Sons da Escrita 306

26 de Novembro de 2010

Terceiro programa do ciclo Fernando Manuel Noivo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Manuel Noivo

Amo a natureza

ao poeta Alberto Caeiro

Amo a natureza
e as mulheres
que bordam grandes tecidos brancos.
é por isso que sempre viverei na minha Aldeia,
toda a paz é branca,
telúrica,
construída sem sangue ou lágrimas.

é na Aldeia que eu a sinto,
sempre desfilando,
vital como as árvores,
fresca como as montanhas cheias de neve,
rústica e serena como as pequenas ervas,
sem nenhuma ciência ou pressa.

a paz,
na Aldeia,
limita-se a viajar
por dentro e por fora dos olhos,
imitando os rios,
que,
pelo meio da Natureza
fazem o mundo mais verde.


Mother Nature’ s Son (Beatles)

Born a poor young country boy
Mother Nature's son
All day long I'm sitting singing songs for everyone.

Sit beside a mountain stream
see her waters rise
Listen to the pretty sound of music as she flies.

Find me in my field of grass
Mother Nature's son
Swaying daises sing a lazy song beneath the sun.

Mother Nature's son.


Fernando Manuel Noivo

O poeta

o poeta
salta por cima
das flores brancas,
abre os seus braços cheios de palavras
e cai
em cima das laranjas.
– na natureza.

a terra é húmida
e verde e vai reproduzindo todas as suas palavras.

depois do sonho,
as frases caem para dentro do livro.

a manhã
nasce
junto aos morangos,
e a realidade pode ser vermelha,
ou
as tuas mãos
feitas de açúcar.

o poema cristaliza
as tuas mãos

o poeta
então,
boceja
e volta a adormecer
na face
da grande paisagem branca.


In the morning (Paper Lace)

In the morning when the moon is at it's rest,
you will see me at the time I love the best
watching rainbows play on sunlight;
pools of water iced from cold night, in the morning.
'Tis the morning of my life.
In the daytime I will meet you as before.
You will find me waiting by the ocean floor,
building castles in the shifting sands
in a world that no one understands,
In the morning.
'Tis the morning of my life,
In the morning of my life the
minutes take so long to drift away
Please be patient with your life
It's only morning and you're still to live your day
In the ev'ning I will fly you to the moon
To the top right hand corner of
the ceiling in my room
Where w'll stay until the sun shines
Another day to swing on clothe's lines
May I be yawning
It is the morning of my life
It is the morning of my life
In the morning
In the morning
In the morning


Fernando Manuel Noivo

Agora as palavras

As palavras
com água,
juntam-se assim
às palavras com luz.

O azul aumenta muito
a luminosidade dos lagos,
o simpático sorriso
dos patos quando caminham
por entre os rios,
e o olhar
científico das marés.

Essas mesmas palavras!!!

As palavras continuam
a subir dentro da água
e a cor a aumentar,
até à explosão do coração.

O tempo teme que o verde fuja,
que o olhar da criança
deixe de penetrar na casa,
que o poeta deixe
de passear no jardim,
que o sol seja castanho
e frio.
É isso que sinto!

Não há razão nenhuma
na construção da seda,
no brilho do mármore,
no caminhar do corpo dentro dos dias,
por baixo e por cima do ar,
a não ser a razão das palavras.

Acientificamente,
todos os dias elas se cansam
e todos os dias elas existem,
porque também existem
as pedras,
o amor,
– o teu olhar.

As palavras são tão reais,
como a lentidão
das folhas a fixar o tempo,
como o quotidiano,
e, por fim, mesmo,
como a cristalização
de todos os momentos.

Também os relógios,
com a vastidão infinita
do seu trabalho,
vão regulando a criação das coisas,
a construção das palavras.

As palavras olham para o ecran,
e muitas cores surgem,
expectantes.
As mãos colam-se então à água
e deslizam para dentro
de uma suave nuvem branca.

É aí que está
o grande carrossel das imagens,
o azul da água
onde as palavras
ganham a luz da agua,
onde os corpos
ganham o calor infinito.

Setembro,
segunda-feira,
dez horas e trinta e seis minutos.
A única certeza existencial
traduz-se na serena continuidade das coisas
e também na grande probabilidade
das palavras
serem mais uma vez inundadas
com os mais estranhos objectos.
A palavra vida pode ser uma palavra verde,
o ciúme,
uma palavra pintada a negro,
que destrói a
palavra felicidade,
e muitas outras palavras,
as palavras amarelas,
azuis,
vermelhas,
brancas,
deixando todas as outras palavras tristes,
tapadas por uma feia tinta grossa,
purulenta,
tinta
com a qual,
simplesmente
não se consegue escrever.


criança

A criança
comia as palavras,
à medida que os seus braços
iam envolvendo
a sua realidade.
os seus dedos escreviam!
Surgiam assim
pequenas expressões de sociabilidade no seu rosto.

A criança
virava os seus pequenos olhos
para os lençóis
e  o seu corpo
crescia para dentro
de uma grande cidade de letras.
As palavras começavam
deste modo a formar-se
diante da sua pele,
e o pequeno comia-as!

A natureza social
das palavras,
transforma-se assim
na antologia dos vários sons,
e dos versos
que surgem debaixo do papel.

É assim que as palavras vivem
e descansam,
e cansam as eternas mãos rugadas
que,
continuamente,
se colam ao barro.
amanhã,
quando o grande motor
das palavras
continuar o seu caminho,
o amarelo explodirá!,
a terra e o sol
terá outro significado
para as palavras,
e, essas mesmas palavras
expelirão
os mais estranhos segredos,
e até
as mais estranhas secreções.

O branco corpo das aves
irá escurecer.


amor

É por isso
que vou desenhar a tua pele
com a palavra mais quente,
e, é por isso
que tenho a certeza
que o amor
me diz
que todas as tuas águas
estão prontas
para receber as minhas palavras,
e que o secreto suspiro do teu coração
vai encontrar
o momento certo,
o movimento certo,
o perfeito relevo dos lábios,
o doce vermelho da cor.

É por isso
que vou abrir o teu corpo com palavras,
que abro as minhas mãos com palavras
que deixo que as tuas coxas
cresçam junto aos meus dedos
e escrevam o teu suave corpo
com o calor das tuas palavras.

É por isso
que o teu olhar
permitirá
que o meu suspiro seja veloz,
que o pão branco da tua pele
não apodreça,
que a tristeza seja para sempre
uma palavra destruída,
uma palavra não amada.
(...)


More than words (Extreme)

Saying "I love you"
Is not the words I want to hear from you
It's not that I want you
Not to say, but if you only knew how easy
It would be to show me how you feel

More than words
Is all you have to do to make it real
Then you wouldn't have to say that you love me
'Cause I'd already know

What would you do if my heart was torn in two?
More than words to show you feel
That your love for me is real
What would you say if I took those words away?
Then you couldn't make things new
Just by saying "I love you"

More than words

Now that I've tried to talk to you
And make you understand
All you have to do is close your eyes
And just reach out your hands
And touch me
Hold me close, don't ever let me go
More than words
Is all I ever needed you to show
Then you wouldn't have to say that you love me
'Cause I'd already know

What would you do if my heart was torn in two?
More than words to show you feel
That your love for me is real
What would you say if I took those words away?
Then you couldn't make things new
just by saying "I love you"

More than words
More than words


Ao olhar para a caneta, encostada aos dedos do poeta, percebe-se: a fome do papel!
A respiração do poema pesa depois em cima da página, da página virgem, da página sedutora...


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Blackinsell, John Sposito, Dan Gibson

Ligações
Beatles, Paper Lace, Extreme

Textos:
Fernando Manuel Noivo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012