Sons da Escrita 108

13 de Abril de 2007

Terceiro programa do ciclo Daniel Filipe

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Daniel Filipe

Discurso sobre a cidade (Daniel Filipe)

São múltiplas as faces da cidade!
Matinal ou nocturna, para a conhecer é indispensável descobrir todos os seus disfarces.
Quem dela se abeira em busca do rosto único e imutável, busca a simplicidade, que é engano, a evidência no que é íntimo, misterioso, oculto.
Diversa e contraditória aos olhos que a percorram com amor, nisso reside a sua maior grandeza e sua força.

Exterior à cidade, não a possuirás nunca!
É preciso esquecer, é preciso aceitá-la,
como um menino aceita o seio de sua mãe.
É preciso que lhes dês um amor novo — um amor feito de conhecimento e de dádiva.
É preciso que as tuas veias sejam as veias da cidade — e o sangue rubro, vivo, corra cantando nos teus músculos mortais e aflore de sonho as pedras da cidade.
É preciso, afinal, que faças parte da cidade.


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Um homem na cidade (Gil do Carmo) 

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.


Daniel Filipe

Há mais estrelas no céu (Daniel Filipe)

Não sei quantas estrelas tem o céu. Só sei, amigos, que no céu pesado deste inverno portuense brilham agora mais estrelas. Misteriosamente aladas, vertem a sua luz verde, vermelha, azul, por sobre a maré-cheia das coisas e pessoas. Quem passa, ergue os olhos de espanto e maravilha. Só as crianças sabem o que sabem: que as estrelas, por distantes ou próximas que estejam, são sempre a porta aberta da revelação anunciada.

O nome da rua já fala das coisas do céu: Santa Catarina. É feminino, é doce, como o de noiva ou irmã. Estrelas em Santa Catarina, vede! Olhos, que levam o ano presos às contigências humanas, ei-los cheios da cor e da beleza festivas da rua iluminada. Ah, o milagre inexplicado das coisas simplesmente verdadeiras!

Anda no ar – o quê? Mais estrelas, senhores. Mais estrelas para a nossa imperfeição. A voz íntima diz um novo começo à velha história: “Era outra vez...”. E somos, de novo, o príncipe encantado, que só não tem orelhas de burro, porque perdeu com elas a inocência.

Ah, senhores, amigos, gente de toda a parte, comerciantes, engenheiros, filhos-família, operários da construção civil: que bela coisa, as estrelas!
Olhai para elas, pedi por elas, iluminai com elas o vosso coração e a vossa vida. Mesmo quando é de tantos centos de vátios a sua luz acariciadora — como estas de Santa Catarina — que coisa maravilhosa são as estrelas!


Não há estrelas no céu (Rui Veloso)

Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho,
Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho.
De que vale ter a chave de casa para entrar,
Ter uma nota no bolso pr'a cigarros e bilhar?

A primavera da vida é bonita de viver,
Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover.
Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar,
Parece que o mundo inteiro se uniu pr'a me tramar!

Passo horas no café, sem saber para onde ir,
Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir.
Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar,
De manhã ouço o conselho que o velho tem pr'a me dar.

Vou por aí às escondidas, a espreitar às janelas,
Perdido nas avenidas e achado nas vielas.
Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede,
Sai da frente por favor, estou entre a espada e a parede.

Não vês como isto é duro, ser jovem não é um posto,
Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto.
Porque é que tudo é incerto, não pode ser sempre assim,
Se não fosse o Rock and Roll, o que seria de mim?

Não há-á-á estrelas no céu...


Daniel Filipe

Um menino e um cão (Daniel Filipe)

Na minha rua, mora um menino magro e triste. Tem seis anos, conhece o b-a-ba e diz que quer ser, quando for homem, maquinista de combóios.
Somo amigos de tu — amigos verdadeiros, que trocam rebuçados por histórias do colégio e falam de coisas que as pessoas crescidas não entendem. Porque eu, para o menino magro e triste da minha rua solitária, não sou, graças a Deus, uma pessoa crescida.

Quando saio de casa de manhã cedo, o futuro maquinista de combóios vem à janela dizer-me adeus.
“‘Té logo” — grita-me a sua vozinha frágil. “Não t’esqueças dos bonecos”.
Os bonecos são o jornal infantil que lhe ofereço. Aceno-lhe amigavelmente e vou à minha vida, que a Praça é longe e os “eléctricos” são raros.

Ora o meu menino triste estava hoje mais triste do que nunca. E eu que estou sempre apressado, parei um pouco a conversar com ele. Pois há lá coisa mais importante, senhores, do que o sofrimento de um menino? Ao diabo, portanto, o “eléctrico”, os deveres, o trabalho. Não arranco daqui sem saber a verdade.

“Que foi pedrinho?” (Ele não se chama assim, mas não se zanga). “‘Tás a chorar?”
“Estava , sim senhor”.
“E porquê?”.
“Porque o cão do Janeco foi apanhado p’la carroça. E agora o Janeco tem de pagar para o tirar de lá”.
Juro-lhes que nunca o inferno foi mais dramático do que esse “lá” do meu amigo Pedrinho. Eu, que apesar de toda a minha boa vontade sou um pobre adulto sem imaginação, perguntei-lhe desconsoladamente:
“E agora?”

O Pedrinho sorriu. E que sorriso, Deus! Um raiozinho de sol a justificar o dia.
“A gente lá na escola resolveu dar cada um cinco escudos. Depois paga e traz o ‘Tejo’ para casa. Eu pedi ao meu pai que me desse o dinheiro, que eu não lhe peço mais nada até às férias”.
Calou-se.
“Mas ainda faltam vinte. Sabes, é que há meninos que não podem dar tanto. É por isso que estou triste. A senhora diz que se não se paga, matam o ‘Tejo’”...

Ora que pode um homem que nunca teve o cão da sua infância, perante o mistério de um desgosto assim? Fiz uma festa ao Pedrinho e desandei rua abaixo. O ‘Tejo’, a estas horas, já tem coleira nova e brinca ao esconde-esconde na rua sossegada.


Os meninos do Huambo (Paulo de Carvalho)

Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos do Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia
Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras
Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade
Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar
Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar
Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade
Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo
Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo.


Quem tiver sonhos, guarde-os bem fechados
— com naftalina — num baú inútil.
Por mim, abdico desses vãos cuidados.
Deixai-me ser liricamente fútil!

Estou resolvido: Vou abrir falência.
Bandeira rubra desfraldada ao vento:
Hoje, leilão! — Liquida-se a existência,
por retirada para o esquecimento…


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Celtas Cortos, Michael Garrison, David Van Thieghem

Ligações
Gil do Carmo, Rui Veloso, Paulo de Carvalho

Textos:
Daniel Filipe

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012