Sons da Escrita 186

22 de Agosto de 2008

Terceiro programa do ciclo Casimiro de Brito

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Casimiro de Brito

Com as folhas dos livros cortei os dedos (Casimiro de Brito)

Com as folhas dos livros cortei os dedos
e depois a alma. Em cada metáfora,
em cada visão dos seres essenciais
o touro arremete e deixa-se ofuscar
pela flor caída: a volátil ferida,
sem princípio nem fim. O fulgor e as desordens
na luta e na escrita - essa planta rasteira
que transmite o pólen do pensamento,
essa ideia tímida sobre a doença das coisas.
Com as folhas dos livros vou cortando
o pouco de alma que me resta, assim inclinado
numa sombra tranquila, que vem crescendo.


Book & A cover (Suzanne Vega)

What's that they told you
about a book & a cover?
Don't judge so quickly,
Is it too much too remember?
'Cause pictures lie,
you know.
I'll show
it's so.
Just give it one thought.

What's that they taught you?
To revere a kind of beauty?
To paint on that pretty veneer
and try to hide whatever's dirty?
Well, faces lie.
You'll see
no sympathy.
Just give it one thought.

Come here and I will whisper true
about the things I know of you,
and you will recognize them,
always...

As near to you as breath and bone,
so dear to me, and yours alone,
and I will love you for them,
always...

What's that they tell you
about a book & a cover?
Don't judge so quickly.
They'll tell you one thing and then another.
But see what lies
within,
under the skin.
Just give it one thought.


Casimiro de Brito

Se alguma coisa me salva (Casimiro de Brito)

Se alguma coisa me salva
não é desconhecer os mecanismos do mundo
mas o leve tumulto que anima
o comércio das coisas, a sua frágil
conciliação. Um saber antigo
que me ensina a arte de cair
no chão azul onde se esconde
um pouco de luz. Não tenho pressa,
apresso-me porque vou mais leve
no dorso do vento. Trago
uma sombra no peito, e mais nada.
Não preciso que nada me salve
da recitação da morte - apenas
raspar um pouco maIS
na parede a que encosto o meu corpo
que já resvala.


Save me (Aimee Mann)

You look like
A perfect fit
For a girl in need
Of a tourniquet

But can you, save me
Come on and, save me
If you could, save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone

'Cause I can tell
You know what it's like
The long farewell
Of the hunger strike

You struck me down
Like Radium
Like Peter Pan or Superman

You will come to save me
C'mon and save me
If you could, save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone
'Cept the freaks
Who suspect they could never love anyone
But the freaks
Who suspect they could never love anyone

C'mon and save me
Why don't you save me
If you could save me
From the ranks of the freaks
Who suspect they could never love anyone
'Cept the freaks
Except the freaks
Who suspect they could never love anyone
Except the freaks who could never love anyone


Casimiro de Brito

Houve um tempo em que a distância fremia (Casimiro de Brito)

Houve um tempo em que a distância fremia,
e bastava tão pouco: sentir o pulso ardente
no joelho amado, colher amêndoas
quando as havia, ouvir as delicadas
agulhas do vento. O que faço agora,
rolando nas estradas do sul,
é apenas olhar, recolher a copa das árvores,
o céu cintilante e ouvir,
como quem vive um longo momento,
a seiva trabalhosa da natureza
e o romance das coisas.
Lembrar-me que nada sei do seu alvor
nem do frémito que talvez haja
no seu declínio. Bastam-me
estas pequenas visões quotidianas
para me manter assim descuidado do mundo
e do seu sopro.


 

Distant sun (Crowded House)

Tell me all the things you would change
I don't pretend to know what you want
when you come around and spin my top
time and again, time and again
No fire where I lit my spark
I am not afraid of the dark
Where your words devour my heart
and put me to shame, put me to shame

When your seven worlds collide
whenever I'm by your side
the dust from a distant sun
will shower over everyone

Still so young to travel so far
old enough to know who you are
wise enough to carry the scars
without any blame, there's no one to blame

It's easy to forget what you learned
waiting for the thrill to return
feeling your desire burn
and drawn to the flame

the dust from a distant sun
will shower over everyone

And I'm lying on the table
washed out in a flood
like a Christian fearing vengeance from above
I don't pretend to know what you want
but I offer love

Seven worlds will collide
whenever I'm by your side
the dust from a distant sun
will shower over everyone


Nem a sombra que fui
se perderá
nas árvores secas,
nos túmulos do ar
onde se perpetua
o enigma da rosa,
a rosa do mundo.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Celtic Spirit, Kirsty Hawkshaw, Dan Gibson

Ligações
Suzanne Vega, Aimee Mann, Crowded House

Textos:
Casimiro de Brito

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012