Sons da Escrita 201

5 de Dezembro de 2008

Segundo programa do ciclo Fernando Pessoa

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Pessoa

Não sei se é sonho, se realidade (Fernando Pessoa)

Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali
Que a vida é jovem e o amor sorri.


Dream now (All About Eve)

The sun is low and the grass is tall
We're butterflies on a garden wall
I am she as you are he
And nowhere will they find us now
Dream now
And find you're not dreaming at all
Reality can cast his net
Come fly away! We can't let him catch us yet
We're fireflies heading for the clouds
To where they'll never find us now
Dream now
I'm calling your name
Can you hear me
So far away from you
Far from home


Fernando Pessoa

Quem me roubou quem nunca fui e a vida? (Fernando Pessoa)

Quem me roubou quem nunca fui e a vida?
Quem, de dentro de mim, é que a roubou?
Quem ao ser que conheço por quem sou
Me trouxe, em estratagemas de descida?

Onde me encontro nada me convida.
Onde me eu trouxe nada me chamou.
Desperto: este lugar em que me estou,
Se é abismo ou cume, onde estão vinda ou ida?

Quem, guiando por mim meus passos dados,
Entre sonhos e errores que me deu
A súbita visão dos mudos fados?

Quem sou, que assim me caminhei sem eu,
Quem são, que assim me deram aos bocados
À reunião em que acordo e não sou  meu?


Who knows (Avril Lavigne)

Why do you look so familiar
I could swear that I
Have seen your face before
I think I like that you seem sincere
I think I'd like to get
To know you a little bit more

I think there's something more
Life's worth living for

Who knows what could happen
Do what you do
Just keep on laughing
One thing's true
There's always a brand new day
I'm gonna live today like it's my last day

How do you always have an opinion
And how do you always find
The best way to compromise
We don't need to have a reason
We don't need anything
We're just wasting time

I think there's something more
Life's worth living for

Find yourself
'Cause I can't find you
Be yourself
Who are you?
Find yourself
'Cause I can't find you
Be yourself
Who are you?

So you go and make it happen
Do your best
Just keep on laughing
I'm telling you
There's always a brand new day


Fernando Pessoa

Não venhas sentar-te à minha frente (Fernando Pessoa)

Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado
E quero só dormir.

Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.

Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, «Fim».

As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.

Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales,
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales -
Que ninguém deseja nem não deseja.

Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.

Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem lhe saber o passado.

E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.


Strange boat (Waterboys)

We're sailing in a strange boat
heading for a strange shore
We're sailing in a strange boat
heading for a strange shore
Carrying the strangest cargo
that was ever hauled aboard

We're sailing on a strange sea
blown by a strange wind
We're sailing on a strange sea
blown by a strange wind
Carrying the strangest crew
that ever sinned

We're riding in a strange car
we're followin' a strange star
We're climbing on the strangest ladder
that was ever there to climb

We're living in a strange time
working for a strange goal
We're living in a strange time
working for a strange goal
We're turning flesh and body
into soul


O meu coração quebrou-se
Como um bocado de vidro
Quis viver e enganou-se…


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jesse Manno

Ligações
All About Eve, Avril Lavigne, Waterboys

Textos:
Fernando Pessoa

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012