Sons da Escrita 042

31 de Dezembro de 2005

Terceiro programa do ciclo Eugénio de Andrade

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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EugéniodeAndrade

Como se houvesse uma tempestade (Eugénio de Andrade)

Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.


Lies (Camel)

Tell me no lies,
has peace arrived...
Or, is this some kind of joke?

What a surprise,
you don't realise...
There's some things you don't own.

Can you disguise,
can you simplify...
This change you put me through?

Can you revive,
and will I survive...
This life you've brought me to?


EugéniodeAndrade

A paixão (Eugénio de Andrade)

Levanto a custo os olhos da página;
ardem;
ardem cegos de tanta neve.
Faz dó esta paixão pelo silêncio,
pelo sussurro do silêncio,
pelo ardor
do silêncio que só os dedos adivinham.
Cegos, também

Donde vêm?
Donde vêm?
De que rosto, de que estrela?
Apenas uma arde no vento.
As outras, fico a ouvi-las
escorrer da pedra.
Apenas uma em silêncio brilha.
As outras mordem
um coração de homem.
Só prometido à terra.


La chanson de Slogan (Serge Gainsbourg)

- Tu es faible tu es fourbe tu es fou
Tu es froid tu es faux tu t'en fous
- Évelyne je t'en pris Évelyne dis pas ça
Évelyne tu m'as aimé crois-moi

- Tu es vil tu es veule tu es vain
Tu es vieux tu es vide tu n'es rien
- Évelyne tu es injuste Évelyne tu as tort
Évelyne tu vois tu m'aimes encore


EugéniodeAndrade

O amor (Eugénio de Andrade)

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.


Wish you were here (Pink Floyd)

So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain.
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

Did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange
A walk on part in a war,
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears.
Wish you were here.


EugéniodeAndrade

O sal da língua (Eugénio de Andrade)

Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém - mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem vindo devagar. São três, quatro palavras, pouco mais. Palavras que te quero confiar, para que não se extinga o seu lume, o seu lume breve. Palavras que muito amei, que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.



Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Eric Clapton

Ligações
Camel, Serge Gainsbourg, Pink Floyd

Textos:
Eugénio de Andrade

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make



© José-António Moreira 2012