Sons da Escrita 413

22 de Setembro de 2012

Primeiro programa do ciclo Cesare Pavese

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Paisagem I

«Aqui no alto da serra, deixa de haver culturas. Só há fetos
e penedos nus e esterilidade.
Aqui o trabalho já não serve de nada. O cume está crestado do sol
e a única frescura é o hálito. É uma grande estafa
chegar cá acima: o eremita subiu isto uma vez
e depois ficou por aí a recuperar as forças.
(…)
As encostas e os vales desta serra são verdes e profundos.
Por entre as vinhas, os carreiros trazem bandos estouvados
de raparigas, vestidas de cores violentas,
que vêm fazer festas à cabra e lançar gritos à planície.
Às vezes entrevêem-se filas de cestos de fruta,
mas não sobem até cá acima: os camponeses levam-nos para casa
às costas, curvados, e voltam a mergulhar na folhagem densa.
Têm mais que fazer do que ir ver o eremita
os camponeses, sobem, descem, e dão-lhe forte na enxada.
Quando têm sede, bebem vinho: levando à boca
a garrafa, erguem os olhos para o cume crestado.
A meio da manhã, ainda fresco, estão já de regresso, arrasados
de trabalho desde o romper do dia, e se passa um pedinte,
toda a água que os poços deitem no meio das colheitas
é para ele, que a beba. Dizem piadas aos grupos de mulheres
e perguntam-lhes quando é que, ali com tanta serra,
se põem a torrar ao sol, vestidas de pele de cabra.»


Did you ever feel lonely? (Gary Moore)

Did you ever feel lonely crying by yourself
Did you ever feel lonely when you're crying by yourself
When the woman that you're loving is with some body else

You lie awake at night just calling out her name...
Yes, you lie awake at night just calling out her name
And you know your heart is breaking
And it's such a crying shame

Did you ever feel lonely when you're crying by yourself
Yes, did you ever feel lonely when you're crying by yourself
When the woman that you're in love with
Is lying down with some one else

You lie awake at night just calling out her name...

Did you ever feel empty like there is nothing left inside
Did you ever feel empty like there is nothing left inside
When you know that she won't love you
No matter how many tears you cry.


Paisagem IV

«Os dois homens fumam na margem. A mulher que nada
sem quebrar a água apenas vê o verde
do seu estreito horizonte. Entre o céu e as árvores
estende-se a água e a mulher desliza nela
sem corpo. No céu pousam nuvens
quase imóveis. O fumo detém-se no ar.

Sob o gelo da água também há erva. A mulher
atravessa-a, suspensa: mas nós calcamo-la,
a erva verde, com o corpo. Em toda aquela água não há
outro peso. Só nós dois sentimos a terra.
talvez o seu corpo alongado, submerso,
sinta o gelo voraz absorver-lhe o torpor
dos membros escaldantes do sol, dissolvendo-a viva
no verde imóvel. A sua cabeça não mexe.

Também ela estava deitada onde a erva está calcada.
O seu rosto semioculto repousava no braço
e olhava a erva. Não falávamos.
No ar paira ainda aquela primeira comoção
das águas que a acolheram. Por cima de nós paira o fumo.
Agora alcançou a margem e fala, o seu corpo escuro,
gotejante, ergue-se entre os troncos.
A sua voz é bem o único som que se ouve por sobre a água
- rouca e fresca, é a mesma voz de antes.

Pensamos, deitados
na margem, naquele verde mais escuro e mais fresco
que submergiu o seu corpo. Depois, um de nós
mergulha na água e atravessa, mostrando os ombros
em braçadas espumosas, o verde imóvel.»


Swimming (Phil Manzanera)

Let's go swimming
In our Hockney pool
Ten palms are swaying
The water's feeling warm

Sun light shimmers
Through a crystal lens
Dancing patterns flicker
Miro
On a mosaic below

Walk to the lighthouse
Waves splashing down
Eyes on the horizon
Out from Cadiz town

Let's not waste this precious life
As time keeps slipping away

Let's not waste
This time

This time
It's you and me
From the start
Right on down
The line
This time
This time
It's you and me

Church bells are ringing
In Bathampton lane
Kingfishers flying
The clouds begin to rain

Stroll on the towpatch
Climb up to the town
Right around the circus
Where we gather up
What's lost and found

Back to the cottage
Sun streaming through
On and on together
In bluebell woods

Let's not waste this precious life
As time keeps slipping away

Let's not waste
This time

This time
It's you and me
From the start
And right on down
The line
This time
This time
It's you and me
This time
This time
It's you and me

This time
This time
It's you and me


Paisagem VII

«Basta um pouco de dia nos olhos claros
como um fundo de água e invade-a a ira,
a aspereza do fundo riscado pelo sol.
A manhã que volta e a encontra viva
não é doce nem boa: olha-a imóvel
entre as casas de pedra que o sol fecha.

O pequeno corpo sai entre a sombra e o sol
como um animal lento, olhando à volta,
não vendo outra coisa que não sejam cores.
As vagas sombras que vestem a  rua e o corpo
ensombram-lhe os olhos, apenas entreabertos
como uma água e na água transparece uma sombra.

As cores reflectem o céu calmo.
Também os passos lentos no empedrado
parecem pisar as coisas, como o sorriso
que as ignora e escorre por elas como água clara.
Na água perpassam diversas ameaças.
Todas as coisas do dia se crispam à ideia
de que a rua estaria vazia, se não fosse ela.»


Between the shadows (Loreena McKennitt)

instrumental


«(…) Fazem sentido as vertentes lançadas para o céu
Como casas de uma grande cidade? Estão nuas.»


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vincenzo Zitello

Ligações
Gary Moore, Phil Manzanera, Loreena McKennitt

Textos:
Cesare Pavese

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012