Sons da Escrita 029

30 de Setembro de 2005

Segundo programa do ciclo Charles Baudelaire

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Charles Baudelaire

Canto de Outono (Charles Baudelaire)

Em breve iremos mergulhar nas trevas frias! Adeus, radiosa luz das estações ligeiras!
Ouço tombar no pátio em vibrações sombrias a lenha que ressoa à espera das lareiras.
Em meu ser outra vez se hospedará o inverno: ódio, arrepio, horror, labor duro e pesado, e, como o sol a arder no seu glacial inferno, o meu coração é um bloco rubro e enregelado.
Tremo ao ouvir tombar cada feixe de lenha; não faz eco mais surdo a forca que se eleva. A minha alma compara-se à torre que se despenha aos pés do ariete incansável que a golpeia.
Parece-me, ao sabor de sons em abandono, que algures um caixão se prega a toda pressa.
Para quê? — Ontem era o verão; eis o outono! Rumor estranho de quem parte e não regressa…

Amo no teu longo olhar a luz esverdeada, doce amiga, mas hoje amarga-me um pesadelo, e nem o teu amor, o lar, a alcova, nada vale mais do que o sol raiando sobre o mar.
Mas ama-me assim mesmo e cheia de ternura, sê mãe para o perverso, o ingrato, em todo caso; sê, amante ou irmã, a efémera doçura de um outono glorioso ou de um sol no ocaso.
Breve é a missão! A tumba espera, ávida, à frente! Ah, deixa-me, a cabeça nos teus joelhos pousada, degustar a suave luz dourada, recordando o estio claro e ardente, deste fim de estação!


Autumn leaves are falling 'round us (Clannad)

Autumn leaves are falling 'round us
Time to gather all those many thoughts
Of all the things that might have been
Or gained at such a cost

For some of us there's endless hoping
For some of us craziness too
Holding on to better reasons
Works for me and you, you know it's true

And when the stakes are higher
Never play with fire
Leave it alone

I wandered through a country churchyard
And wandered what kind of life they led
Walked into a castle ruin
Of gentry that had fled

For some of them they had endless hoping
For some of them crazy too
Holding on to better reasons
We'll never truly know

Those trees will tumble down
On a stormy day
And those leaves will fade away, fade away

The autumn leaves are falling 'round us
I'm here to gather all my many thoughts
Of all the things that might have been
As the ground has turned to frost

Leaves are falling, Autumn leaves are falling…


Charles Baudelaire

A música (Charles Baudelaire)

A música arrasta-me, às vezes, como o mar!
No encalço de um astro, sob um tecto de bruma ou dissolvido no ar, iço a vela ao mastro; o peito para a frente e os pulmões enfunados, tal qual uma tela, escalo o dorso aos vagalhões entrelaçados que a noite me vela.
Sinto que, em mim, ecoam todas as paixões de um navio aflito: o vento, a tempestade e as suas convulsões embalam-me no abismo infinito; ou então, mar calmo, espelho austero do meu desespero!


Music (John Miles)

Music was my first love
and it will be my last.
Music of the future
and music of the past.

To live without my music
would be impossible to do.
In this world of troubles,
my music pulls me through.


Charles Baudelaire

O estrangeiro (Charles Baudelaire)

— Diga, homem enigmático, de quem gosta mais? Do seu pai, da sua mãe, da sua irmã ou do seu irmão?
— Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— E dos amigos?
— Você usa palavras cujo sentido, até aqui, desconheço.
— Pátria?
— Ignoro a que latitude se situa.
— Beleza?
— Deusa e imortal, de bom grado a amaria.
— E o ouro?
— Odeio-o, como você odeia a Deus.
— Mas de que gosta, então, estrangeiro extraordinário?
— Das nuvens... das nuvens que passam... lá longe... lá longe... as maravilhosas nuvens!


 

Love ain't no stranger (Whitesnake)

Who knows where the cold wind blows,
I ask my friends, but, nobody knows
Who am I to believe in love,
Oh, love ain't no stranger

I looked around an' what did I see
Broken hearted people staring at me,
All searching 'cos they still believe,
Oh, love ain't no stranger

I was alone an' I needed love
So much I sacrificed all I was dreaming of,
I heard no warning, but, a heart can tell
I'd feel the emptiness of love I know so well 

Love ain't no stranger,
I ain't no stranger to love 

Can't hold the passion of a soul in need,
I look for mercy when my heart begins to bleed
I know good loving an' I'm a friend of pain,
But, when I read between the lines it's all the same

Love ain't no stranger,
I ain't no stranger
Love ain't no stranger,
I ain't no stranger to love 

So who knows where the cold wind blows,
I ask my friends, but, nobody knows
Who am I to believe in love,

Love ain't no stranger,
I ain't no stranger
Love ain't no stranger,
I ain't no stranger to love


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Spencer Brewer

Ligações
Clannad, John Miles, Whitesnake

Textos:
Charles Baudelaire

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012