Sons da Escrita 348

25 de Junho de 2011

Terceiro programa do ciclo Fernando Echevarría

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Echevarria

Cada poema actualiza a morte

Cada poema actualiza a morte.
De onde madruga o poeta
para uma outra que lhe vem de longe.
E, novamente, o leva.
E lê-los é andar a monte.
Ou no fio do poema
com alcatruzes a trazer à noite
o susto. Os animais. Enfim, a entrega
a um ritmo de vigília. Que abre a morte
e a madrugada dela.


Poètes, vos papiers! (Léo Ferré)

Bipède volupteur de lyre
Epoux châtré de Polymnie
Vérolé de lune à confire
Grand-Duc bouillon des librairies
Maroufle à pendre à l'hexamètre
Voyou décliné chez les Grecs
Albatros à chaîne et à guêtres
Cigale qui claque du bec

Poète, vos papiers!

J'ai bu du Waterman et j'ai bouffé Littré
Et je repousse du goulot de la syntaxe
A faire se pâmer les précieux à l'arrêt
La phrase m'a poussé au ventre comme un axe

J'ai fait un bail de trois six neuf aux adjectifs
Qui viennent se dorer le mou à ma lanterne
Et j'ai joué au casino les subjonctifs
La chemise à Claudel et les cons dits "modernes"

Syndiqué de la solitude
Museau qui dévore du couic
Sédentaire des longitudes
Phosphaté des dieux chair à flic
Colis en souffrance à la veine
Remords de la Légion d'honneur
Tumeur de la fonction urbaine
Don Quichotte du crève-cœur

Poète, vos papiers!
Poète, Papier!

Le dictionnaire et le porto à découvert
Je débourre des mots à longueur de pelure
J'ai des idées au frais de côté pour l'hiver
A rimer le bifteck avec les engelures

Cependant que Tzara enfourche le bidet
A l'auberge dada la crotte est littéraire
Le vers est libre enfin et la rime en congé
On va pouvoir poétiser le prolétaire

Spécialiste de la mistoufle
Emigrant qui pisse aux visas
Aventurier de la pantoufle
Sous la table du Nirvana
Meurt-de-faim qui plane à la Une
Ecrivain public des croquants
Anonyme qui s'entribune
A la barbe des continents

Poète, vos papiers!
Poète, documenti!

Littérature obscène inventée à la nuit
Onanisme torché au papier de Hollande
Il y a partouze à l'hémistiche mes amis
Et que m'importe alors Jean Genet que tu bandes

La poétique libérée c'est du bidon
Poète prends ton vers et fous-lui une trempe
Mets-lui les fers aux pieds et la rime au balcon
Et ta muse sera sapée comme une vamp

Citoyen qui sent de la tête
Papa gâteau de l'alphabet
Maquereau de la clarinette
Graine qui pousse des gibets
Châssis rouillé sous les démences
Corridor pourri de l'ennui
Hygiéniste de la romance
Rédempteur falot des lundis

Poète, vos papiers!
Poète, salti!

Que l'image soit rogue et l'épithète au poil
La césure sournoise certes mais correcte
Tu peux vêtir ta Muse ou la laisser à poil
L'important est ce que ton ventre lui injecte

Ses seins oblitérés par ton verbe arlequin
Gonfleront goulûment la voile aux devantures
Solidement gainée ta lyrique putain
Tu pourras la sortir dans la Littérature

Ventre affamé qui tend l'oreille
Maraudeur aux bras déployés
Pollen au rabais pour abeille
Tête de mort rasée de frais
Rampant de service aux étoiles
Pouacre qui fait dans le quatrain
Masturbé qui vide sa moelle
A la devanture du coin

Poète .... circulez!
Circulez poète!
Circulez!


Fernando Echevarria

Estamos aqui

Estamos aqui. E esta aqui é casa
onde somente se ilumina a mesa
que deixa para trás, e a ocupá-la,
toda a luz que não seja a da paciência.
A mesa mesmo, quase que desaba
na invisibilidade da tarefa,
para se esclarecer ali a trama
e a coesão críptica dela.
Mas resplandece. Traz acima a herança
imprevisível. Com a transparência
de pulso rodeado, aonde espanta
a sua justa nitidez apenas.
Já não estamos aqui. Estamos em alma.
E a alma é altura santa de estranheza.


How is it – We are here (Moody Blues)

How is it we are here, on this path we walk,
In this world of pointless fear, filled with empty talk,
Descending from the apes as scientist-priests all think,
Will they save us in the end, we're trembling on the brink.

Men's mighty mine-machines digging in the ground,
Stealing rare minerals where they can be found.
Concrete caves with iron doors, bury it again,
While a starving frightened world fills the sea with grain.

Her love is like a fire burning inside,
Her love is so much higher it can't be denied,
She sends us her glory, it's always been there,
Her love's all around us, it's there for you and me to share.

Men's mighty mine-machines digging in the ground,
Stealing rare minerals where they can be found.
Concrete caves with iron doors, bury it again,
While a starving frightened world fills the sea with grain.

How is it we are here
How is it we are here
How is it we are here


Fernando Echevarria

Os amigos assentam

Os amigos assentam. São um vinho
que a transparência da velhice expurga.
Ficam à volta. A iluminar o sítio
onde o conhecimento quase exulta
e convoca também. Para o exílio
consagrar o sabor da sua fruta
e a mesa apaziguada do domingo.
Desse domingo em que o respeito escuta.
E ergue a companhia dos amigos
a luz imóvel. A despedida. A última
designação pneumática de brilho
com que o nosso comove a lenta curva
da inteligência. E se abre. Inflama o ritmo
que fica a dar para a fronteira arguta
onde o fogo consome o seu exílio
e a luz braceja a sua origem dupla.


Old friends (Simon & Garfunkel)

Old friends, old friends,
Sat on their parkbench like bookends
A newspaper blown through the grass
Falls on the round toes
of the high shoes of the old friends

Old friends, winter companions, the old men
Lost in their overcoats, waiting for the sunset
The sounds of the city sifting through trees
Settle like dust on the shoulders of the old friends

Can you imagine us years from today,
Sharing a parkbench quietly
How terribly strange to be seventy

Old friends, memory brushes the same years,
Silently sharing the same fears


Fernando Echevarria

Abriu-se no silêncio mais silêncio

Abriu-se no silêncio mais silêncio.
Ia dele crescendo a paz implícita
e o grande vagar de um movimento
que, de dentro de si, recrudescia.
Era lugar imensamente externo.
Ali, pungir-se singular a vida
prolongava o espaço pelo espaço dentro.
E pelo azul a desdobrar a vinda
ao encontro feliz de irmos vencendo
os alicerces das categorias.
Ou o infinito abria no silêncio
sua matriz de solidão activa
para o sentido progredir, atento
à mobilização que o expandia.


Silent lucidity (Queensryche)

Hush now, don't you cry
Wipe away the teardrop from your eye
You're lying safe in bed
It was all a bad dream
Spinning in your head
Your mind tricked you to feel the pain
Of someone close to you leaving the game of life
So here it is, another chance
Wide awake you face the day
Your dream is over... or has it just begun?

There's a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn't realize and you were scared
It's a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension

I- will be watching over you
I- am gonna help you see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you, in Silent Lucidity

[Visualize your dream]
[Record it in the present tense]
[Put it into a permanent form]
[If you persist in your efforts]
[You can achieve dream control]
[Dream control]
[I'll do better than that]
[Dream control]
[Dream control]
[Dream control]
[Dream control]
[Help me]

If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
Living twice at once you learn
You're safe from pain in the dream domain
A soul set free to fly
A round trip journey in your head
Master of illusion, can you realize
Your dream's alive, you can be the guide but...

I- will be watching over you
I- am gonna help to see it through
I- will protect you in the night
I- am smiling next to you....


Abraço
A muitos mares de mim
estás tu. Estás a dois passos.
Muralhas. Ferros. Tem fim
a música dos meus braços?
Nó. A morte vem aí.
Entras por mim, eu por ti
à força de amor. Já só
o exemplo e a luz do espaço.
Apertámos tanto o nó
que fomos além do abraço.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Léo Ferré, Moody Blues, Simon & Garfunkel, Queensryche

Textos:
Fernando Echevarría

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012