Sons da Escrita 210

6 de Fevereiro de 2009

Primeiro programa do ciclo Fernando Guimarães

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Guimarães

Este é o livro que procuraste (Fernando Guimarães)

Este é o livro que procuraste. Vês como são leves
as folhas. As palavras encontram-se apagadas; ficaram
perdidas as últimas páginas. O silêncio espalha-se
pelas outras e os teus olhos conservam-se fechados. A névoa
desce, vem agora pesar sobre o teu corpo que permanece
um pouco inclinado sobre uma mesa vazia. Assim chegaste
junto dela e principias a ler este livro que não existe.


Book Of Dreams (Suzanne Vega)

I took your urgent whisper
Stole the arc of a white wing
Rode like foam on the river of pity
Turned its tide to strength
Healed the hole that ripped in living

In my book of dreams

The spine is bound to last a life
Tough enough to take the pounding
Pages made of days of open hand

In my book of dreams

Number every page in silver
Underline in magic marker
Take the name of every prisoner
Yours is there my word of honor

I took your urgent whisper
Stole the arc of a white wing
Rode like foam on the river of pity
Healed the hole that ripped in living

In my book of dreams


Fernando Guimarães

Refiro-me ao mar (Fernando Guimarães)

Refiro-me ao mar, à areia, a essa rede dispersa e transparente.
Isto é o que escrevo e tu, leitor, vens acrescentar algumas palavras;
sempre foi assim. Procuro encontrar à volta um pouco mais de luz,
e se ela chegou foi porque a trazias contigo. Nenhuma outra sugestão podia
ser igual e ajustar-se tão bem… Sem pressa, as ondas atravessam-na
e dispensam ao espírito de ambos um rumor diferente. Encontro
significados que não são iguais aos teus mas que depois se aproximam
para atingirem a unidade. Acabamos por chegar ao mesmo sítio,
talvez um pouco mais cansados. Repara, quantas vezes me esquecia
do que disseste como se fosse apenas eu aquele que se encontra
ausente. Mas a tua mão estende-se, vem tocar na minha e a imagem
que sugeriste em voz baixa completa a que me ocorre. As ondas
chegam de novo. Eu emendo uma palavra, tu duas. Acrescentamos
algumas linhas mais. Como o que se escreve se torna longo! Agora ocupo
uma das extremidades e tu a oposta. Já não nos vemos um ao outro.


You Won't See Me (Ann Murray)

When I call you up
Your line's engaged
I have had enough
So act your age
We have lost the time
That was so hard to find
And I will lose my mind
If you won't see me
You won't see me

I don't know why
You should want to hide
But I can't get through
My hands are tied
I won't want to stay
I don't have much to say
But I can't turn away
And you won't see me
You won't see me

Time after time
You refuse to even listen
I wouldn't mind
If I knew what I was missing
Though the days are few
They're filled with tears
And since I lost you
It feels like years
Yes, it seems so long
Girl, since you've been gone
And I just can't go on
If you won't see me
You won't see me


Fernando Guimarães

Savonarola (Fernando Guimarães)

O fogo aumenta nos meus olhos. O que se incendeia são as árvores
que crescem como se fossem livros. O zelo é uma espécie de certeza.
Gostaria que houvesse rigor naquilo em que me empenho. As palavras
deviam seguir o curso de um rio linear, estrito. Se envelheci depressa
foi por este motivo. Tenho agora a idade suficiente para ser
condenado. A fé há-de parecer-nos maior e tornar-se numa cicatriz
que não é preciso explicar. Há falsos emblemas. Julgo que a nudez pode
existir fora do nosso corpo e pertencer aos anjos. Uma nuvem passa
e sigo-a com os olhos para estar sozinho. Muitas são as coisas que ficaram
ausentes. O que recebo é o que chega de orações mais antigas. Por isso
estou preso dentro de mim mesmo. Nesse lugar é que hei-de morrer.


Prison Song (Graham Nash)

One day a friend took me aside
and said I have to leave you
for buying something from a friend
they say I've done wrong
for protecting the name of a man
they say I'll have to leave you,
so now I'm bidding you farewell
for much too long.
And here's a song to sing,
for every man inside,
if he can hear you sing
it's an open door.
There's not a rich man there,
who couldn't pay his way
and buy the freedom that's a high price
for the poor.

Kids in Texas
smoking grass,
ten year sentence
comes to pass
Misdemeanor
in Ann Arbor,
ask the judges
Why?

Another friend said to her kids
I'm gonna have to leave you
for selling something to the man
I guess I did wrong
and although I did the best I could
I'm gonna have to leave you
so now I'm kissing you farewell
for much too long.


Uma planta nasce dividida num vaso. Metade das suas folhas
pertence-me; a outra é de alguém que desconheço. Ambos
estamos ali a ver o mesmo? É no meio que principia a erguer-se
um caule inexistente. Seremos os dois um só? E olhamos
para o que fica dividido até sabermos onde está completa a planta.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider, Chris Harvey, Govannen

Ligações
Suzanne Vega, Anne Murray, Graham Nash

Textos:
Fernando Guimarães

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012