Sons da Escrita 349

2 de Julho de 2011

Quarto programa do ciclo Fernando Echevarría

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Echevarria

Tudo é nítido

Tudo é nítido. Condiz
com esta felicidade
de estar a ver o confim
de cada coisa. Da tarde.
Não há para além. Há aqui.
Um aqui que tudo sabe
por tudo envolver em si
e na sua dignidade.
Até a gaivota é feliz
no atropelo com que abre
o ponto azul a fugir,
não para além. Pelo grave
ritmo de levar o aqui
e levar também a tarde.


Tudo traz ponta de pena

Tudo traz ponta de pena.
Mas a pena também traz
sua alegria. Que alegra
a pena que está por trás.

E a intriga que vem delas
é uma textura capaz
de dizer o que com elas,
sem essa intriga, não há.

Ou o que fica é a textura
com a ponta extinta. E mágoa
duma alegria que funda
estarmos a ver quem passa.

E há o vagar. Não o de irmos.
O de fruir o vagar
com que amando vamos sítios
que dão para onde vai
o de um mais longe infinito
- que é o que se ama ainda mais.
Ou é o amor de irmos indo
que santifica o vagar.
O novo lugar abrindo-
-se a não haver mais lugar.


Clearly quite absurd (Deep Purple)

After all we said today
The strangest thought occurred
I feel I ought to tell you
But it's clearly quite absurd
Wouldn't it be wonderful
If you could read my mind
Imagine all the stuff
That we could leave behind
How many words you waste
Before you're understood
Or simply sow some seeds
You'd do it if you could
Let me take a moment
Of your time
Inside you mind

I know what you're thinking
But I don't know what to say
The turmoil and the conflict
You don't have to feel that way
Look into my eyes
And feel my hand upon your heart
Holding us together
Not tearing us apart
How many words we waste
To justify a crime
Compare it to an act of love
That really takes no time
Why not take a moment
Of your time
Inside your mind


Fernando Echevarria

Beijo

Entrou. Sim, flecha. Sim, viva.
Lábios ou arco? Só lume
poderá levá-lo ao cume
de carne tão agressiva.
Partiu… Pela carne dentro
treme, espírito… cume! O centro
cintila. A alma é perto.
No alvo, por fim, no alvo!
Estrelas, o céu aberto,
porque este beijo está salvo.


Kiss & tell (Bryan Ferry)

Ten cents a dance
It's the only price to pay
Why give ´em more
When it's only love for sale?
Adam and Eve
It's the oldest game in town
Just a one way street
To a faded magazine
Kiss and tell
Money talks - it never lies
Kiss and tell
Give and take - eye for an eye
Fever - the heat of the night
Dreamer - stealer of sighs
One public face
In a private limousine
Flash photograph
It's the only light you see
No secret life
There's no secret you can steel
Your lips are moving
But I will never know
What they mean
Kiss and tell
Money talks - and love, it burns
Kiss and tell
Give and take - we live and learn
Kiss and tell
We never lie
Kiss and tell
Eye for an eye
Kiss and tell
Blood on a nail
Kiss and tell
Kiss me again

Kiss and tell


Fernando Echevarria

As palavras de amor

Não posso mais. Caem lentas
e maduras como horas
de lágrimas. Não sustentas
robustas pedras sonoras.
Um coração ao compasso
de cada fruto maduro,
que rebenta quanto apuro
no silêncio do que faço.
Um coração passo a passo
do coração prematuro.


After words (Camel)

(instrumental)


Chuva de amor
Força de amor te derruba
no furor do pensamento.
Mas não como bloco. Em chuva
arremessada no vento.
E és minha lentamente
enquanto a terra se sente
beber-te a água sem fim.
Não podes negar-te. Vives
com a linha de declives
inclinada sobre mim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
Deep Purple, Bryan Ferry, Camel

Textos:
Fernando Echevarría

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012