Sons da Escrita 028

23 de Setembro de 2005

Primeiro programa do ciclo Charles Baudelaire

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Charles Baudelaire

Texto 1 (Charles Baudelaire)

Quem quer que escreva máximas gosta sempre de tornar mais carregada a sua imagem — os jovens enchem-se de rugas, os velhos esmeram-se.
Como o mundo é um grande sistema de contradições que tem em grande estima tudo o que é caduco, não há nada melhor do que enfarruscarmo-nos de rugas; e como os sentimentos, de um modo geral, cuidam sempre da sua apresentação, o melhor é enchermo-nos de papelotes, como se o nosso coração fosse um frontespício.
Mas para quê? — Se não sois verdadeiros homens, sede, ao menos, verdadeiros animais. Sede ingénuos e acabareis, inevitavelmente, por ser úteis ou agradar. O meu coração, mesmo que andasse ao contrário, ainda seria capaz de encontrar mil companheiros de desgraça entre os três biliões de seres humanos que chafurdam nos lamaçais do sentimento.
Se começo pelo amor é porque ele é para todos — mesmo que o neguem — a coisa mais importante da vida.
Vós todos, que servis de alimento a qualquer milhafre insaciável; vós, poetas hoffmanianos que dançais ao som de harmónios nas regiões de cristal ou que um violino despedaça, tal como uma lâmpada nos rasga o peito; vós, contemplativos vorazes e exigentes a quem mesmo o espectáculo da natureza comunica êxtases perigosísimos — que para vós o amor seja um calmante.
E vós, poetas tranquilos — poetas objectivos — partidários ilustres do método, arquitectos do estilo, políticos que tendes uma tarefa de que dar conta todos os dias — que o amor seja para vós um excitante, uma bebida tonificante e tónica e que a ginástica do prazer seja para vós um constante incitamento à acção.
Para uns as poções repousantes, para outros os álcoois.
Mas para vós, vós para quem a natureza é cruel e o tempo precioso, que o amor seja para vós um revigorante que vos aqueça e reanime.


Le grand retour (Alain Chamfort)

Il est de retour en ville
Ce n' sera pas long avant qu'il frappe à ta porte
Il dira "je sais très bien que t'es là
Ca sert à rien de faire la morte"

C'est le grand retour, que tu l'veuilles ou non
De celui dont tu maudissais le nom
C'est le grand retour, un peu improbable,
D'un drôle de rôdeur, certes infréquentable,
Mais sympathique en diable
L'amour est de retour

Tu l'avais pourtant remercié
Tu disais "c'est un dossier classé sans suite"
Optimisme prématuré
Tu l'as sans doute enterré un peu trop vite

C'est le grand retour d'une vieill'connaissance
Qui t' poursuit depuis ton adolescence
C'est le grand retour d'une fieffée canaille
A la perspective de vos retrouvailles
Ton petit coeur tressaille
L'amour est de retour

C'est un sacré cabotin
Un showman dont l'baratin casse la baraque
Avoue-le donc qu'il te manque
T'es ravie que l'saltimbanque fasse son come-back

C'est le grand retour d'un has-been superbe
Dont peuvent s'inspirer les idoles en herbe
C'est le grand retour longtemps redouté
D'un vieux menteur à la voix veloutée
Qui revient t'envoûter
L'amour est de retour

C'est le grand retour de l'amour


Charles Baudelaire

Texto 2 (Charles Baudelaire)

As nossa atracções, aliás, não costumam ser perigosas: a natureza, tanto no que diz respeito à nossa alimentação como no amor, raramente nos faz levar à boca o que nos sabe mal.
Como tomo o amor no sentido mais amplo, vejo-me forçado a exprimir algumas máximas de pormenor sobre algumas questões mais delicadas.
Tu, Homem do Norte, incansável navegador absorto em espessas brumas de névoas, pesquisador de auroras boreais, mais belas do que o próprio sol e eterno sedento de ideal — tu deves amar as mulheres frias! Ama-as bem, porque essa tarefa é a mais difícil e árdua, e um dia ser-te-á reconhecida mais glória por esse tribunal do amor que tem assento para lá do infinito.
Tu, Homem do sul, a quem a transparência da natureza não consegue comunicar o gosto pelo desconhecido e pelo mistério — tu homem frívolo de Bordéus, de Marselha ou de Itália — a ti, que as mulheres ardentes te bastem! A sua agitação e entusiasmo são o teu império natural: e um império agradável!
E tu jovem que queres ser um grande poeta, foge do paradoxo nas coisas amorosas; deixa os estudantes, ainda inebriados pelas fumaças que tiram do seu primeiro cachimbo, entoarem grandiloquentemente as qualidades de fartas carnes: abandona essas mentiras aos neófitos da escola pseudo-romântica! Se uma mulher gorda pode por vezes constituir um capricho agradável, a magra é um fogo de voluptuosidades tenebrosas!
Nunca desdenhes da grandiosidade da Natureza e se ela te tiver atribuído uma amante sem peito, exclama: “Tenho um amigo com ancas!” e dirige-te, para o agradecer aos deuses, à igreja mais próxima.


Bless you (John Lennon)

Bless you wherever you are
Windswept child on a shooting star
Restless Spirits depart
Still we're deep in each other's hearts 

Some people say it's over
Now that we spread our wings
But we know better darling
The hollow ring is only last year's echo 

Bless you whoever you are
Holding her now
Be warm and kind hearted
And remember though love is strange
Now and forever our love will remain


Charles Baudelaire

Texto 3 (Charles Baudelaire)

Sendo qualquer moral uma prova da boa vontade dos seus legisladores, qualquer religião a suprema consolação dos aflitos, qualquer mulher um fragmento da mulher essencial e o amor a única coisa por que vale a pena escrever um soneto ou vestir roupa limpa, declaro respeitar todas estas coisas mais do quaisquer outras, pelo que considero um caluniador quem quer que faça deste fragmento de moral um motivo de excomunhão ou o pretexto para o escândalo público.
Uma moral cheia de cambiantes, não é verdade? Filtros coloridos que tornam talvez demasiado viva a eterna centelha de verdade que no seu interior cintila?
Não, não é isso!
Se eu tivesse querido mostrar que tudo ia pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, o ouvinte (leitor) teria todo o direito de me dizer, como se se dirigisse a um mau actor: “tu és um malicioso!”
O que quis foi mostrar que tudo ia pelo melhor no pior dos mundos possíveis.
Muita coisa, portanto, me será perdoada já que amei muito… o meu ouvinte (leitor)… ou a minha ouvinte (leitora).


Love hurts (Everly Brothers)

Love hurts, love scars, love wounds and mars
Any heart not tough or strong enough
To take a lot of pain, take a lot of pain
Love is like a cloud holds a lot of rain
Love hurts, mmm, mmm, love hurts 

I'm young I know but even so
I know a thing or two I learned from you
I really learned a lot, really learned a lot
Love is like a flame burns you when it's hot
Love hurts, mmm, mmm, love hurts 

Some fools think of happiness
Blissfulness, togetherness
Some fools fool themselves I guess
But they're not fooling me
I know it isn't true, know it isn't true
Love is just a lie made to make you blue
Love hurts, mmm, mmm, love hurts


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Asha  Quinn

Ligações
Alain Chamfort, John Lennon, Everly Brothers

Textos:
Charles Baudelaire

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012