Sons da Escrita 346

11 de Junho de 2011

Primeiro programa do ciclo Fernando Echevarría

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Echevarria

In memoriam

A meu pai

Cada dia te víamos andando
mais para dentro de ti mesmo. O tempo
ia ficando parado
à medida que o sangue, mais pequeno,
circulava num espaço
que já era seu próprio esquecimento.
A certa altura, a placidez do campo
lavrava o teu rosto. Que terreno
era então ver-te olhando,
como se o olhar e o fio do centeio
fossem a luz do ano
com nostalgia de parecer eterno.
Foi essa a idade em que haver sido amado
pelo pão, pelo vinho e pelo vento
te trouxe a crestação com que o trabalho
deu tez ao sonho, e honradez e peso
a ficares assim, em paz sentado,
marceneirando teu próprio pensamento.
E, aos poucos, por ele madrugando,
seguiste ainda mais por ele adentro,
de forma que, hoje, nem te vemos. O halo
onde foste minguando é só aceno
de quem se foi pensando
até ao outro lado de si mesmo.


The hour candle — A song from my father (Camel)

(instrumental)


Fernando Echevarria

Amor à vista

Entras como um punhal
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida. 

Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.

Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
para quem a suporte.

Mas o mar e os montes ...
isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.

Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.

Mar e montes teus beijos, meu amor,
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.

Mar e montes teus beijos, meu amor!…


Cover you in kisses (John Michael Montgomery)

You say it's cold back there in Denver
A foot of new snow on the ground
You're all bundled up in blankets
I'd give anything to be there with you now

I'd cover you in kisses
Hold you in my arms
That's all that I can think of
Every minute we're apart
Darlin' I've been livin'
For the moment that we touch
So I can cover you in kisses
And wrap you in my love

Baby keep that fire burnin'
Pour a glass of that sweet wine
Let your hair down on your shoulders
And I'll be there just in time

To cover you in kisses
Hold you in my arms
That's all that I can think of
Every minute we're apart
Darlin' I've been livin'
For the moment that we touch
So I can cover you in kisses
And wrap you in my love

Darlin' I've been livin'
For the moment that we touch
So I can cover you in kisses
And wrap you in my love
I wanna cover you in kisses
And wrap you in my love


Fernando Echevarria

Abraço

Tu. Aqui. Minha serpente
amarra-te à eternidade.
Tu – aqui – pedra e saudade.
Tu, com toda tu ausente.

Beijas. Teu beijo desliza.
E meu lábio não se atreve
a persegui-lo na neve
e curvas mortais da brisa.

Beijo. E o meu beijo afunda.
É tão flecha na ferida
que eu sinto fugir-te a vida
como uma água profunda.

E tu aqui. Tão pesada
no coração, tão presente
como montanha de nada,
retrato frio e doente.

Escultura simples da ardência
duma rosa sobre o mar.
Bela. Só para te amar
sem a orquestra da imprudência.

Mas tu aqui. Quase pura
lembrança, em carne, de ti.
Tu. Presença que murmura
vontade de estar aqui.


Here (America)

I am thinkin' 'bout the days
We led ourselves astray
In more than many ways
Here, within the time we've spent
Wonderin' what we meant
By livin' all those years
By livin' all those years 

We are here with nothing to do today
It's something we can't explain
And tomorrow, where will we be tomorrow?
What will we see today? 

I am thinkin' 'bout the days
We led ourselves astray
In more than many ways
(Here) Here, within the time we've spent
Wonderin' what we meant
By livin' all those years
(Here) By livin' all those years
(Here) By livin' all those years
(Here) By livin' all those years
(Here) By livin' all those years
(Here, here, here ...)


Fernando Echevarria

Pálpebras de silêncio e castidade

Pálpebras de silêncio e castidade
caíram entre a massa do amor
e a inflexível espada interior
que despe até à luz a realidade.

Pálpebras com guarda à saudade
dos corpos, agrupados no esplendor
da presença. Mas corpos sem tremor
de carne, e corpos de total verdade.

Presença que me guarda o mundo intacto.
Mundo feliz, por ser apenas facto
dentro de mim e a quem já ninguém sabe os

encantos. Amo então. E devagar
rompo ao fundo de cada flor um mar
que venha derrubar-se nos meus lábios.


Silence and I (Alan Parsons Project)

If I cried out loud
all the sorrows I've Known
And the secrets I've heard
It would ease my mind
Someone sharing the load
But I won't breathe a word

We're two of a kind
Silence and I
We need a chance to talk things over
Two of a kind
Silence and I
We'll find a way to work it out

While the children laughed
I was always afraid
of the smile of the clown
So I close my eyes
Till I can't see the light
And I hide from the sound

We're two of a kind
Silence and I
We need a chance to talk things over
Two of a kind
Silence and I
We'll find a way to work it out

I can hear the cry
Of the leaf on a tree
As it falls to the ground
I can hear the call
of an echoing voice
And there's no one around

We're two of a kind
Silence and I
We need a chance to talk things over
Two of a kind
Silence and I
We'll find a way to work it out


No silêncio das mãos começam tréguas.
Tréguas de lágrimas.
Que se povoam de amor
como as águas:
de tanto o pensar, trazem a carne
do amor na alma.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Devakant

Ligações
Camel, John Michael, Montgomery, America, Alan Parsons Project

Textos:
Fernando Echevarría

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012