Sons da Escrita 270

21 de Março de 2010

Sexto programa do ciclo Hugo Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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HugoSantos

Os nossos rios (Hugo Santos)

Os nossos rios - 1

Cansam às vezes, os negros potros da solidão.
Caminharam já todas as enevoadas planícies do olhar,
os infindáveis vales dos pressentimentos.
Adormecem agora entre as sombras das nogueiras,
esfiando recordações que o coração do tempo em si reteve.
Um deserdado deus aqui habita o espaço mais dorido desta pátria
entre um silêncio erguida e um olhar.
Sua guitarra tange de tão longe que é um murmúrio apenas o que a brisa
em seu dolente andar aqui me traz.
Da solidão diria a luz calando os ângulos agudos do temor
ou as cortantes arestas duma lágrima, sobre devolutas imagens se ferindo.
A luz afago. Reaprendo a trama
das enleadas águas que, entre as mãos, se doem.

Os nossos rios - 2

Por caminhos (tão outros) tu vieste,
com teu linho, teus ritos, tuas sombras.
Nas entreabertas virilhas me trazias
todos os fios de água que a terra te doara.
Vinhas em busca dum rio onde escreveres
a cor de teus regressos e as ausências
que pelo tempo vinham proclamando
os vitrais duma lágrima,
as vestes da revolta. 

Os nossos rios - 3

Pela boca te tomei: nascente de teus rios.
Pelas conchas do peito te bebi.
Da luz que tu trazias já não sei: eram as mãos
que, sôfregas de seu néctar, procuravam
os veIos mais dourados do prodígio.

Os nossos rios - 4

Entre as coxas do dia plantámos os cravos (os mais rubros que o coração ousou).
De sua festa soubemos, de memórias (tão breves!) que diziam
da dorida anunciação dos frutos que ficavam.
Nas clareiras abertas do teu corpo construímos os portos de mais naves.
Com tuas mãos abertas saudaste as brancas garças do regresso.
Levedámos o pão,
entre um gesto recolhendo a luz e a palavra proclamando seu destino.
Pelo olhar se recobrou também a rósea maçã da alba.
Relembro, no teu corpo sobre o meu, o redobrar das águas, o cântico da terra.

Os nossos rios - 5

De furtivos murmúrios compus o alvo linho do teu corpo.
Cantei. Segurei, entre as minhas, tuas margens;
mil vezes naufraguei, colhi despojos.
Sempre um longe me sobrou onde esperar o lento reacordar da alba.
Não sei se os deuses aí estão ou se perderam
pelos atalhos (tantos) do crepúsculo.
Interrogo ainda os nenúfares de minha mãe, os sortilégios (outros) da ausência.
Desarmado, ouve. Ou, se quiseres, por teus intensos lumes defendido.
Não bastam as palavras. De seus usos tão vários se gastaram.
Re-humilhada pátria a deste olhar, seu coração cansando.

Os nossos rios - 6

Doutro país te conto. De lonjuras tão feito, que sobraram os ecos.
A mil disfarces dado pelas sombras que, céleres, transpunham a distância
doutras memórias mais que, pela noite, as paredes da casa interpelavam.
Ouço ainda o tinir das bicicletas. Pelo teu corpo vão, nos dedos sinto
a luz rompendo entre as virilhas cansadas
de seus furtivos sonhos retomando.
Outras torrentes adito a estes rios que, súbitos, irrompem.
Toma-os todos, reparte suas algas por quem vier saber que mais memórias
entre as húmidas areias se confundem.
Escreve qualquer nome que pela água vá e saiba onde
o corpo desta terra se interroga.

Os nossos rios - 7

Sobre o teu ventre, nu, as mãos exilam
seu canto.
Colhi há pouco o trigo, pela palma
correm os rios dourados do prodígio.
É terra ainda o que, no corpo,
tomada de seus signos vem lembrar
a úbere harmonia dos murmúrios. 

Os nossos rios - 8

As grandes verdades couberam inteiras nas tuas mãos abertas contra o sol.
Aprenderam meus rios, por vezes sossegaram minhas águas.
Aqui estão, tão disponíveis como a luz que se coa entre as franjas do eucaliptal.
Perguntam e respondem. Sobre os atalhos do corpo reconquistam
o festim das chuvas, a febre dos sentidos.
É inverno agora, vê: a terra reconhece os magoados sons da solidão.
Os deuses partiram, não se ouve já o doce murmurar das suas harpas
entre os cristais de névoa do amanhecer.
Talvez inquiram os caminhos onde flutuam as anémonas azuis das próximas primaveras
e por aí retornem, disponíveis para reagrupar as naves
e desvendar as rotas solares das mais virgens planícies do norte.
Chegaram novas águas; os rios cresceram para lá das memórias que os habitam.
Quente de seiva, a floresta rejubila.
Aqui estão, errantes, os nenúfares de minha mãe.
Entre os dedos os tomas; aprendes a furtiva serenidade de suas esperas.
E no entanto (como dizer-te isto?)
nada se repete.
Polidas de silêncios, as palavras perderam o usufruto das vozes que lhes cabiam.
Vogam agora ao acaso dum som, duma emoção que as transcenda.
Fomos nós ou as palavras, que falharam? 

Os pensamentos doem bem mais que suas feridas.
Inútil iludir o som assobiado dos comboios que ainda demandam
a festa da planície.
Ingloriamente (sobre o teu corpo o digo) se perderam as águas de Abril.
Por demandados ventos abaladas, regressaram às nascentes.
Em seus subterrâneos se encontram, retomam seus ardis.
Guardadas foram as ampulhetas dos tempos que virão.
Olho os teus olhos: gravo neles
o festim da luz anunciada.
Pelos carreiros do dia se virão, armados dos embustes da solidão.
Pelos rios saberão o nome das naves ou a esquecida fala de quem, entre as margens,
reaguarda a iluminura dum adeus.
Na cal do muro escrevemos novos nomes: os hieróglifos indizíveis da esperança.
Pouco mais necessitaremos que uma broa de barro e trigo
e um brando gesto joeirando os ventos e separando o linho dos nevoeiros.
Errante companheira de meus atalhos, comigo subirás ao mais alto mastro da colina.
Mais perto do celeiro de estrelas de meu pai e dos peixes de prata dos rios de minha mãe
juntos escolheremos os grãos de pólen, leite e lã
necessários à próxima colheita. 

Os nossos rios - 9

Aos pássaros que adormeceram nos teus olhos
perguntei seus voos e o quente barro das louras planícies do sul.
Soube assim dum tempo de inominadas ciladas, surdas lágrimas, incontáveis degredos.
Dos rios também: furtivos e anónimos perpassaram
sobre o magoado coração dos homens.
Bebo, no teu ventre, a pura água das lembranças.
Clamo a única vontade destes ventos
ciciando entre as tranças dos chorões.
Sob o teu corpo correm: sinto como
por desnudados campos sobrevindos aqui ressoam.
Sobre a palma os recolho; tomo as ânforas do teu peito.
E, desarmado ainda, anuncio o dia. 

Os nossos rios - 10

Semeia aqui teus nenúfares: de minha mãe recolherás
uma cesta de tílias, um cabaz de silêncios,
um inesperado olhar liquefazendo a luz
e adormecendo os pássaros. 

Os nossos rios - 11

Das naves do meu corpo em ti me ouso.
Longas e inadiáveis viagens me esperam,
agora que entre as clareiras do teu ventre se resguarda
a mais quente semente de meus álamos. 

Aí farei ouvir a voz inicial do primeiro pássaro da terra.
Breve e fugidio como uma lembrança,
seu canto perdurará no entanto como uma pedra desenhando na água
a ogiva dum braço acordando suas naus. 

Deixarei para ele o último afluente dos rios da nossa casa,
um peixe voador,
a sombra fresca dum salgueiro adormecendo a infância.
De inesperados relâmpagos se fará a luz do seu olhar, inquirindo.
Para ele terei as mais incertas certezas que lhe cabem
e um dúplice coração de terra e água
aguardando a lunar semente doutros álamos. 

É cedo, no entanto. De seus símbolos vigilantes,
as palavras não nos bastam.
De facetados olhos nos inquirem.
Como preservar (nelas) esta memória de choupos, álamos e terra
que outra coisa exigem que não esta
aceitação dos signos retornados? 

Canta, tu.
Como o primeiro rouxinol do plátano longa te será a noite.
Sobre os rios (os nossos) verás passar os barcos
e erguerás um braço, saudando.
Talvez alguém, responda.
Não peças demasiado.
Um peixe voador será sempre uma ponte levadiça entre o olhar
e o mais longínquo oceano.
Tão simples e tão irrecusável como a vida
a água tocará tuas margens.
Surpreendida recolherás o primeiro fio das chuvas de Dezembro
e adubarás teu ventre. 

A teu lado inquirirei as vozes,
tactearei a luz.

Os nossos rios - 12

Sobra sempre uma árvore a esta floresta.
Um barco a este rio.
Uma tâmara à sede de quem regressa.
Sobra sempre uma palavra
indefinível e transparente como um olhar emocionado
para recolher o fruto,
segurar o dia.

Os nossos rios - 13

Do doce vinho dos deuses se embebedaram todas as raízes da terra.
A meio do pátio o álamo cresceu; seus ramos tocam já
o voo das garças que demandam as cinzentas linhas do horizonte.
Tempo de desmedidos presságios, de incertas adivinhações,
a nós nos cabe separar a areia dos dias que virão.
Com o teu corpo converso. São as mãos
que de seu mester tão sábias ei-Ias como
procuram a subterrânea nascente de teus prodígios.
Pelo teu ventre rondam; aí buscam.
Hão-de saber a comum fala de seus regatos, a origem das suas águas.
Mas é cedo ainda; esperamos o tempo novo
dos silêncios. 

Sobre os teus lábios clamo uma só palavra. Filho de urzes e estevas,
doutro tempo de interrogações me aproprio.
A verdade (como a mentira) é um pássaro ilusório, voando de viés,
cegado pela luz das suas próprias contradições.
E no entanto, olha, os rios crescem.
Levanto a mão sobre a parede; na palma escrevo os finos fios de sua luz.
De seu tear mais mútuo nos dobamos.
Separa tu as águas,
pede aos ventos
o prenúncio mais claro de suas naus.

Os nossos rios - 14

Peço um nome para esta terra amadurada de incertezas.
De filho ou de pátria, de pássaro ou de fruto.
Quero a palavra mais simples, anónima porventura como um deus no exílio.
Seguei o trigo, plantei árvores, escrevi poemas.
Tão simples como a vida ou a morte, aqui pastoreei os rebanhos da memória.
Dos rios que vieram tomo entre as mãos o lento fluir de suas algas.
Peço o mais justo nome para o silêncio.
Todas as esperas nos são possíveis ainda.
Errantes, retomarão os nenúfares de minha mãe; deixo para eles
a mais transparente água dos teus olhos.
Lunares, as colheitas de meu pai. Sobre os teus braços deponho
a serena certeza de seu gesto. Intenta com ele
a vaguidão alada doutros longes
e as sementes mais úberes da flor do aloendro.
Outros rios aguardarão o fluir das palavras,
a febre dos regressos. 

Caber-me-á, sempre, a recolha dos despojos.
Desde o alto da colina interrogo o lugar exacto
por onde perpassaram os comboios.
Longe, indistinto ainda, chega-me o arfar de seus potros d'aço
golpeando a planície.
Grandes e surpreendentes viagens nos esperam;
connosco estarão os rios da nossa casa.
Levanta esta pedra; marca aqui, indelével, o sinal de suas nascentes.
Os filhos pródigos tomarão à primeira luz da alba.

Os nossos rios - 15

Da vida e da morte sei hoje os imponderáveis signos da renúncia.
Uma guitarra de ventos me sobeja para a colheita maior dum novo olhar.
Planto álamos, escrevo cartas, reparto como posso as leiras do silêncio.
Agricultor de palavras como meu pai, artesão de esperas como minha mãe,
aguardo o sinal das naves lunares do amanhecer.
Delas ouvirei a hora certa de segar o trigo que me cabe
e armazenar seus longes.
Sei que a terra, por mim, responderá.



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Textos:
Hugo Santos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012