Sons da Escrita 304

12 de Novembro de 2010

Primeiro programa do ciclo Fernando Manuel Noivo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Manuel Noivo

Os primeiros trabalhos

I
Os primeiros trabalhos
podem ser os
trabalhos de sedução.

Dizer aos barcos para atracarem junto aos morangos.
Dizer aos lábios para chegarem em primeiro lugar
às secretas notícias,
ao prazer do açúcar,
– aos textos escritos –
são por certo
um dos primeiros ofícios do poeta,
ou talvez até…
o princípio...
o princípio da sedução.

II
Adivinhar o enamoramento
pelas brancas páginas,
pelo pequenino corpo das palavras;

a cumplicidade extrema
de
sempre procurar os sítios
(dentro das páginas brancas)
onde as frases surgem,
fazem deste ofício
uma espécie de renda
junto ao branco arroz;
junto mesmo à casca do corpo.
(...)

por isso o tempo pára
e o trabalho de existir e sentir
constitui o ofício da sedução,
dos vastos espaços a partilhar...
é,
— digamos,
a passagem das letras para o corpo exterior,
(sem o qual as mesmas não fazem sentido),
ou,
também, a máquina de fazer crescer
imagens
por debaixo da
Alma.


We can work it out (Phil Keaggy)

Try to see it my way,
Do I have to keep on talking till I can't go on?
While you see it your way,
Run the risk of knowing that our love may soon be gone.

We can work it out,
We can work it out.

Think of what you're saying.
You can get it wrong and still you think that it's all right.
Think of what I'm saying,
We can work it out and get it straight, or say good night.

We can work it out,
We can work it out.

Life is very short, and there's no time
For fussing and fighting, my friend.
I have always thought that it's a crime,
So I will ask you once again.

Try to see it my way,
Only time will tell if I am right or I am wrong.
While you see it your way
There's a chance that we might fall apart before too long.

We can work it out,
We can work it out.

Life is very short, and there's no time
For fussing and fighting, my friend.
I have always thought that it's a crime,
So I will ask you once again.

Try to see it my way,
Only time will tell if I am right or I am wrong.
While you see it your way
There's a chance that we might fall apart before too long.

We can work it out,
We can work it out.


Fernando Manuel Noivo

Faço cair essas uvas

para o J.C.

tão longe, tão presente

Faço cair essas uvas
pela tua pele e
apanho-as com a boca.

Num outro dia
esperarei por esse sumo avermelhado
para saber do teu peito.
Olho depois para as flores,
essas,
— as que pela face
te escorrem pelo meio da pele
e penso.

Mais tarde
irei buscar os olhos que
os veados vão perdendo pelas florestas
só para os misturar
na cor castanha da pele
— que tenho na terra
junto ao coração.

Faço depois as tartarugas
deixarem a sua carne pelas casas
onde costumo saborear os cocos
e digo que as palmeiras são brancas
e doces como caramelos.

Recuo
na infância,
encosto as canas já maduras
contra os montes de seda,
faço-me a mim próprio
de púrpura.
Vejo-me no vidro.
Corto-me no vidro.
Divido-me,

Fico!

Encosto os dedos nas cadeiras,
descanso;
canso os insectos e as romãs,

Paro!


The day of wine and roses (Henry Mancini)

The days of wine and roses
Laugh and run away
Like a child at play
Through the meadow land
Toward a closing door
A door marked "nevermore"
That wasn't there before
The lone-ly night discloses
Just a passing breeze
Filled with memories
Of the golden smile
That introduced me to
The days of wine and roses and you

The days of wine and roses

The night discloses
Just a passing breeze
Filled with memories
Of the golden smile
That introduced me to
The days of wine and roses and you


Fernando Manuel Noivo

Olho para os meus olhos

I
Olha para os meus olhos e
deixa que a tarde
caia para dentro dos copos,
deixa que o leve suor das imagens retome o seu caminho
para que o tempo consiga construir a sua renda,
o seu trajecto no papel
o seu rosto mais sereno.

Abre os teus braços
e imagina uma coisa:
não se podem ignorar
os lápis expectantes,
os desenhos com os pequenos signos,
a aproximação a essa imensidão branca
onde os dedos desmaiam.

Não se pode ignorar
o sabor das cores onde a pele pensa e escreve!


II
Escuta.

Desejo ainda
que a tua pele
– doce,
– grande,
– macia,
fique ao pé de mim
para sempre
e seja
(porque pode ser)
a minha venal
estrada de açúcar.


Look at me (Maria Montell)

Look at me
Look into my soul
I am a timid – tiny bird
At a foot of a mountain
I can fly nomore – I have broken wings

Look at me
Look into my soul
I am your shadow
Your heart beats in mine
So gently lift me up
To the mountain top
That we once climed together – together

Look at me
Look into my soul
I am a timid –little bird
At a foot of a mountain
I can fly nomore – i have broken wings
Broken wings

So lift me gentle up
To the mountain top
That we once climed together


o pequeno poeta tem o seu cérebro cheio de letras.
o poeta olha para a mesa e as letras vão caindo para cima do papel junto à madeira.
— o pequeno poeta alimenta-se a si próprio, de si próprio.
isso também é bom!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kevin Kern, Mark Knopfler & Chet Atkins, Northern Lights

Ligações
Phil Keaggy, Henry Mancini, Maria Montell

Textos:
Fernando Manuel Noivo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012