Sons da Escrita 377

14 de Janeiro de 2012

Terceiro programa do ciclo Bocage

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Bocage

Liberdade, onde estás?

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh! Venha… Oh venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade.
E em fingir, por temor, empenho estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen* tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, oh Liberdade!


A great day for freedom (Pink Floyd)

On the day the wall came down
They threw the locks onto the ground
And with glasses high we raised a cry for freedom had arrived

On the day the wall came down
The Ship of Fools had finally run aground
Promises lit up the night like paper doves in flight

I dreamed you had left my side
No warmth, not even pride remained
And even though you needed me
It was clear that I could not do a thing for you

Now life devalues day by day
As friends and neighbours turn away
And there's a change that, even with regret, cannot be undone

Now frontiers shift like desert sands
While nations wash their bloodied hands
Of loyalty, of history, in shades of gray

I woke to the sound of drums
The music played, the morning sun streamed in
I turned and I looked at you
And all but the bitter residue slipped away...slipped away


Sobre estas duras

Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n’ alma fervendo
Como fervem no pego* as crespas vagas.

Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co’a ideia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.


There'll come a time when all of us must leave here
Then nothing sister Mary can do
Will keep me here with you
As nothing in this life that I've been trying
Could equal or surpass the art of dying
Do you believe me?

There'll come a time when all your hopes are fading
When things that seemed so very plain
Become an awful pain
Searching for the truth among the lying
And answered when you've learned the art of dying

But you're still with me
But if you want it
Then you must find it
But when you have it
There'll be no need for it

There'll come a time when most of us return here
Brought back by our desire to be
A perfect entity
Living through a million years of crying
Until you've realized the Art of Dying
Do you believe me?


Já Bocage não sou

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento,
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui… A santidade
Manchei!... Oh Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!


About to die (Procol Harum)

About to die - the crowds applaud you
About to die - they'll resurrect you
Light a candle up in kingdom come
Light the way for the saviour's son
A candle burning bright enough to tear the city down

About to die - the crowds reward you
About to die - their cheers ignore you
Light a candle up in kingdom come
Light the way for the chosen one
No candle burned with fire enough to tear that city down

About to die - the crowds applaud me
About to die - they'll resurrect me
Light a candle up in kingdom come
Light the way for the savior's son
A candle burning bright enough to tear the city down


Meu ser evaporei

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah, Cego eu cria, ah! Mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus… Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.


And when I die (Blood, Sweat & Tears)

I'm not scared of dying,
And I don't really care.
If it's peace you find in dying,
Well then let the time be near.
If it's peace you find in dying,
And if dying time is near,
Just bundle up my coffin
'Cause it's cold way down there.
I hear that its cold way down there.
Yeah, crazy cold way down there.

And when I die, and when I'm gone,
There'll be one child born
In this world to carry on,
to carry on.

Now troubles are many, they're as deep as a well.
I can swear there ain't no heaven but I pray there ain't no hell.
Swear there ain't no heaven and I pray there ain't no hell,
But I'll never know by living, only my dying will tell.
Yes only my dying will tell.
Yeah, only my dying will tell.

Give me my freedom for as long as I be.
All I ask of living is to have no chains on me.
All I ask of living is to have no chains on me,
And all I ask of dying is to go naturally.
Oh I want to go naturally.

Here I go, hah!
Hey Hey!
Here comes the devil,
Right Behind.
Look out children,
Here he comes!
Here he comes! Hey...

Don't want to go by the devil.
Don't want to go by demon.
Don't want to go by Satan,
Don't want to die uneasy.
Just let me go naturally.

and when I die,
When I'm dead, dead and gone,
There'll be one child born in our world to carry on,
To carry on.


Não sou vil delator, vil assassino,
Ímpio, cruel, sacrílego, blasfemo;
Um Deus adoro, a eternidade temo,
Conheço que há vontade, e não destino.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Whelan, Eileen Ivers, Itzhak Perlman, John Williams

Ligações
Pink Floyd, George Harrison, Procol Harum, Blood, Sweat & Tears

Textos:
Manuel Maria Barbosa du Bocage

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012