Sons da Escrita 121

29 de Junho de 2007

Segundo programa do ciclo Daniel Faria

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados.4 (Daniel Faria)

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar por atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar


In my place (Coldplay) 

In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah 

I was lost, I was lost
Crossed lines I shouldn't have crossed
I was lost, oh yeah 

Yeah, how long must you wait for him?
Yeah, how long must you pay for him?
Yeah, how long must you wait for him? 

I was scared, I was scared
Tired and underprepared
But I wait for you 

If you go, if you go
Leaving me here on my own
Well I wait for you 

Yeah, how long must you wait for him?
Yeah, how long must you pay for him?
Yeah, how long must you wait for him? 

Please, please, please
Come on and sing to me
To me, me

Come on and sing it out, out, out
Come on and sing it now, now, now
Come on and sing it 

In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah
Oh yeah


Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados.5 (Daniel Faria)

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior.


Shadow of a lonely man (Alan Parsons Project e John Miles)

Look at me now, a shadow of the man I used to be
Look through my eyes and through the years of lonliness you'll see

To the times in my life when I could not stand to lose, a simple game
And the least of it all was the fortune and the fame
But the dream seemed to end just as soon as it had begun, was I to know?
For the last thing of all that was on my mind, was the close at the
End of the show
The shadow of a lonely man, feels nobody else
In the shadow of a lonely, lonely man
I can see myself

(looking out of nowhere, looking out of nowhere)

But the sounds of the crowds when they come to see me now, is not the same
And the jest of it all is I can't recall my name
But I'll cling to a hope till I can't hold on anymore, anymore
And for all the acclaim I am all alone and I see as I look through the door

The shadow of a lonely man, there's nobody else
In the shadow of a lonely, lonely man
I can see myself

Look at me now, a shadow of the man I used to be


Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados.6 (Daniel Faria)

Homens que trabalham sob a lâmpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias

Homens muito dobrados pelo pensamento
Que vêm devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente

Homens que escavam dia após dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabeça
À procura dessa pedra definida

Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento
Livre. Que vêm devagar abrir
Um lugar onde amanheça.
Homens que se sentam para ver uma manhã
Que escavam um lugar
Para a saída.


It's a man's, man's man's world (James Brown)

This is a man's world, this is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl

You see, man made the cars to take us over the road
Man made the trains to carry the heavy loads
Man made electric light to take us out of the dark
Man made the boat for the water, like Noah made the ark

This is a man's, man's, man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl

Man thinks about a little baby girls and a baby boys
Man makes them happy 'cause man makes them toys
And after man has made everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man

This is a man's world
But it wouldn't be nothing, nothing without a woman or a girl

He's lost in the world of man
He's lost in bitterness


Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do chão.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanasious

Ligações
Coldplay, Alan Parsons Project com John Miles, James Brown

Textos:
Daniel Faria

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012