Sons da Escrita 090

24 de Novembro de 2006

Terceiro programa do ciclo Carlos Poças Falcão

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Carlos Poças Falcão

Os livros (Carlos Poças Falcão)

Também os Livros como estrelas estão abertos
em grandes vazios. O estrondo das explosões solares
não é sequer ouvido nos planetas mais chegados
tal como o coração ruidoso de um amante
passa ignorado por aqueles que não crêem.
Embora os Livros brilhem e atraiam os errantes
para que se purifiquem e percam matéria
tanta solidão torna-os pesados abismando todo o campo
da sabedoria. Os astrónomos desenham então constelações
que são como amores falsos e contratos fraudulentos.
Mas os Livros brilham abertos toda anoite
e aquecem o que os homens entregam para arder.
As estrelas entretanto acenam com protuberâncias
e só de muito longe a vida corresponde.
Ouve-se um murmúrio fóssil: é a recitação perpétua
do breve e belíssimo verso inicial.


A thousand words (Savage Garden) 

We stumble in a tangled web, decaying friendships almost dead
And hide behind a mask of lies
We twist and turn and we avoid, all hope of salvage now devoid
I see the truth inside your eyes
So take all this noise into your brain and send it back again
I'll bear the cost, shed my skin, call you up and then...
I'll say the words out loud

You could resurrect a thousand words to deceive me more and more
A thousand words will give the reasons why I don't need you anymore

Time manipulates your heart, preconceptions torn apart
Begin to doubt my state of mind
But I won't go down on what I said
I won't retract convictions read
I may perplex, but I'm not blind
So take all this noise into your brain and send it back again
I'll bear the cost, shed my skin, call you up and then...
I'll say the words out loud

You could resurrect a thousand words to deceive me more and more
A thousand words will give the reasons why I don't need you anymore

I'll say the words outloud. I'll say a thousand words or more

Manipulation. Fabrication.
Conversation. Annihilation
I'll say a thousand words or more
Damnation. Frustration. Elevation.
Procreation
I'll say a thousand words or more

You could resurrect a thousand words to deceive me more and more
A thousand words will give the reasons why I don't need you anymore


Carlos Poças Falcão

Completas (um programa) (Carlos Poças Falcão)

Proferia sem cessar frases completas
não fosse a realidade bater-lhe sem sentido

Frases completas, tensas, dirigidas
de um caos a outro caos
tecendo o envoltório magnífico de um homem

As frases não cantavam nem tinham de cantar
apenas sustentavam em arco a coisa imensa
a grande ruína de tudo o que aparecia

Era um eremita de tipo moderno
orando na corrente dos transportes públicos
erguendo nas descidas metropolitanas
passando e abençoando desertos suburbanos

Era necessário compor frases completas
não fosse a realidade confundir-se com a mentira
Jurou chegar ao fim numa evocação contínua
teimando na palavra como o sol teima na luz
mas sem poder algum, nem talento, nem usura
– apenas real, como um rei no seu exílio

Se bebia uma cerveja num último reduto
ou se atravessava em grande perigo uma avenida
eram frases quase santas aquelas que o salvavam
tensas, dirigidas, como um arco de guerreiro

Pois que todos sofriam de uma voz entrecortada
de um coração disperso num olhar em fragmentos
ele era o eremita transportador do manto
dessa mortalha leve que a inteligência outrora amava

Não é o insignificante o inverso da verdade?
E assim vestindo o mundo ia ele sem descanso
envolvendo-o nas faixas de defunto ou de menino
segundo as exigências tão claras do sagrado

Anónimo, perdido e cheio de esperança
agora é outra hora, a do silêncio, a melhor hora.


Silent lucidity (Queensryche)

After all we said today
The strangest thought occurred
I feel I ought to tell you
But it's clearly quite absurd
Wouldn't it be wonderful
If you could read my mind
Imagine all the stuff
That we could leave behind
How many words you waste
Before you're understood
Or simply sow some seeds
You'd do it if you could
Let me take a moment
Of your time
Inside you mind

I know what you're thinking
But I don't know what to say
The turmoil and the conflict
You don't have to feel that way
Look into my eyes
And feel my hand upon your heart
Holding us together
Not tearing us apart
How many words we waste
To justify a crime
Compare it to an act of love
That really takes no time
Why not take a moment
Of your time
Inside your mindHush now, don't you cry
Wipe away the teardrop from your eye
You're lying safe in bed
It was all a bad dream
Spinning in your head
Your mind tricked you to feel the pain
Of someone close to you leaving the game of life
So here it is, another chance
Wide awake you face the day
Your dream is over... or has it just begun?

There's a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn't realize and you were scared
It's a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension

I- will be watching over you
I- am gonna help you see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you, in Silent Lucidity
[Visualize your dream
Record it in the present tense
Put it into a permanent form
If you persist in your efforts
You can achieve dream control
Dream control
How's that then, better?
Dream control
Hug me]
If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
Living twice at once you learn
You're safe from pain in the dream domain
A soul set free to fly
A round trip journey in your head
Master of illusion, can you realize
Your dream's alive, you can be the guide but...
I- will be watching over you
I- am gonna help to see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you....


Carlos Poças Falcão

Rogo escutado a um coração (Carlos Poças Falcão)

Não faças de mim um despreocupado
os meus irmãos trabalham nas produções ruidosas
mas eu tenho de ir aos mortos e aos esquecimentos
a mostrar a árvore o ramo e o raminho
onde despontou primeiro a primavera.

No silêncio e na esperança repousa a minha vida
que eu não seja um distraído mesmo que a festa ao longe
me chame toda a noite. Como louvarei
o sono e o despertar, os primeiros cantos e as últimas estrelas?
Tenho tanto que fazer — contemplar a árvore o ramo e o raminho
onde despontou primeiro a primavera
governar velhas nações desavindas no meu peito
deixar comida limpa aos animais da rua.

Não me deixes ser um despreocupado
os meus irmãos saíram para trabalhar em terra estranha
sou eu que tenho agora de amar os horizontes
fazer visitaçoes, traçar as Tuas marcas que salvam nas soleiras.

Não há hora de descanso para as minhas vigilâncias
deito-me e levanto-me nos turnos do temor.
Quem há-de pôr grinaldas nos círculos do fogo?
Quem há-de levar água à boca dos sedentos?
Não permitas que eu seja um despreocupado
correspondo a rostos pobres, entrego-me aos olhares
e só assim distingo, espelho e anuncio.
Grandes coisas se preparam mas os meus irmãos não vêem.
Agora tenho de ir a guardar as orações
a recordar a árvore o ramo e o raminho
onde despontou primeiro a primavera


Hold on my heart

Hold on my heart
just hold on to that feeling
we both know we've been here before
we both know what can happen

Hold on my heart
cos I'm looking over your shoulder
ooh please don't rush in this time
don't show her how you feel

Hold on my heart
throw me a lifeline
I'll keep a place for you
somewhere deep inside

So hold on my heart
please tell her to be patient
cos there has never been a time
that I wanted something more

If I can recall this feeling
and I know there's a chance
oh I will be there
yes I will be there
be there for you
whenever you want me to
whenever you call oh I will be there
Yes I will be there

Hold on my heart
don't let her see you crying
no matter where I go
she'll always be with me

So hold on my heart
just hold on to that feeling
we both know we've been here before
we both know what can happen
So hold on my heart...


Pequenos negócios, olhares lançados
sem dilatação. Dedos a tocar
mármores tão frios. Sombras sem memória
de mesas de cafés. Tudo apagamentos
– como um jornal esquece
mais um dia.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Ligações
Savage Garden, Queensyche, Genesis

Textos:
Carlos Poças Falcão

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012