Sons da Escrita 414

29 de Setembro de 2012

Segundo programa do ciclo Cesare Pavese

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Pensamentos de Deola

Deola passa a manhã sentada no café
e ninguém olha para ela. A esta hora na cidade correm todos
ao sol matinal ainda fresco. Deola também
não procura ninguém, mas fuma com calma e respira a manhã.
Quando estava na pensão, a esta hora tinha de dormir
para recuperar as forças: a colcha da cama
sujavam-na com as botas soldados e operários,
os clientes que moem os rins. Mas, sozinha, é diferente:
pode-se fazer um trabalho mais cuidado, com pouca canseira.
O senhor de ontem, ao acordá-la cedo,
beijou-a e levou-a (ficaria, querida,
em Turim contigo, se pudesse
) com ele à estação
para que ela lhe desejasse boa viagem.

Sente-se tonta mas fresca hoje,
e agrada-lhe ser livre e beber o seu leite
e comer brioches. Esta manhã é quase uma senhora
e, se olha para os homens, é só para não se aborrecer.
(…)

Os homens que passam à frente do café não distraem Deola,
que só trabalha à noite, com lentas conquistas
ao som da música do cabaret. Lançando olhares
a um cliente ou procurando-lhe o pé, agradam-lhe as orquestras
que a fazem parecer uma actriz numa cena de amor
com um jovem rico. Basta-lhe um cliente
por noite e dá para viver. (Talvez o senhor de ontem
me levasse mesmo com ele
). Estar só, se quiser,
de manhã, e sentar-se no café. Não procurar ninguém.


Penny for your thoughts (Peter Frampton)

instrumental


Casa em construção

Com os caniçais desapareceu também a sombra. Já o sol, oblíquo,
atravessa as arcadas e se precipita por buracos
que serão janelas. Os pedreiros não se aplicam muito,
durante a manhã. De vez em quando lembram-se
de quando aqui se ouviam ainda as canas
e um passante acalorado podia deitar-se na erva.

Os rapazes começam a chegar já o sol vai alto.
O calor não lhes mete medo. Os pilares recortados no céu
são um terreiro de jogos melhor que as árvores
ou a rua de sempre. Os tijolos ainda nus
enchem-se de azul enquanto não fecharem
as abóbodas, e para os rapazes é uma alegria verem, cá do fundo,
por cima das cabeças, os rectângulos do céu. É uma pena o bom tempo,
porque um aguaceiro, por aqueles buracos abaixo,
daria prazer aos rapazes. Seria como lavar a casa.

Esta noite – se tivessem podido vir – era melhor certamente:
o orvalho molhava os tijolos e, deitados entre as paredes,
viam-se as estrelas. Ou talvez até se pudesse acender
uma bela fogueira e que alguém os atacasse à pedrada.
Uma pedra, de noite, pode matar sem ruído.
(…)


House that love built (Jeff Healey Band)

The bar was filled with smoke and lies,
I couldn't see a thing, it burned my eyes
I pushed a strange woman off my lap,
She had a snake tattooed on her back

The doors opened into the night,
the silence kissed my worried life
I heard a song comin' from the back,
It played over and over again

I stood just around the bend, over the hill,
Across the river bed, one step closer to hell
If I forget about my past, forget about my guilt,
I go back to the house that love built, that love built

I went back to the bar again,
And headed straight for the band
I need to remember not to forget,
All the life and the love we had

So play that song and make it right,
Get me out of this lonely night
Slapped all my money into his hand,
Said play it over and over again

I stood just around the bend, over the hill,
Across the river bed, one step closer to hell
If I forget about my past, forget about my guilt,
I go back to the house that love built, that love built

Let me come inside, baby,
Let me come inside into the house that love built,
That love built, the house that love built,
The house that love built


Fumadores de papel

Trouxe-me para ouvir a sua banda. Senta-se a um canto
e pega no clarinete. Começa um chinfrim infernal.
Lá fora, um vento furioso e as bofetadas, entre os relâmpagos,
da chuva fazem com que haja cortes de luz
de cinco em cinco minutos. Cá dentro, às escuras,
os rostos transtornados esforçam-se por tocar de cor
uma música de dança. Enérgico, o meu pobre amigo
dirige, lá no fundo. E o clarinete torce-se,
rompe a confusão dos sons, eleva-se, alivia-se
como uma alma solitária, num silêncio seco.
(…)

Teve o seu tempo e camaradas e tem só trinta anos.
É dos de a seguir à guerra, que cresceram com fome.
Também ele veio para Turim, à procura duma vida,
e encontrou a injustiça. Aprendeu a trabalhar
nas fábricas sem um sorriso. Aprendeu a medir
pela sua própria fadiga a fome dos outros,
e em todo o lado encontrou injustiças. Tentou ter paz
caminhando ensonado pelas avenidas sem fim
durante a noite, mas apenas viu os candeeiros aos milhares,
lucidíssimos, sobre a iniquidade: mulheres roucas, bêbados,
fantoches cambaleantes, perdidos. Chegara a Turim no inverno,
em meio das luzes das fábricas e das nuvens de fuligem;
e sabia o que era o trabalho. Aceitava o trabalho
como um duro destino de homem. Mas que todos os homens
o aceitassem e houvesse justiça no mundo.
(…)

De repente gritou
que se o mundo sofria, se a luz do sol
arrancava blasfémias, não era o destino:
o culpado era o homem. Ao menos pudéssemos partir,
rebentar de fome em liberdade, dizer não
a uma vida que utiliza o amor e a piedade,
a família, o bocado de terra, para nos atar as mãos.


Smoke (Tristan Prettyman)

If I could I would be smoke
And I’d float myself out of here
And I’d go wherever you are
And I’d never have to be too far from here
And I’d linger in your fingers
A transparent shade of gray
And watch as you watch me
Slowly fade away
Into the night
Where are you when I need you by my side

Shouldn’t it be that easy
To just be happy for awhile
Get lost in a moment
Wasting time trading smiles
Shouldn’t it be that easy
To just be happy for awhile
Come on won’t you waste my time
Baby waste my time
Won’t you waste all my time

Things are never what they seem
Lately you’re all I dream
Well I’m running but I’m not getting anywhere and
Do you even care?

Shouldn’t it be that easy
To just be happy for awhile
Get lost in a moment
Wasting time trading smiles

Shouldn’t it be that easy
To just be happy for awhile
Come on won’t you waste my time
baby waste my time
Won’t you waste all my time
C’mon and waste all my time

I’m just trying to find my way
Between the glitter and the gray
Baby I just want some time with you
And ohh I swear this time I’ll make it through well well

Shouldn’t it be that easy
To just be happy for awhile
Get lost in a moment
Wasting time trading smiles

Shouldn’t it be that easy
To just be happy for awhile
Come on won’t you waste my time
baby waste my time
Won’t you waste all my time
C’mon and waste all my time


(…) Ainda vão rapazes brincar nos prados
Onde acabam as avenidas. E a noite é a mesma.
Ao passar por ali sente-se o cheiro da erva.
Na aldeia estão os mesmos. E há as mulheres,
Como então, que fazem filhos e não dizem nada.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Ligações
Peter Frampton, Jeff Healey Band, Tristan Prettyman

Textos:
Cesare Pavese

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012