Sons da Escrita 089

17 de Novembro de 2006

Segundo programa do ciclo Carlos Poças Falcão

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Carlos Poças Falcão

Quantas vezes quem se afasta (Carlos Poças Falcão)

Quantas vezes quem se afasta não sabe regressar
porém sem que suspeite a sua morada segue-o
e mesmo perdido não se encontra longe

tudo é uma questão de realidade
assim os peregrinos mais do que os aventureiros
são reais

num tempo que se agita é um bem estar parado
num tempo de homens lentos é melhor a agilidade
deste modo a quietude conhece o movimento
e o movimento transporta o Deus imóvel

mesmo nas cidades mais ignorantes
é possível e é belo ritmar o coração
dar-lhe essa certeza de se achar em casa

os furtivos os trânsfugas os vertiginosos
não fogem nem caem — apenas são errantes
enganam-se de morte e não sabem o lugar


Long ago and far away (James Taylor)

Long ago a young man sits and plays his waiting game
But things are not the same it seems as in such tender dreams
Slowly passing sailing ships and Sunday afternoon
Like people on the moon I see are things not meant to be

Where do those golden rainbows end?
Why is this song so sad?
Dreaming the dreams I've dreamed my friend
Loving the love I love 

To love is just a word I've heard when things are being said
Stories my poor head has told me cannot stand the cold
And in between what might have been and what has come to pass
A misbegotten guess alas and bits of broken glass

Where do your golden rainbows end?
Why is this song I sing so sad?
Dreaming the dreams I dream my friend
Loving the love I love to love to love to love


Carlos Poças Falcão

Em linguagem clara (Carlos Poças Falcão)

Em linguagem clara o abandono é o amor.
Quando o tempo chega e o tempo se consuma
as mãos podem estar tranquilas
que o olhar vê tudo bem e o coração desprende

a nuvem exaltada. Disto muitos querem prova.
Estende-lhes a taça para sua provação
pois só quem faz a prova conhece este sabor.

Abelha no açucar e ave no pomar
som inicial duma canção fraterna
noite que ascende a uma estação mais pura
— ah, como escandaliza aquele que não ama
ver o amor provado do que todo se abandona!


Clearly quite absurd (Deep Purple)

After all we said today
The strangest thought occurred
I feel I ought to tell you
But it's clearly quite absurd
Wouldn't it be wonderful
If you could read my mind
Imagine all the stuff
That we could leave behind
How many words you waste
Before you're understood
Or simply sow some seeds
You'd do it if you could
Let me take a moment
Of your time
Inside you mind

I know what you're thinking
But I don't know what to say
The turmoil and the conflict
You don't have to feel that way
Look into my eyes
And feel my hand upon your heart
Holding us together
Not tearing us apart
How many words we waste
To justify a crime
Compare it to an act of love
That really takes no time
Why not take a moment
Of your time
Inside your mind


Carlos Poças Falcão

De um lugar imóvel (Carlos Poças Falcão)

De um lugar imóvel e com olhar sereno
talvez alguém contemple as trémulas figuras
e nelas bata a luz de modo a parecerem
altas e seguras. E o tempobusque as formas
preciosas. E o próprio olhar, fechando os olhos,
as possa modelar, tomar-lhes as perfeitas
qualidades. E à voz então inesgotável
baste um som apenas, uma palavra tensa.
E nessa forma do silêncio, nessa espécie
de cegueira, cara aos deuses, a realidade
seja um clarão solar, a rosa que se oferece
ao amor mais simples, no gesto mais humilde.


Les choses les plus simples (Gabriel Yacoub)

c'est quand la nuit m'échappe et que je ne peux pas dormir
que mes désirs reviennent bien avant toi

quand je passe mes jours à oublier ces nuits
quand je t'appelle et que tu n'entends pas

alors je me souviens des choses les plus simples
les choses qu'on a dit ne jamais oublier

il faut marcher longtemps pour en finir de ces langueurs
il faut fermer les yeux partir ailleurs

et les saisons qui traînent entre paris et l'océan
un ennui qui grandit en symphonie

c'est quand la nuit m'échappe et que je ne peux pas dormir
et c'est quand tu es lasse bien avant moi

and then I think about the simple things we said
the things that we promised never to forget


Todos sabemos acender um fósforo
a quem nos pede lume.
Talvez fosse uma conversa
possível até ao fim. Mas o mais vulgar
é ficarmos onde estamos
com o fósforo aceso à beira do rosto

e antes de haver tempo
a chama queima os dedos.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Ryuchi Sakamoto

Ligações
James Taylor, Deep Purple, Gabriel Yacoub

Textos:
Carlos Poças Falcão

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012