Sons da Escrita 213

27 de Fevereiro de 2009

Quarto programa do ciclo Fernando Guimarães

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Guimarães

Voz (Fernando Guimarães)

Olhamos à volta e não sabemos bem do que se trata. As mãos
estão imóveis há algum tempo. É dentro delas que cabe
tudo o que é nosso. O rumor que chega com o vento torna-se maior
ao repararmos agora nas folhas. Alguém principiou a chamar-nos
e é devagar que repete o mesmo nome, como se houvesse nos olhos
qualquer sombra porque assim é tudo o que se ignora. Ao longe
só ele pôde ver como estão os caminhos separados e as ondas
se dirigem ao encontro de outras praias. Ficou ali suspensa
uma luz desconhecida, agora recortada pela neblina que veio
com a manhã: quem se encontra sozinho talvez conheça melhor
o seu segredo. De novo se fecharam as nossas mãos. Há
uma árvore que desperta com a sua forma pesada e simples.


The Voice (Alan Parsons Project com Steve Harley)

It's almost a feeling you can touch in the air
You look all around you but nobody's there
It's been a long time now since you've been aware
That someone is watching you (he's gonna get you)

Sooner or later when your big chances come
You'll look for the catches but there will be none
Remember before you grab the money and run
That someone is watching you (he's gonna get you)

Before you run and hide
He's gonna get you
You got no choice
Because you can't escape the voice

Jumping at shadows that come up from behind
Scared of the darkness that's there in your mind
You're frightened to move because of what you might find
That someone is watching you (he's gonna get you)

Before you run and hide
He's gonna get you
You got no choice
Because you can't escape the voice


Fernando Guimarães

Sentido (Fernando Guimarães)

Despertas. Esqueceste o último sonho. Mas junto dos lábios
ficou talvez o seu leve indício e é tudo o que resta. Fecharam-se
mais uma vez os olhos para que neles se torne maior
um lugar para a dúvida. Já não são tuas sequer essas imagens
distantes, humedecidas. Mas há qualquer coisa ali que permanece
ao teu alcance. Caminhas devagar para ela e queres
conhecê-la melhor. Alguém responde: “Não é nada”. A palavra
chegava ao teu espírito e aí permaneceu como se olhasses
ainda a noite que se dissipa. Sentias-te um pouco mais frágil
e de novo a escuridão veio ao teu encontro. É assim que fica
perdido o sentido de tudo para sempre. Uma pétala caiu
sem ruído, e sabes a que rosa pertence. Mas esta não existe.


Blue Roses (Prefab Sprout)

blue roses will blossom in the snow
before I ever let you go
blue roses will grow up to the sky
before I ever make you cry
blue roses...

you need more reassurance
than a frightened orphan child
that I'm always gonna want you
that I'll always be beguiled
so I search for words to tell you
that my love for you is blind
but this fragment of a children's song
is all that I can find

blue roses will blossom in the snow
before I ever let you go
blue roses will grow up to the sky
before I ever make you cry
blue roses...

this nursery rhyme is corny,
it is stranded out of time
yet it's simple and it's honest
the same and since when was that a crime ?
and perhaps whoever wrote it
loved someone like I love you
for in matters of the heart I've learned
there's little that is new

blue roses will blossom In the snow
before I ever let you go
blue roses will grow up to the sky
before I ever make you cry
blue roses...


Fernando Guimarães

Onde é que guardo o tempo? (Fernando Guimarães)

Onde é que guardo o tempo? Posso agora dizer-vos
que é dentro dos olhos. Mesmo que se conservem assim límpidos
acabam por pousar neles algumas folhas. Procuro depois
que seja mais fácil este caminho onde se encontram os vestígios
dos meus passos, de qualquer encontro, de um gesto ainda
furtivo. Quantas sombras existem aí e me pertencem? Sei
que o repouso é menos que uma palavra. Talvez cheguem
as mesmas ondas que julgávamos estar há muito esquecidas,
a neblina parece ser um arco onde se reúne
o que ficou abandonado para sempre. É assim que começo a medir
o tempo. Alguns instantes reservo-os para a profundidade
da água; outros para o modo como as minhas mãos estremecem.


A Higher Place (Tom Petty)

We gotta get to a higher place
And we gotta leave by night
Before that river takes us down
We gotta find some place that's dry
We gotta run like we've never run
Or we're gonna lose the light

If we don't get to a higher place and find somebody
Can help somebody, might be nobody no more

Well, I fool myself and I don't know why
I thought we could ride this out
I was up all night making up my mind
But now I've got my doubts
I got my eye on the waterline
Trying to keep my sense of humor

But if we don't get to a higher place and find somebody
Can help somebody, might be nobody no more

We gotta get to a higher place
And I hope we all arrive together
We gotta get to a higher place
If we want to survive the weather

I remember walking with her in town
Her hair was in the wind
I gave her my best kiss
She gave it back again
When I add up what I've left behind
I don't want to lose no more

But if we don't get to a higher place and find somebody


Nem a morte é importante… Ela não passa de um limite, este momento
que se afastou de nós para se tornar numa simples recordação
capaz de percorrer a noite. As pálpebras habituadas à luz
estremecem. As imagens encontram o seu interior. Vem
de longe a nebelina e com ela principiam a chegar outras vozes
que tínhamos esperado. Mas tudo o que se podia dizer continua
esquecido. Nada é importante. Excepto se a agonia for longa.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Frozen Silence

Ligações
Alan Parsons Project, Prefab Sprout, Tom Petty

Textos:
Fernando Guimarães

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012