Sons da Escrita 415

6 de Outubro de 2012

Terceiro programa do ciclo Cesare Pavese

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Mania da solidão

Como um jantar frugal junto à clara janela.
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu – quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora – o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um ciclo de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem neste planeta.

A noite importa pouco. O rectângulo do céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.


I float alone (Julee Cruise)

Floating through this darkness
All alone
Love is gone in darkness
Cold as a stone
Searching through the shadows you have known
Love's gone
Bare as a bone.

Trying to hold the memory face
You seem to have vanished without a trace
And in this darkness
This empty space
I float alone.


Now the night is falling
You have gone
Sad dreams blow through dark trees
Love's gone wrong
Clouds of sadness raining all night long
Love's gone
The end of our song.

I float alone
I float alone.


Encontro

Esta dura serrania que forjou o meu corpo
e o abala com tantas recordações revelou-me o prodígio
daquela que não sabe que a vivo e não consigo compreendê-la.

Encontrei-a uma noite: uma mancha mais clara
sob as estrelas ambíguas, na bruma do Verão.
Envolvia-nos o perfume destas montanhas,
mais intenso que a sombra e de repente ouviu-se,
como emanado da serra, uma voz ao mesmo tempo
mais nítida e mais áspera, uma voz de tempos perdidos.

Às vezes, vejo-a, e está viva à minha frente,
definida, imutável, como uma recordação.
Nunca consegui prendê-la: a sua realidade
escapa-me sempre e leva-me para longe.
Se é bela, não sei. Entre as mulheres é muito jovem:
acode-me, ao pensar nela, uma remota recordação
da infância passada nestas montanhas,
tão jovem é. É como a manhã. Os olhos sugerem-me
todos os céus distantes daquelas manhãs antigas.
E tem nos olhos um firme propósito: a luz mais nítida
que a manhã jamais teve nestas montanhas.

Criei-a do fundo de todas as coisas
que me são queridas e não consigo compreendê-la.


The day we meet again (Moody Blues)

The day we meet again
I'll be waiting there
I'll be waiting there for you
Cos the years have been so lonely
Like a dog without a home
It's dangerous when you find out
You've been drinking on your own

The day we meet again
We will walk in peace
Thru the garden down the road
Where the mist of time is lifting
See it rising in the air
Like the shadow I was chasing
When I looked it wasn't there
Oh no

But just in case you're wondering
What was really on my mind
It wasn't what you took my love
It's what you left behind

And just in case you're wondering
Will it really be the same
You know we're only living for
The day me meet again

So hold on - and don't let go
Time heals - you know - I know

The day we meet again
I'll be waiting there
I'll be waiting there for you
Cos the years have been so lonely
Like a dog without a home
It's dangerous when you find out
You've been drinking on your own

The day we meet again
We will walk in peace
Thru the garden down the road
Where the mist of time is lifting
See it rising in the air
Like the shadow I was chasing
When I looked it wasn't there
Hold on baby don't let go


Trabalhar cansa

Atravessar uma rua para fugir de casa
só um rapaz o faz, mas este homem que vagueia
todo o dia pelas ruas já não é um rapaz
e não foge de casa.

Há no Verão
tardes em que até as praças ficam vazias, estendidas
ao sol que vai pôr-se, e este homem que chega
por uma avenida de árvores inúteis para.
Vale a pena ser-se só, para se estar cada vez mais sozinho?
Percorrê-las apenas – as praças e as ruas
estão vazias. Havia que parar uma mulher
e falar-lhe e convencê-la a viverem juntos.
Doutro modo fala-se sozinho. É por isso que às vezes
vem abordar-nos o bêbado nocturno
e conta os projectos de toda a vida.

Não é certamente ficando à espera na praça deserta
que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas
de vez em quando para. Se fossem dois,
mesmo a andar pelas ruas, a casa seria
onde está essa mulher e valeria a pena.
De noite a praça volta a ficar deserta
e este homem que passa não vê as casas
entre as luzes inúteis, já não levanta os olhos:
sente apenas o empedrado, que outros homens fizeram
com mãos calejadas, como são as suas.

Não é justo ficar na praça deserta.
Anda certamente na rua aquela mulher
que, rogada, havia de querer dar uma mão à casa.


Working man blues (Bob Dylan)

There's an evenin' haze settlin' over town
Starlight by the edge of the creek
The buyin' power of the proletariat's gone down
Money's gettin' shallow and weak

Well, the place I love best is a sweet memory
It's a new path that we trod
They say low wages are a reality
If we want to compete abroad

My cruel weapons have been put on the shelf
Come sit down on my knee
You are dearer to me than myself
As you yourself can see

While I'm listening to the steel rails hum
Got both eyes tight shut
Just sitting here trying to keep the hunger from
Creeping it's way into my gut

Meet me at the bottom, don't lag behind
Bring me my boots and shoes
You can hang back or fight your best on the front line
Sing a little bit of these workingman's blues

Well, I'm sailin' on back, ready for the long haul
Tossed by the winds and the seas
I'll drag 'em all down to hell and I'll stand 'em at the wall
I'll sell 'em to their enemies

I'm tryin' to feed my soul with thought
Gonna sleep off the rest of the day
Sometimes no one wants what we got
Sometimes you can't give it away

Now the place is ringed with countless foes
Some of them may be deaf and dumb
No man, no woman knows
The hour that sorrow will come

In the dark I hear the night birds call
I can feel a lover's breath
I sleep in the kitchen with my feet in the hall
Sleep is like a temporary death

Meet me at the bottom, don't lag behind
Bring me my boots and shoes
You can hang back or fight your best on the front line
Sing a little bit of these workingman's blues

Well, they burned my barn and they stole my horse
I can't save a dime
I got to be careful, I don't want to be forced
Into a life of continual crime

I can see for myself that the sun is sinking
How I wish you were here to see
Tell me now, am I wrong in thinking
That you have forgotten me?

Now they worry and they hurry and they fuss and they fret
They waste your nights and days
Them I will forget
But you I'll remember always

Old memories of you to me have clung
You've wounded me with your words
Gonna have to straighten out your tongue
It's all true, everything you've heard

Meet me at the bottom, don't lag behind
Bring me my boots and shoes
You can hang back or fight your best on the front line
Sing a little bit of these workingman's blues

In you, my friend, I find no blame
Wanna look in my eyes, please do
No one can ever claim
That I took up arms against you

All across the peaceful sacred fields
They will lay you low
They'll break your horns and slash you with steel
I say it so it must be so

Now I'm down on my luck and I'm black and blue
Gonna give you another chance
I'm all alone and I'm expecting you
To lead me off in a cheerful dance

I got a brand new suit and a brand new wife
I can live on rice and beans
Some people never worked a day in their life
Don't know what work even means

Meet me at the bottom, don't lag behind
Bring me my boots and shoes
You can hang back or fight your best on the front line
Sing a little bit of these workingman's blues


(…) As recordações serão coágulos de sombra
calcados quais velhas brasas
na chaminé. A recordação será a chama
que ainda ontem picava nos olhos apagados.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Leandro Aconcha & Jaime Ponserme, David Arkenstone

Ligações
Julee Cruise, Moody Blues, Bob Dylan

Textos:
Cesare Pavese

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012