Sons da Escrita 369

19 de Novembro de 2011

Terceiro programa do ciclo Dylan Thomas

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Dylan Thomas

Porque nos gela o vento de leste

Porque nos gela o vento de Leste e nos refresca o do Sul
não o sabemos enquanto não fiquem vazias as fontes dos ventos
e que os de oeste deixem de estar submersos
naqueles que transportam consigo a casca das árvores e os frutos
que, cada vez mais, não param de cair;
porque vem a pedra feri-la e é suave a seda
há-de a criança perguntar ao longo de cada dia;
porque a chuva das noites e o sangue do seio
satisfazem a sua sede, para ela será sempre obscuro.

Quando chega o homem da neve? – perguntam as crianças.
Serão capazes de segurar as suas mãos um cometa?
Enquanto que, vinda de todos os lados, a poeira
não lance nos olhos das crianças um prolongado sono
e os seus fantasmas não tenham povoado as sombras,
nenhum eco branco há-de descer dos tectos.

Tudo é conhecido: o apelo das estrelas
traz a alegria para que possa viajar com os ventos,
ainda que a pergunta das estrelas ao cercarem
ao longo das estações as torres que há no céu
mal se possa escutar antes que elas se extingam.
Escuto a felicidade, e dizer “Sê feliz!”
que soa como uma campainha ao longo dos corredores
e também “Nenhuma resposta!”, e ignoro
o que se possa responder aos gritos das crianças
que chegue trazido pelos ecos, ou o homem da geada
e os fantasmas sobre as suas mãos erguidas.


Against the wind (Bob Seger)

It seems like yesterday
But it was long ago
Janey was lovely she was the queen of my nights
There in the darkness with the radio playing low
And the secrets that we shared
The mountains that we moved
Caught like a wildfire out of control
'Til there was nothing left to burn and nothing left to prove
And I remember what she said to me
How she swore that it never would end
I remember how she held me oh so tight
Wish I didn't know now what I didn't know then 

Against the wind
We were runnin' against the wind
We were young and strong, we were runnin'
Against the wind 

The years rolled slowly past
And I found myself alone
Surrounded by strangers I thought were my friends
I found myself further and further from my home
And I guess I lost my way
There were oh so many roads
I was living to run and running to live
Never worryied about paying or even how much I owed
Moving eight miles a minute for months at a time
Breaking all of the rules that would bend
I began to find myself searching
Searching for shelter again and again 

Against the wind
A little something against the wind
I found myself seeking shelter sgainst the wind 

Well those drifter's days are past me now
I've got so much more to think about
Deadlines and commitments
What to leave in, what to leave out 

Against the wind
I'm still runnin' against the wind
I'm older now but still runnin' against the wind
Well I'm older now and still runnin'
Against the wind
Against the wind
Against the wind 

Still runnin'
I'm still runnin' against the wind
I'm still runnin'
I'm still runnin' against the wind
Still runnin'
Runnin' against the wind
Runnin' against the wind
See the young man run
Watch the young man run
Watch the young man runnin'
He'll be runnin' against the wind
Let the cowboys ride
Let the cowboys ride
They'll be ridin' against the wind
Against the wind ...


Dylan Thomas

Onde corriam outrora as águas da tua face

Onde corriam outrora as águas da tua face
para as minhas hélices, chega o sopro árido do espírito
e os mortos entreabrem os seus olhos;
onde outrora os tritões através do teu gelo
erguiam os cabelos, o árido vento navega
através do sal, ovos de peixes e raízes.

Onde outrora os teus verdes nós mergulharam
as extremidades na corda trazida pelas marés,
eis que aparece o verde ceifeiro
com as suas tesouras oleadas e uma lâmina suspensa
para cortar os braços do mar na sua origem
e deixar cair os húmidos frutos.

O rumor das tuas marés invisíveis
rompe sobre as camas nupciais das algas;
perderam as algas do amor a sua frescura,
e, à volta das tuas pedras, ali caminham
as sombras de crianças que a partir da sua ausência
choram para um mar de delfins.

Áridas como um túmulo, as tuas coloridas pálpebras
não poderão fechar-se enquanto desliza a magia
com solenidade sobre os céus e a terra;
à volta do teu leito haverá corais
e ao longo das tuas marés nascerão serpentes,
até que morra a nossa crença no mar.


Tracks of my tears (Go West)

People say I'm the life of the party
'cause I tell a joke or two
Although I might be laughing loud and hearty
Deep inside I'm blue
So take a good look at my face
You'll see my smile looks out of place
If you look closer, it's easy to trace
The tracks of my tears..
I need you, need you
Since you left me if you see me with another girl
Seeming like I'm having fun
Although she may be cute
She's just a substitute
Because you're the permanent one..
So take a good look at my face
You'll see my smile looks out of place
If you look closer, it's easy to trace
The tracks of my tears..
I need you, need you
Outside I'm masquerading
Inside my hope is fading
Just a clown oh yeah
Since you put me down
My smile is my make up
I wear since my break up with you..
So take a good look at my face
You'll see my smile looks out of place
If you look closer, it's easy to trace
The tracks of my tears


Dylan Thomas

A mão ao assinar este papel

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco dedos levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.


Sign your name (Terence Trent d’Arby)

Fortunately you've got someone who relies on you
we started out as friends
but the thought of you just caves me in
the symptoms are so deep
it's so much too late to turn away
we started out as friends
sign your name across my heart
i want you to be my baby
sign your name across my heart
i want you to be my lady
time i'm sure will bring
disappointments in so many things
it seems to be the way
when your gambling cards on love you olay
i'd rather be in hell with you baby
then in cool heaven, it seems to be the way
sign your name across my heart
i want you to be my baby
sign your name across my heart
i want you to be my lady
birds never look into the sun
before the day is gone
but ohthe light shines bright
in a peacefull day,stranger blue leave us alone
we don't want to deal with you
we'll shed our stains showering
in the room that makes the rain
all alone with you,makes the butterflies in me arise
slowly we make love,and the earth rotates on our dictates
slowly we make love…
sign your name across my heart…


Assim encerrado numa torre de palavras eu desenho
sobre o horizonte, ao caminhar como as árvores,
os perfis verbais das mulheres e, num parque, as filas longas
das crianças cujos gestos se assemelham a estrelas.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mychael Danna & Jeff Danna

Ligações
Bob Seger, Go West, Terence Trent d’Arby

Textos:
Dylan Th Thomas

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012