Sons da Escrita 185

15 de Agosto de 2008

Segundo programa do ciclo Casimiro de Brito

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Casimiro de Brito

A alegria dos pés na terra molhada (Casimiro de Brito)

Quando as palavras se deixam possuir
como se fossem raízes e ossos leves que trepam
à montanha
ouço a infância, o som do berlinde, a flauta
do anjo anunciador da chuva
e a formiga da mãe a enxotar-me
para a escola onde aprendi
a ler no quadro da janela
as metamorfoses do céu. A poesia escreve-se
copiando os mestres, imitando mal
as fontes naturais: as patas
da água
descendo pela serra; a melopeia silenciosa
do azeite; a boca do vento
nas telhas da velha casa
do monte; a chama interior
dos cavalos
e dos cães da família: de manhã
pela mão do avô
eu partia de visita às árvores
e aos pássaros — esta é uma cerejeira, aquela,
a dona nogueira, olha
um picanço! a que parece muito cansada
é a figueira, Vamos comer um? O avô
pegava nele como se fosse um animalzinho
acabado de nascer, um pássaro com pétalas e já morto
na boca sedenta e logo
saciada. Um figo é uma
dádiva do sol e da terra e da nossa
humilde fome, e tudo são figos, ah não comas,
não comas nunca nada
sem fome. Ouço —
aprendi nesses dias a ouvir
o melhor da infância: água
na língua
quando a morte é gémea e se
aproxima.


Talk to me while I'm listening (Frances Black)

I should have know that you were gone back in Germany
You told me in the dark while I was sleeping
Then you slept through the sunrise
As it washed upon your face
And all that I had heard were our hearts beating

Talk to me while I'm listening now
While this love has a voice that we both can hear
Before you let it go
The greatest love I've ever known
Won't you please talk to me while I'm listening

I cannot find a place to put this love away
Or lost the thought of sunlight on your face
I thought I heard your voice
Say I love today
But it was only the sound of my heart breaking

How I wish that I could take us back to Germany
And I would stay awake and you would talk to me
Yet for every drop of rain I hear
There's bound to fall another tear
Upon this page of song of my heart aching

Casimiro de Brito

Eu não sei o que faço aqui (Casimiro de Brito)

Eu não sei o que faço aqui
sei que faço alguma coisa
pequenas coisas sem importância
às vezes aborreço-me não é grave
fico apenas um pouco mais triste
depois levanto a cabeça
os ombros vacilam
transporto uma loba mas não sei até quando
uma loba que vai deixando o pelo
na casa do poema na cave acumulada
por um sábio que não sabe nada
nem cuidar de si nem cuidar
dos homens —
aparentemente foi tudo morrendo
neste reino de pequenos casamentos
de conveniência: ficaram
a insânia sem garganta e figuras de musgo
que não conhecem a separação entre o ser
e as nuvens
as nuvens que envolvem
os caminhos do corpo
as pegadas de um vírus que não cessa de
cantar o pó, tão fácil
de soprar. Chove. A chuva
pede que me cale.


Everytime it rains (Ace of Base)

I see dark clouds out my window.
I know the storm is coming any minute.
And the thunder just confirms my fears.
And I know that tears are in it.
I'll be crying unable to stop.
Look here comes the very first drop.

'Cause every time it rains I fall to pieces.
So many memories the rain releases.
I feel you.
I taste you.
I cannot forget,
Every time it rains, I get wet.

Darling, I am still in love with you.
As time passes by it just intensifies.
I know I'll never be with you again.
I'll never find another lover with that kindness in his eyes.
I'll be trying unable to stop.
Look here comes the very first drop.

On sunny days I'm all right.
I walk in the light.
And I try not to think about,
The love I live without.


Casimiro de Brito

Quando me aproximo do mar (Casimiro de Brito)

Quando me aproximo do mar
tudo me parece aceitável.
As ondas são folhas que vão
a caminho da perfeição.
Perfeito é pois quem do tempo
tem a longa paciência —
também a tenho quando escuto
a nervura mágica de tudo,
um tudo feito de sombras
que amaciam a pedra luminosa
que todas as coisas são.
Saltando de estação para estação
como se o caminho se fizesse,
sereno, entre o mar e o céu.
As ondas que vejo cair
também as sinto nas areias de mim
como se tudo, na barca deste mundo,
fosse mar e luz.
Por isso a minha vida é intensa
e velha como a paciência
que não cessa de se renovar
no sangue da pedra, e das aves.


 

Sea people (Emiliana Torrini)

Can you ever see me as you did before
Can you ever see me like you did once more
When I look into your eyes
I can breathe in water
Like you 

When you say goodbye
My lungs ache filled with water
'Cause I will always love you


Não me pisem,
já não danço —
o melhor que faço
é quando descanso.
Não me louvem,
estou cansado —
o melhor que escrevo
é quando apago.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Giovanni Marradi, William Jackson, Dan Gibson

Ligações
Frances Black, Ace of Base, Emiliana Torrini

Textos:
Casimiro de Brito

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012