Sons da Escrita 120

22 de Junho de 2007

Primeiro programa do ciclo Daniel Faria

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados.1 (Daniel Faria)

Examinemos um homem no chão
Testemos a transformação de um homem por terra
A sua natureza tão diferente da lava, a sua maneira mineral
De adormecer.
O que mais interessa é ver o seu lugar rodando para perceber o eixo
Que o move no mundo
Ou como pode a sua posição orientar as aves e os astros.

Interessa também a pedra que ele agarra como alimento
Ou que mão escolhe para lhe servir de funda
— se é que não usa a própria boca para lançar o grito.

Examinêmo-lo quando desperta para percebermos de onde vem
Para sabermos se o caminho se repete. Se abre os olhos
Prontos a receber imagens ou então como alguém que desmaiou
Ao chocar contra si próprio.
Interessa perceber os motivos da colisão, se acaso
Terá mastigado a pedra até a misturar no sangue.

Examinemos a sua semelhança com um meteoro que cai
Uma fisionomia sem vocação para subir ao céu
O peso do seu corpo quando o nosso olhar o levanta.
Interessa perceber o íman que cria para nós um lugar junto dele
Um lugar dentro dele. Há um olhar que nos desloca —
A placa giratória do amor?

Interessa também o coração que ele agarra como fruto que colhe
Ou que veia abre no corpo para beber
— se não é que é a pedra o que ele bebe com as mãos.

Examinêmo-lo como quem sai de casa e vê o seu irmão
Examinêmo-lo voltado, em viagem, a orientação discreta
De quem cava no peito a bússola.
Interessa reparar como tropeça no mistério
E se levanta a pedra para compreender.


A place among the stones (Máire Brennan/Davy Spillane) 

Is fada mo shuile ort
Thug mé isteach duit
Tusa mo mhian
Tusa mo mhian

No heart hangs on distant water
What enchantment in this world
I wander westward my heart desires
With seas alive
Shadow me under the mountains of time
Guide me to the endless paths

No tears fall on stoney highways
That skyline splendour lights my way
We wander westward our heart's desire
With seas of light
Shadow me under the mountains of time
Guide us to endless paths


Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados.2 (Daniel Faria)

Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse

Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor

Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue

Na água corrente 

Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar


Daquilo que eu sei (Ivan Lins)

Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza
Nem tudo foi permitido
Nem tudo me deu certeza

Daquilo que eu sei
Nem tudo foi proibido
Nem tudo me foi possível
Nem tudo foi concebido

Não fechei os olhos
Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah! Eu usei todos os sentidos
Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo...
Cada vez mais limpo...
Cada vez mais limpo...


Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados.3 (Daniel Faria)

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos — digo,
As mulheres — ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores de crianças trepando que se penduram
Nos ramos — no pescoço das mães — ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.


Woman (Neneh Cherry)

You gotta be fortunate / You gotta be lucky now
I was just sitting here / Thinking good and bad
But I'm the kinda woman / That was built to last
They tried erasing me / But they couldn't wipe out my past

To save my child / I'd rather go hungry
I got all of Ethiopia / Inside of me
And my blood flows / Through every man
In this godless land / That delivered me
I've cried so many tears even the blind can see

This is a woman's world.
This is my world.
This is a woman's world
For this man's girl.
There ain't a woman in this world,
Not a woman or a little girl,
That can't deliver love
In a man's world.

I've born and I've bread.
I've cleaned and I've fed.
And for my healing wits
I've been called a witch.
I've crackled in the fire
And been called a liar.
I've died so many times
I'm only just coming to life.
My blood flows
Through every man and every child
In this godless land
That delivered me
I cried so many tears even the blind can see


A mãe disse-lhe escreve-me
de lá de longe para onde vais
E ela disse não é longe casar
E a mãe sorria cega de dor
E parecia de deslumbramento


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Arkenstone

Ligações
Neil Diamond, Jim Croce, Aaron Neville, Lisa Loeb

Textos:
Daniel Faria

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012