Sons da Escrita 030

7 de Outubro de 2005

Terceiro programa do ciclo Charles Baudelaire

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Charles Baudelaire

O brinquedo do pobre (Charles Baudelaire)

Quero transmitir a ideia de uma distração inocente. Afinal há tão poucos divertimentos que não sejam criminosos!
Quando sairdes, de manhã, com a firme intenção de vagabundear pelas estradas, enchei os bolsos de pequeninas invenções de um euro (soldo) e, pelas tavernas, ao pé das árvores, presenteai os meninos desconhecidos e pobres que fordes encontrando. Então vereis os seus olhos crescerem, crescerem…
A princípio, não ousarão tocar no presente: duvidarão da própria felicidade.
Depois, as suas mãos agarrarão vivamente o brinquedo e eles fugirão, como fazem os gatos, que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe de nós o bocado que lhes damos.
Numa estrada, por trás das grades de um vasto jardim, ao fundo do qual surgia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, via-se uma criança fresca e bela, vestida de uma dessas roupas de campo, muito garridas.
O luxo, a ociosidade e o espectáculo habitual da riqueza tornam esses meninos tão belos que nos parece terem sido feitos de outra massa que não a dos filhos da mediania ou da pobreza.
Ao lado dessa criança, jazia sobre a relva um brinquedo esplêndido, tão novo quanto o seu dono, envernizado, dourado, com um traje cor de púrpura e coberto com plumas e vidrilhos. O pequeno, porém, não se ocupava com o seu brinquedo favorito e eis o que ele observava: do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia outro menino, sujo, raquítico, tisnado, um desses garotos-párias em quem um olho imparcial descobriria a beleza, se o limpasse da repugnante patine da miséria.
Através daquelas vergas simbólicas, que separavam dois mundos, a estrada real e o castelo, o menino pobre mostrava o seu brinquedo ao menino rico, e o brinquedo que o pequeno porcalhão atraía com afagos, agitava e sacudia, numa espécie de gaiola, era um rato vivo! Os pais, decerto por economia, haviam tirado o brinquedo da própria Vida.
E as duas crianças riam uma para a outra, fraternalmente, com dentes de uma brancura, tão… branca, tão… igual.


Night of a thousand furry toys (Richard Wright)

Now you feel it, a shiver and you begin
Frozen breath that scrapes across the skin
And a sound you've never heard before, you screaming. 

Welcome to the world of random noise
Where you simply haven't got a choice
When they push your levers and pull your strings. 

It's another world, it's a better world that we bring. 

Here you are on the planet of hot and cold
Where you'll do as exactly as you're told. 

In a world of a 1000 furry toys
You can hear the screams
Of little girls and boys
It's a charming noise
If you really want that kind of thing, mama. 

Now you feel it, a shiver and you've begun
When they pull those strings how you'll start to run !
And there's no stepping off or stepping down 

It's another world and it's a better world,
That's what we have found


Charles Baudelaire

A serpente que dança (Charles Baudelaire)

No teu corpo, lânguida amante, apraz-me contemplar, como um tecido vacilante, a pele a faiscar.

Na tua fluída cabeleira de ácidos perfumes, onde olorosa e aventureira de azulados gumes, como um navio que amanhece mal desponta o vento, a minha alma em sonho se oferece rumo ao firmamento, os teus olhos que jamais traduzem rancor ou doçura, são jóias frias onde luzem o ouro e a gema impura.

Ao ver-te a cadência indolente, bela de exaustão, dir-se-á que dança uma serpente no alto de um bastão.

Ébria de preguiça infinita, a fronte de infanta se inclina vagarosa e imita a de uma elefanta.

E o teu corpo pende e aguça-se como escuna esguia, que às praias toca e se debruça sobre a espuma fria.

Como uma inflada vaga oriunda dos gelos frementes, quando a água na tua boca inunda a arcada dos dentes, bebo de um vinho que me infunde amargura e calma, um líquido céu que difunde astros na minha alma!


Dance away (Bryan Ferry/Roxy Music)

Yesterday, when it seemed so cool,
When I walked you home, kiss goodnight,
I said "it's love", you said "alright".
Its funny how, I could never cry,
Until tonight, when you pass by,
Hand-in-Hand with another guy,
You're dressed to kill, and guess whos dying...

Dance away the heartache,
Dance away, tears.
Dance away the heartache,
Dance away, fears.
Dance away...

Loneliness, is a crowded room,
Full of open hearts, turned to stone.
All together, all alone.
All at once, my whole world had changed.
Now I'm in the dark, off the wall,
Lit the strobe light up the wall.
I close my eyes, and dance til dawn.

Now I know, I must walk the line
Until i find an open door,
Off the street or onto the floor.
There was I, many times a fool,
I hoped and prayed, but not too much,
Out of reach is out of touch,
All the way is far enough.

Charles Baudelaire

O gato (Charles Baudelaire)

Vem cá, meu gato, aqui ao meu regaço!
Guarda essas garras, devagar, e nos teus belos olhos de ágata e aço deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando os meus dedos cobrem de carícias a tua cabeça e dócil torso e a minha mão se embriaga nas delícias de afagar-te o eléctrico dorso, em sonho a vejo. O seu olhar, profundo como o teu, amável felino, qual dardo que dilacera e fere fundo, e, dos pés à cabeça, um fino ar súbtil, um perfume que envenena envolve-lhe a carne morena.


Farmyard cat (Paddy McAloon/Prefab Sprout)

Farmyard cat (Prefab Sprout)
Two green eyes and a coat of silk
scourge of mice with a saucer of milk
I've got nine lives and a rhyme with mat
I'm a farmyard cat. 

Scrounging scraps down a dead end street -
not for me, me the feline elite
( he dreams full cream,
dairy's where he's at )
I'm a farmyard cat.

Farmyard cat, farmyard cat,
farmyard cat, mi miaow
farmyard cat, farmyard cat,
farmyard cat, mi miaow.

( He's a farmyard cat )

All day long lounging in the sun
moon comes up and I'm prowling for fun
here she comes, 
well just fancy that . . .
she's a farmyard cat.

Farmyard cat, farmyard cat,
farmyard cat, mi miaow
farmyard cat, farmyard cat,
farmyard cat.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Daniel Blanchet

Ligações
Richard Wright, Bryan Ferry, Prefab Sprout

Textos:
Charles Baudelaire

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012