passavam.
Penso que meu pai a esperava, a coberto da sombra dos cedros gigantes da colina.
De mãos entreabertas recolheu a frágil luz dos últimos dias de Dezembro
e deixou-a escorregar mansamente sobre a água.
Era à hora do crepúsculo, lembro; já os torcazes incendiavam de azul as manchas dos sobreiros. 

Os rios de minha mãe — 11

A casa aqui está.
Entre as dúcteis paredes da memória permanece o rio de minha mãe.
Outros ventos vieram e mais chuvas. Outras naves espreitaram
entre os candelabros sussurrantes do canavial.
Nada nos foi gratuito, nem a morte, vos repito.
Recolhi, quantos pude, os nenúfares de minha mãe
e os submersos cilos de trigo e esperanças de meu pai.
Sobre o lado esquerdo da casa semeei então as águas do meu primeiro rio:
no exacto lugar onde os ventos vinham tocar as folhas das oliveiras
e a luz deixava escorrer seu sumo sobre as magoadas chuvas
dos primeiros dias de Janeiro.


Minha mãe (Adriano Correia de Oliveira)

Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe não tem nada
Quem não tem mãe não tem nada
Quem a perde é pobrezinho
Ó minha mãe minha mãe
Onde estás que estou sózinho
Estou sózinho no mar largo
Sem medo à noite cerrada
Ó minha mãe minha mãe
Ó minha mãe minha amada



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
Djavan, ERA, Pink Floyd, Adriano Correia de Oliveira

Textos:
Hugo Santos

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012