Sons da Escrita 246

9 de Outubro de 2009

Primeiro programa do ciclo David Mourão-Ferreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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David-Mourão Ferreira

Tentei fugir da mancha mais escura (David Mourão-Ferreira)

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.


Look me in the heart (Tina Turner)

Last night we tried to touch but we never got close
Last night we tried to talk, the words got caught in our throats
When we finally fell asleep
We couldn’t have been further apart 

Look me in the heart
If you think that love is blind
Baby look me in the heart
And you’ll see that I’m so crazy about you baby
And it’s not in my mind
Can’t you look me in the heart
Look me in the heart 

You try to say that I’m hiding from you
You act like a spy always looking for clues
You’ve read about my past
But why don’t we try to make a new start 

Look me in the heart
If you think that love is blind
Baby look me in the heart
And you’ll see that I’m so crazy about you baby
And it’s not in my mind
Can’t you look me in the heart
Look me in the heart 

Remember how good we used to be together
Remember baby, so be tender baby
Remember the love we said would last forever
I know we can make it like that again


David-Mourão Ferreira

E por vezes as noites duram meses (David Mourão-Ferreira)

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.


Time (Alan Parsons Project)

Time
Flowing like a river
Time
Beckoning me
Who knows when we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river
To the sea

Goodbye my love
Maybe for forever
Goodbye my love
The tide waits for me
Who knows when we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river (on and on)
To the sea, to the sea

Till it's gone forever
Gone forever
Gone forevermore

Goodbye my friends (goodbye my love, now I must leave)
Maybe for forever
Goodbye my friends (who knows when we shall meet again)
The stars wait for me
Who knows where we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river (on and on)
To the sea, to the sea

Till it's gone forever
Gone forever
Gone forevermore

Forevermore
Forevermore
Forevermore


David-Mourão Ferreira

Crepúsculo (David Mourão-Ferreira)

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.


Long goodbyes (Camel)

Down by the lake
a warm afternoon -
breezes carry children's balloons.
Once upon a time,
not long ago,
she lived in a house by the grove.
And she recalls the day,
when she left home...

Long good-byes,
make me so sad.
I have to leave right now.
And though I hate to go,
I know it's for the better.
Long good-byes,
make me so sad.
Forgive my leaving now.
You know I'll miss you so
and days we spent together.

Long in the day
moon on the rise -
she sighs with a smile in her eyes.
In the park,
it's late afterall,
she sits and stares at the wall.
And she recalls the day,
when she left home...


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Barry, Luis Delgado & Javier Bergia, Corciolli

Ligações
Tina Turner, Alan Parsons Project, Camel

Textos:
David Mourão-Ferreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012