Sons da Escrita 367

5 de Novembro de 2011

Primeiro programa do ciclo Dylan Thomas

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Dylan Thomas

Monte dos fetos

Quando, junto da casa festiva, eu era ainda jovem e ágil
sob os ramos das macieiras, e tão feliz como era verde a erva,
levantava-se a noite sobre as estrelas do vale
e o tempo deixava-me acenar e subir,
dourado, na grande luz dos meus olhos;
era, venerado por todos, o príncipe das cidades das maçãs,
e com orgulho entreguei às árvores e às folhas
um rasto feito de margaridas ou searas
para que descessem cheios de luz os rios dos seus frutos.

Como era ainda novo e famoso entre os celeiros
que rodeiam o pátio feliz, e cantava, pois o campo era o meu lar,
debaixo do sol, que é apenas jovem uma vez,
permitia-me o tempo jogar sem cuidados, e erguer-me
dourado pela graça dos seus próprios bens;
e verde e dourado, era caçador e pastor; cantavam os rebanhos
ao meu apelo; vinha dos montes o grito claro e frio das raposas
e, lentamente, soava a celebração do domingo
pelos seixos dos rios sagrados.

Ao sol, tudo corria e era famoso; os campos de feno
altos como a casa, o canto das chaminés, tudo era ar,
música cheia de encantamento e água
ou fogo tão verde como a erva.
Quando, à luz das estrelas simples do anoitecer,
cavalgava para o sonho, levavam os mochos consigo a herdade
e sentia, ao luar, os murmúrios consagrados da noite pelos estábulos
erguendo-se com as medas, e os cavalos
que brilhavam na sombra.

E, despertando, a herdade era um branco vagabundo
de orvalho, que regressa com um galo no ombro: tudo
brilhava, tudo era como Adão e a primeira mulher,
o céu surgia ao ser novamente criado
e tornava-se ainda maior, à volta deste dia, o sol.
Assim deve ter sido quando surgiu a primeira luz
no movimento do espaço primitivo e, encantados, os cavalos
saíam cheios de suor, de um verde estábulo
para os campos da glorificação.

E na casa festiva, venerado entre raposas e faisões,
sob as nuvens recentes, feliz como é grande o coração
e sentindo o nascimento contínuo do sol,
corria pelos meus descuidados caminhos
e precipitavam-se os meus desejos pelo feno alto da casa,
sem temer, no meu comercio azul como o céu, que concedesse o tempo,
ao longo de uma órbita musical, tão raras e matinais canções
antes que as crianças, verdes e douradas,
o seguissem até perder a graça,

sem temer, nos dias brancos como cordeiros, que me viesse erguer o tempo,
pela sombra da minha mão até o celeiro onde se reúnem
as andorinhas sob a lua que mais uma vez começa a subir,
nem que, ao cavalgar para o sonho,
pudesse escutar o seu voo entre os altos campos
e acordar na herdade que para sempre abandonou a terra sem crianças.
Ah! Quando era jovem e ágil veio o tempo
na graça do seu esplendor prender-me, verde e moribundo,
e eu cantava entre as minhas cadeias como o mar...


Forever young (Bob Dylan)

May God bless and keep you always
May your wishes all come true
May you always do for others
And let others do for you
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young.

May you grow up to be righteous
May you grow up to be true
May you always know the truth
And see the lights surrounding you
May you always be courageous
Stand upright and be strong
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young.

May your hands always be busy
May your feet always be swift
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift
May your heart always be joyful
And may your song always be sung
May you stay forever young
Forever young, forever young
May you stay forever young.


Dylan Thomas

A força que impele através do verde rastilho a flor

A força que impele através do verde rastilho a flor
impele os meus verdes anos; a que aniquila as raízes das árvores
é o que me destrói.
E não tenho voz para dizer à rosa que se inclina
como a minha juventude se curva sob a febre do mesmo inverno.

A força que impele a água através das pedras
impele o meu rubro sangue; a que seca o impulso das correntes
deixa as minhas como se fossem de cera.
E não tenho voz para que os lábios digam às minhas veias
como a mesma boca suga as nascentes da montanha.

A mão que faz oscilar a água no pântano
agita ainda mais a areia; a que detém o sopro do vento
levanta as velas do meu sudário.
E não tenho voz para dizer ao homem enforcado
como da minha argila é feito o lodo do carrasco.

Como sanguessugas, os lábios do tempo unem-se à fome;
fica o amor intumescido e goteja, mas o sangue derramado
acalmará as suas feridas.
E não tenho voz para dizer ao dia tempestuoso
como as horas assinalam um céu à volta dos astros.

E não tenho voz para dizer ao túmulo da amada
como sobre o meu sudário rastejam os mesmos vermes.


Raise a voice (Crosby, Stills & Nash)

We're all on our own
So look at us all
How can we not raise a voice
Against the madness

There isn't the time
To wander or wait
'Cause only the young can carry the weight
And face the silence

Do we run, do we stop
Do we lie down? I think not
There's an answer that we've got
We are not helpless, ooh, ooh, ooh

The vision will stand
As blindness will fall
Now we must look for the light
In the darkness

Do we run, do we stop
Do we lie down? I think not
There's an answer that we've got
We are not helpless


Dylan Thomas

A luz irrompe onde nenhum sol brilha

A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

Nas coxas, uma candeia
aquece as semente da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.

A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.

A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.

A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a
chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.


Light (Mary-Kathryn)

There is a light that shines
Shines for all to see
And it’s shining for the blind
Oh, light, shine down on me
In the light
I know I am free
And that light there is peace
Open your eyes
And you will see
The light that shines for you and me


Através de um vaso de fenos, o relógio que oscila
pronuncia a palavra das horas, o sentido enervado
paira sobre o círculo do pêndulo, declama a manhã
e vem anunciar no cata-vento a tempestade.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Musicbank

Ligações
Bob Dylan, Crosby, Stills & Nash, Mary-Kathrin

Textos:
Dylan Th Thomas

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012