Sons da Escrita 202

12 de Dezembro de 2008

Terceiro programa do ciclo Fernando Pessoa

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Fernando Pessoa

D. Dinis (Fernando Pessoa)

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.


Sea People (Emiliana Torrini)

Can you ever see me as you did before
Can you ever see me like you did once more
When I look into your eyes
I can breathe in water
Like you 

When you say goodbye
My lungs ache filled with water
'Cause I will always love you


Fernando Pessoa

Mar português (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Swallowed in the sea (Coldplay)

You cut me down a tree
And brought it back to me
And that's what made me see
Where I was going wrong

You put me on a shelf
And kept me for yourself
I can only blame myself
You can only blame me

And I could write a song
A hundred miles long
Well, that's where I belong
And you belong with me

And I could write it down
or spread it all around
Get lost and then get found
Or swallowed in the sea

You put me on a line
And hung me out to dry
And darling that's when I
Decided to go to sea

You cut me down to size
And opened up my eyes
Made me realize
What I could not see

And I could write a book
The one they'll say that shook
The world, and then it took
It took it back from me

And I could write it down
Or spread it all around
Get lost and then get found
And you'll come back to me
Not swallowed in the sea

Ooh...

And I could write a song
A hundred miles long
Well, that's where I belong
And you belong with me

The streets you're walking on
A thousand houses long
Well, that's where I belong
And you belong with me

Oh what good is it to live
With nothing left to give
Forget but not forgive
Not loving all you see

Are the streets you're walking on
A thousand houses long
Well that's where I belong
And you belong with me
Not swallowed in the sea

You belong with me
Not swallowed in the sea
Yeah, you belong with me
Not swallowed in the sea


Fernando Pessoa

Nevoeiro  (Fernando Pessoa)

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o  fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a hora!


jmbranco

Nevoeiro (José Mário Branco)

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Voltou num nevoeiro
Num veleiro Sem leme nem gageiro
E de casco arrebentado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Com teus olhos em braseiro
E o teu rosto afogueado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Por alcunha ao desejado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
Sem leme nem gageiro
Num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Porque levas caminheiro
tanta pressa no cajado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
Esperado primeiro
E depois desesperado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Que te traz ó caminheiro
Esse príncipe encantado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
À tanto tempo esperado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
Sem glória nem dinheiro
Num lençol amortalhado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Era príncipe ou sendeiro
Sebastião o desejado
Vou ao cais do terreiro
Ver o rei Sebastião primeiro
Num lençol amortalhado
Era príncipe herdeiro
Nevoeiro
O príncipe agoireiro
o príncipe mal esperado

Onde vais ó caminheiro
Com o teu passo apressado
Porque paras caminheiro
Se é Sebastião finado
Voltou no seu veleiro
Nevoeiro
leme nem gageiro
Num lençol amortalhado
Vou ao cais do terreiro,
Nevoeiro,
Pra ficar bem certeiro
De que é morto e enterrado


Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia
Cadáver adiado que procria?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jesse Manno, Dan Gibson, Mike Oldfield

Ligações
Emiliana Torrini, Coldplay, José Mário Branco

Textos:
Fernando Pessoa

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012