Sons da Escrita 347

18 de Junho de 2011

Segundo programa do ciclo Fernando Echevarría

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Echevarria

Aquele outro que nos lê

Aquele outro que nos lê
lê-nos outro, e entre os dois,
não há antes nem depois.

Nem há dois, nem mesmo entre,
mas uma mágoa tão dada
que ler outro é a semente
de sermos só um na mágoa.

E na mágoa em que se lê
não há antes nem depois
mas um vagar sem os dois.


Please read the letter (Robert Plant & Allison Krauss)

Caught out running - just a little too much to hide
Baby baby, everything's gonna work out fine
Please read the letter - I nailed it to your door
It's crazy how it all turned out - you needed so much more
Too late to play - the fool can read the signs
Baby baby, you better check between the lines
Please read the letter I wrote in my sleep
With the help and consultation of the angels of the deep

Once I stood beside the well of many words
My house was full of rings and charms and pretty birds
Please understand me - my walls came falling down
There's nothing here that's left for you
But check with Lost and Found

Please read the letter that I wrote
Please read the letter that I wrote

One more song, just before we go
Remember, baby, the things we used to know
Please read my letter and promise me you'll keep
The secrets and the memory to cherish in the deep
Please read the letter that I wrote
Please read the letter that I wrote
Please read the letter that I wrote


Fernando Echevarria

Última lição de psicanálise

1
Que triste que era não ser triste nunca.
Andar à chuva como deve andar
quem por ela se molha e nela estuda,
pensando dela o que pensado está.

Ou passeando ao sol do mesmo modo.
Como se andar por ele andasse em si,
nem triste nem alegre, mas só como
ao sol a que anda e que se move ali.

Com, evidentemente, a consciência
de passar no relevo dessa imagem
como se passa pela indiferença

de se saber um ponto na paisagem.
E de saber que nunca houve tristeza,
nem ser triste foi triste, mas passagem.

2
Que triste que era não ser triste nunca.
Como uma noite em que chovia e era
aquela noite por aquela chuva
com os carros passando na janela.

Tudo era exacto, como trazer a luva
e, sob a luva, a divisão perfeita
da modelada mão e da nervura
premindo a outra na sua independência.

E a própria perfeição de se estar sendo,
na harmonia geral da natureza,
ensimesmado e outro em pensamento

era tão triste sem qualquer tristeza
como a chuva ser chuva. E pesadelo
a mão descalça na solidão da mesa.

3
Como seria ser triste
sem esta ciência clara
de que a tristeza consiste
em nunca ninguém ser triste
mas vulto só que pensara?

Ou, como ser, simplesmente,
sendo alegre, e se pensando
vulto vindo na semente
de ver-se tão transparente
que é outro se si cantando?

4
Onde estivermos estarão somente
os sonhos que nos sempre acompanharam.
Absolutos reais. Mas nus da gente
que tão bem de si próprios mascararam.

A mascarada seguiu seu próprio vento,
de sombra atropelando a madrugada.
Que, entrando, atraca. Nem mesmo ao esquecimento.
Mas a, de si, nem nele ser mais nada.

Em si, então, o sonho, só, cintila.
Coroando estarmos a o pensar
abóbada celeste, enquanto ouvi-la

radiosa inflama a música estelar.
E o nu do sonho pelo celeste trila,
tudo se entrando, ardente, a decifrar.


Most of us are sad (Eagles)

Most of us are sad
No one lets it show
I've been shadows of myself
How was I to know?
Tell me scarlet sun
what will time allow?
We have brought our children
here Who can save them now?
Oh, Weeping woman try to smile
Like the coming dawn
Most of us are sad it's true
Still we must go on
Love was here today
Oh the sun was bright
I will sing you faraway
Love is here tonight
Most of us are sad
No one lets it show
I've been shadows of myself
How was I to know?


Fernando Echevarria

O acto de passar desprende sempre

O acto de passar desprende sempre
uma espécie de luz, quando o que passa
vai tão dentro de si que se pressente
no alheamento o enigma que o enlevara.

Por isso, após ter o percurso longe
levado a funda encantação do acto,
a luz, aquém, nos assinala aonde
houve arrepio de se haver passado.

E, então, a luz adquire a genuína
transparência de ser um arrabalde
consciente de si, com cada esquina

atónita de estar. E a que nem falte
o imperceptível toque de tristeza
de estar ainda inutilmente acesa.

Não é o que passa que nos faz estar tristes.
É amarmos que passe na tristeza,
tocado à luz interior que exige
cada vulto chegado à transparência.
Porque amarmos que passe é um limite.
A luz aí se eleva
em cada vulto. E assiste-se
ao apogeu de trânsito e inocência.
Cada qual se despede. E cada qual é triste.
Mas todos cumprem a rotação imensa
e, chegados ao apogeu, assistem.
Amam o lume abrupto da tristeza.


Passing time (Clannad)

You can win or lose and be excused
The sudden change of plan
As a __ reality, it's very clear
But a loser always loses in the end
Always in the end

For a long time now
I'm passing time
Still I know somehow
I'll learn to try
I'm passing time

You may ask for gifts, just anyone
The right __
I'm not so sure it's anything at all
For a loser is still losing in the end
Losing in the end

Yes, I am aware of passing time
Without a care in sight
I can feel the changes coming very soon
And a loser won't be losing in the end
Losing in the end

Passing time
Passing time


Fernando Echevarria

Grito

Rasgaste
o corpo da solidão.
E agora,
de rosa ao ombro,
foste-te embora.
Depois, os dentes cerraram
a ferida ensanguentada.
E Deus
parece que não viu nada.
Deus,
não viu nada.


Sometimes I feel like screaming (Deep Purple)

While you were out...
the message says
You left a number
and I tried to call
But they wrote it down
in a perfect Spanish scrawl
in a perfect Spanish scrawl 

Yet again
I'm missing you
King size bed
(in a) hotel someplace
I hear your name
I see your face
I see your face 

(The) back street dolls
and the side door johnnies
The wide eyed boys with their bags full of
money
Back in the alley
going bang to the wall
Tied to the tail
of a midnight crawl
Heaven wouldn't be
so high I know
if the times gone by
hadn't been so low
The best laid plans
come apart at the seams
and shatter all my dreams 

Sometimes I feel like...
Screaming
close my eyes
It's times like this
my head goes down
and the only thing I know
is the name of this town
is the name of this town 

Yet again
I'm missing you
won't be long
O' coming home
Until that distant time
I'll be moving on
I'll be moving on


1
Reúno
a solidão num punho.
E arde a noite.
Como
se rebentasse no pulso
a semente do fogo.

2
Mas se eu abrisse os dedos
os rios arderiam.
E nunca mais seria possível o silêncio.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Michael Whalen

Ligações
Robert Plant, Alison Krauss, Eagles, Clannad, Deep Purple

Textos:
Fernando Echevarría

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012