Sons da Escrita 211

13 de Fevereiro de 2009

Segundo programa do ciclo Fernando Guimarães

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Guimarães

Acerca do sentido (Fernando Guimarães)

1
Aproxima-te. É assim que consegues encontrar algumas palavras. Estão juntas. Têm um sentido
capaz de vir acompanhar-te como se pelos dedos escorresse um pouco de água, a sua transparência
súbita. Recebe o que elas te podem dar agora, a respiração que fica tranquila e o mesmo aceno
só para que depois consigas compreender como é fácil que tudo se perca nos teus olhos.

2
Que limites existem para a luz? Veio alguém acender esta candeia. À nossa volta, uma pequena chama principia a erguer-se, mas em vão é que ela se conserva perto de nós, quando abrimos devagar as leves páginas cujo sentido se ignora e as fechamos depois sem esperança, como se fosse este o seu destino no interior da noite. Estamos ali adormecidos e havemos de encontrar uma outra luz, maior, que as permita ler.


Light of hope (Chris Rea)

This is the garden that I know
Ten thousand summers wait me here
You lead and I will follow
Your heart is mine tomorrow
Into your womb I fade away

And while she laughs
Your pride is turning into snow
And melting on the face of this light of hope
Shine on, light of hope
Light of hope

And while she laughs
Your pride is turning into snow
And dancing on the graves of what you thought you used to know
And in this garden I will burn my callous robes
And forever love my darling
Light of hope


Fernando Guimarães

Acerca do sentido (Fernando Guimarães)

3
A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?

4
Quem veio escrever estas palavras? Abre
sem pressa o livro, mas nem sequer o leias
todo. Deixa que fiquem algumas dessas páginas
caídas ao teu lado. Assim talvez encontres
a imobilidade que finalmente existe
no seu interior. É tudo o que recebes
de alguém que nem sequer te pode conhecer
quando faz para ti um derradeiro gesto.


Nothing But the Truth (Procol Harum)

It seems as clear as yesterday
We saw it in a dream
but dream became insanity
an awful gaping scream
So sad to see such emptiness
So sad to see such tears
And heaped up leaves of bitterness
turned mouldy down the years

Nothing but the truth.
Common words in use
Hard to find excuse
Harder than the truth

Like Icarus we flew too high
We flew too near the sun
They caught us in that awful glare
Our hapless throats were strung
But just before the final stroke
They took us victims of the rope
And cast us far beyond the deep
To lie in never ending sleep

It seems as clear as yesterday
They cast us in the deep
We lie in darkest night for good
Never ending sleep
A never ending bitter gloom
Whose darkness seldom clears
A God forsaken emptiness
Which fills our hearts with tears


Fernando Guimarães

Acerca do sentido (Fernando Guimarães)

5
As mãos uniram-se e é mais perto que conservam
a dimensão de uma palavra, a última. A elas pertencem
igualmente as trevas que vinham ao encontro de tudo, leves
asas feridas pelo seu movimento, sem qualquer cor
e cada vez mais nossas. Aprendemos a acreditar neste voo,
na altura de uma haste, no próprio olhar atento
a uma linha mais alta para assim encontrarmos
no que nos rodeava a vinda destas aves.

6
Coloquemos um lenço sobre o rosto. Não para o ocultar
mas para que fique mais nítido o que vemos. Essa
há-de ser a margem das nossas feições, a sua mais próxima
brancura. A respiração nem o toca sequer. Outra brisa
começava a atravessar o peito. Ela vem agora ao nosso encontro
sem qualquer ruído, como se as mesmas folhas estivessem
ausentes. Sabemos há muito que é assim. Depois o silêncio
chega, porque foi sempre a ele que estas vozes pertenceram.

7
O que podemos esperar? É mais perto que vês
um caminho. A ele nos habituamos. É deste modo
que consegues compreender-me melhor. Reparas agora
como os gestos podem ficar reduzidos a um único
movimento e as cores à mesma transparência
que as há-de tornar maiores. Encontras o sentido
que pertencia a tudo, para que finalmente seja
apenas nosso, como se olhássemos para longe.


Long Ago And Far Away (James Taylor)

Long ago a young man sits and plays his waiting game
But things are not the same it seems as in such tender dreams
Slowly passing sailing ships and Sunday afternoon
Like people on the moon I see are things not meant to be

Where do those golden rainbows end?
Why is this song so sad?
Dreaming the dreams I've dreamed my friends
Loving the love I love 

To love is just a word I've heard when things are being said
Stories my poor head has told me cannot stand the cold
And in between what might have been and what has come to pass
A misbegotten guess alas and bits of broken glass

Where do the golden rainbows end?
And why is this song so sad?
Dreaming the dreams I dream my friend
Loving the love I love to love to love to love to love


Nem sequer bebes a água que recolhes nas tuas mãos. Apenas procuras que elas fiquem mais erguidas. E assim se justifica a inutilidade do teu gesto.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Nightnoise, Jami Sieber, Lito Vitale

Ligações
Chris Rea, Procol Harum, James Taylor

Textos:
Fernando Guimarães

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012