Sons da Escrita 209

30 de Janeiro de 2009

Quarto programa do ciclo Carlos de Oliveira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Carlos de Oliveira

Look back in anger (Carlos de Oliveira)

Podia ser a névoa habitual da noite, os charcos cintilantes, o luar trazido por um golpe de vento às trincheiras da Flandres, mas não era. Quando acordou mais tarde num hospital da rectaguarda, ensinaram-no a respirar de novo. Lentas infiltrações de oxigénio num granito poroso, durante anos e anos, até à imobilidade pulmonar das estátuas.
As imagens latentes, penso eu, porque sou eu o homem na armadilha do terraço difuso, entrego-as às palavras como se entrega um filme aos sais de prata. Quer dizer: numa pura suspensão de cristais, revelo a minha vida.


Hopeless in anger (Camel)

(sem texto)


Carlos de Oliveira

Dunas (Carlos de Oliveira)

Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:
“O que lhe falta é um microscópio. Arrange-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem”.


Sandman (America)

Ain't it foggy outside
All the planes have been grounded
Ain't the fire inside?
Let's all go stand around it
Funny, I've been there
And you've been here
And we ain't had no time to drink that beer 

'Cause I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

Ain't the years gone by fast
I suppose you have missed them
Oh, I almost forgot to ask
Did you hear of my enlistment? 

Funny, I've been there
And you've been here
And we ain't had no time to drink that beer 

'Cause I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned 

I understand you've been running from the man
That goes by the name of the Sandman
He flies the sky like an eagle in the eye
Of a hurricane that's abandoned


Carlos de Oliveira

Sobre o lado esquerdo (Carlos de Oliveira)

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: “o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração”.


This Side of Me (Savage Garden)

I want to move in time with you
I want to breathe in rhyme with you
I want to feel the deepest kiss
And I want to know you feel like this

For this one time, one time
Let my body do what it feels
For this one time, one time
Let this fantasy become real
Because I am not afraid to let you see this side of me

I want to feel your hand in mine
And I want to feel that rush in my spine
I want to wear the scent of you
And do all the things you want me to

For this one time, one time
Let my body do what it feels
For this one time, one time
Let this fantasy become real
Because I am not afraid to let you see this side of me

I feel the danger, the separation
I want to take your invitation
This separation it's all around
I need this side of me

I want to move in time with you
I want to breathe in rhyme with you
I want to stitch my clothes in sin
And in the dark
I want to find that door and go within

For this one time, one time
Let my body do what it feels
For this one time, one time
Let this fantasy become real
Because I am not afraid to let you see this side of me
I am not afraid to let you see this side of me


A cal,
o amor
guardado para os mortos,
dissolvente perfeito
da tua solidão
descamada
em meu peito,
a cal,
o coração.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Russ Dean, Jean Musy

Ligações
Camel, America, Savage Garden

Textos:
Carlos de Oliveira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012