Sons da Escrita 107

6 de Abril de 2007

Segundo programa do ciclo Daniel Filipe

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Daniel Filipe

1.ª Canção (Daniel Filipe)

De ti sabes o nome, a hora exacta, o martelo no relógio, a escassa visão do tempo novo, a vida sempre imatura e, no entanto, desejada.

De ti sabes a calma citadina, a distância entre a casa e o emprego, o perfil da amante, o sabor do café matinal, a maresia súbita.

De ti sabes a idade, a altura, o peso e o vigor dos músculos, a suave atracção da porta do cinema, a misteriosa voz lunar, palavras soltas — gagarine, vostok, estação espacial.

De ti sabes os sinais característicos, quanto pode ser escrito, medido, registado em fichas, passaportes, cartões de identidade. Só não sabes da bala, da pólvora, da arma; só não sabes das mãos, como as tuas, plebeias, erradas mãos do povo; só não sabes do medo, do ódio, da terrível impotência.

Só não sabes da morte antes do tempo, exilado na pátria numa tarde de Maio.


God only knows (Beach Boys) 

I may not always love you
But long as there are stars above you
You never need to doubt it
I'll make you so sure about it

God only knows what I'd be without you

If you should ever leave me
Though life would still go on believe me
The world could show nothing to me
So what good would living do me?

God only knows what I'd be without you
God only knows what I'd be without you

If you should ever leave me
Well life would still go on believe me
The world could show nothing to me
So what good would living do me?

God only knows what I'd be without you
God only knows what I'd be without you


Daniel Filipe

Canto e lamentação na cidade ocupada (2) (Daniel Filipe)

Com ternura crescente, insone, canto.
Com simples flores de angústias, canto.
Em termos de revolta, crise, sonho, ergo, à mesa do café vazio e enorme, meu sonho de viagem sem regresso.
Para enganar a solidão, o medo, digo palavras, música, esperança.

Canto porque estou vivo e amarrado à condição de ser fiel e agreste.
Porque em vão nos destroem a memória com máquinas, rodízios, honorários.
Porque o sol torna fulvo o teu cabelo e apetecem meus lábios os teus seios.

Canto para espantar o espectro indefinido da besta apocalíptica, medonha.
Canto e louvo o teu sonho, amigo anónimo, sonhando e trabalhando, algures oculto.

Canto a tua coragem, general, confinado na prática e fora dela.
Canto como quem morde, ofende, esmaga e, exausto, resiste e sobrevive.

Canto para saber que vale a pena ter voz, músculos, nervos, coração.
À mesa do café, nas ruas, canto.
Nos jardins, nos estádios, sofro e canto.
No quarto abandonado, sonho e canto.
Nos pequenos cinemas, rio e canto.
Entre teus braços doces, choro e canto.

Descerro a aurora com palavras graves, cantando.
Reinvento a melodia, o sol aberto, o amor pelas esquinas, a marca sensual nos ombros nus, a memória da infância, a tua face — e canto.
Inutilmente embora, canto.


How can I keep from singing (Enya)

My life goes on in endless song
above earth's lamentations,
I hear the real, though far-off hymn
that hails a new creation.

Through all the tumult and the strife
I hear it's music ringing,
It sounds an echo in my soul.
How can I keep from singing?

While though the tempest loudly roars,
I hear the truth, it liveth.
And though the darkness 'round me close,
songs in the night it giveth.

No storm can shake my inmost calm,
while to that rock I'm clinging.
Since love is lord of heaven and earth
how can I keep from singing?

When tyrants tremble in their fear
and hear their death knell ringing,
when friends rejoice both far and near
how can I keep from singing?

In prison cell and dungeon vile
our thoughts to them are winging,
when friends by shame are undefiled
how can I keep from singing?


Daniel Filipe

Canto e lamentação na cidade ocupada (6) (Daniel Filipe)

Pelo silêncio na planície, pela tranquilidade em tua voz, pelos teus olhos verdes, estelares, pelo teu corpo líquido de bruma, pelo direito de seguirmos de mãos dadas na solidão nocturna – lutaremos, meu amor!

Pela infância que fomos, pelo jardim escondido que não teve o nosso amor, pelo pão que nos recusam, pela liberdade sem fronteiras, pelas manhãs de sol sem mácula de grades – lutaremos, meu amor!

Pela dádiva mútua da nossa carne mártir, pela alegria em teu sorriso claro, pelo teu sonho imaterial, pela cidade escravizada, pela doçura de um beijo à despedida – lutaremos, meu amor!

Pelos meninos tristes, suburbanos, contra o peso da angústia, contra o medo, contra a seta de fogo, traiçoeira, cravada em nosso doce coração aberto – lutaremos, meu amor!

Na aparência, sozinhos, multidão, na verdade – lutaremos, meu amor!


Can't fight this feeling anymore (REO Speedwagon)

I can't fight this feeling any longer.
And yet I'm still afraid to let it flow.
What started out as friendship,
Has grown stronger.
I only wish I had the strength to let it show. 

I tell myself that I can't hold out forever.
I said there is no reason for my fear.
Cause I feel so secure when we're together.
You give my life direction,
You make everything so clear. 

And even as I wander,
I'm keeping you in sight.
You're a candle in the window,
On a cold, dark winter's night.
And I'm getting closer than I ever thought I might. 

And I can't fight this feeling anymore.
I've forgotten what I started fighting for.
It's time to bring this ship into the shore,
And throw away the oars, forever. 

Cause I can't fight this feeling anymore.
I've forgotten what I started fighting for.
And if I have to crawl upon the floor,
Come crashing through your door,
Baby, I can't fight this feeling anymore. 

My life has been such a whirlwind since I saw you.
I've been running round in circles in my mind.
And it always seems that I'm following you, girl,
Cause you take me to the places,
That alone I'd never find.


Que importa a melodia,
se acaso aos outros dou,
com pávida alegria,
o pouco que me sou?

Que importa ao que me sabe
estar só no meu caminho,
se dentro de mim cabe
a glória de ir sózinho?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Vangelis Papathanasious

Ligações
Beach Boys, Enya, Reo Speedwagon

Textos:
Daniel Filipe

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012