Sons da Escrita 247

16 de Outubro de 2009

Segundo programa do ciclo David Mourão-Ferreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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David-Mourão Ferreira

Penélope (David Mourão-Ferreira)

Mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

e recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.


Penelope's Song (Loreena McKennitt)

Now that the time has come
Soon gone is the day
There upon some distant shore
You'll hear me say
Long as the day in the summer time
Deep as the wine-dark sea
I'll keep your heart with mine
Till you come to me
There like a bird I'd fly
High through the air
Reaching for the sun's full rays
Only to find you there
And in the night when our dreams are still
Or when the wind calls free
I'll keep your heart with mine
Till you come to me
Now that the time has come
Soon gone is the day
There upon some distant shore
You'll hear me say
Long as the day in the summer time
Deep as the wine-dark sea
I'll keep your heart with mine.
Till you come to me


David-Mourão Ferreira

Paraíso (David Mourão-Ferreira)

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


Paradise (Sade Adu)

I'd wash the sand off the shore
Give you the world if it was mine
Blow you right to my door
Feels fine 

Feels like
You're mine
Feels right
So fine
I'm yours
You're mine
Like paradise 

I'd give you the world if it was mine
Feels fine 

I'd wash the sand off the shore
Give you the world if it was mine
Blow you right to my door
Feels fine 

Feels like
You're mine
Feels right
So fine
I'm yours
You're mine
Like paradise 

Oooh what a life
Oooh what a life
Oooh what a life
Oooh what a life 

I wanna share my life
Wanna share my life with you
Wanna share my life 

Oooh what a life
Like paradise


David-Mourão Ferreira

Presídio (David Mourão Ferreira)

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo…

É sobretudo à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


Prison Song (Graham Nash)

One day a friend took me aside
and said I have to leave you
for buying something from a friend
they say I've done wrong
for protecting the name of a man
they say I'll have to leave you,
so now I'm bidding you farewell
for much too long.
And here's a song to sing,
for every man inside,
if he can hear you sing
it's an open door.
There's not a rich man there,
who couldn't pay his way
and buy the freedom that's a high price
for the poor.
Kids in Texas
smoking grass,
ten year sentence
comes to pass
Misdemeanor
in Ann Arbor,
ask the judges
Why?
One day a friend said to her kids
I'm gonna have to leave you
for selling something to the man
I guess I did wrong
and although I did the best I could
I'm gonna have to leave you
so now I'm kissing you farewell
for much too long.
And here's a song to sing,
for every man inside
if he can hear you sing
it's an open door.
There's not a rich man there
who couldn't pay his way
and buy the freedom that's a high price
for the poor.


subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden, Capercaillie, Jeff Johnson

Ligações
Loreena McKennitt, Sade Adu, Graham Nash

Textos:
David Mourão-Ferreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012