Sons da Escrita 184

8 de Agosto de 2008

Primeiro programa do ciclo Casimiro de Brito

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Casimiro de Brito

Do poema (Casimiro de Brito)

O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —
o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.


A fábrica do poema (Adriana Calcanhoto)

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo;
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo;
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?


Casimiro de Brito

Amo-te porque não me amo (Casimiro de Brito)

Amo-te porque não me amo
inteiramente. O que me falta
é infinito
mas tu és do bem que me falta
o enigma onde se condensam
a terra e o sol o ar as águas
invioladas
e tenho a boca cheia
de música ondulação
do teu silêncio.


Learning how to love you (George Harrison)

While all is still in the night
And silence starts its flow
Become or disbelieve me
Left alone with my heart
I'm learning how to love you

While waiting on the Light
How patience learned to grow
Endeavor could relieve me
Left alone with my heart
I know that I can love you

Love you like you may have never been
Move you more ways than you have seen
To a point in the time where we see so much more
Than the ground that we touch
With each step so unsure

As teardrops cloud the sight
Your eyes may never know
No truth could ever fear me
And left alone with my heart
I'm learning how to love you.

Love you like you may have never seen
Move you more ways than you have been
To a point in the time where we see so much more
Than the ground that we touch
With each step so unsure

As teardrops cloud the sight
Your eyes may never know
No truth could ever fear me
And left alone with my heart
I'm learning how to love you.


Casimiro de Brito

Entro no teu corpo árvore (Casimiro de Brito)

Entro no teu corpo árvore
felina
como quem visita um templo
vegetal uma ilha impregnada
pelas especiarias mais raras
do sol e do mar. Ascendo em bocas
que bebem a minha seiva em dunas
que me lavam e queimam
humildes. Armas tão frágeis
as que temos: o mel a saliva o
sémen. Caminho
na luz obscura
com as mãos vazias
de quem nasce de novo.


 

Born under a bad sign (Rita Coolidge)

Born under a bad sign
I been down since I begin to crawl
If it wasn't for bad luck, I wouldn't have no luck at all

Hard luck and trouble
Is my only friend
I been on my own
Ever since I was ten

Born under a bad sign
I been down since I begin to crawl
If it wasn't for bad luck, I wouldn't have no luck at all

I can't read
Haven't learned how to write
My whole life has been
One big fight

Born under a bad sign
I been down since I begin to crawl
If it wasn't for bad luck, I wouldn't have no luck at all

If it wasn't for bad luck I wouldn't have no kinda luck
If it wasn't for real bad luck, I wouldn't have no luck at all

Wine and good time
is all I crave
A big legged man is gonna carry me
to my grave

Born under a bad sign
I been down since I begin to crawl
If it wasn't for bad luck, I wouldn't have no luck at all

Yeah my bad luck boy
Been havin' bad luck all of my days, yes


Não me pisem,
já não danço —
o melhor que faço
é quando descanso.
Não me louvem,
estou cansado —
o melhor que escrevo
é quando apago.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Patrick O'Hearn, Peter Seiler, Corciolli

Ligações
Adriana Calcanhoto, George Harrison, Rita Coolidge

Textos:
Casimiro de Brito

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012