Sons da Escrita 291

13 de Agosto de 2010

Primeiro programa do ciclo Florbela Espanca

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Florbela Espanca

O meu soneto

Em atitudes e em ritmos fleumáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos... 

E os meus olhos serenos, enigmáticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos... 

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d´amor trazem de rastros... 

E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..


Poet (Cassandra Wilson)

(letra não disponível)


Florbela Espanca

Versos

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma... 

Versos!... Sei lá! Um verso é o teu olhar,
Um verso é o teu sorriso e os de Dante
Eram o teu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante! 

Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez... 

Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês...


When poets dreamed of angels (David Sylvian)

She rises early from bed
Runs to the mirror
The bruises inflicted in moments of fury

He kneels beside her once more
Whispers a promise
"Next time I'll break every bone in your body"

And the well-wishers let the devil in
And if the river ran dry they'd deny it happening

As the card players deal their hands
From the bottom of te deck
Row upon row of feudal houses blown away
Medicine for the popular complaint

When the poets dreamed of Angels
What did they see?
History lined up in a flash at their backs

When the poets dreamed of Angels
What did they see?
The bishops and knights well placed to attack


Florbela Espanca

Os meus versos

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for! 

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!... 

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente... 

Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...


Marlene Dietrich’s favourite poem (Peter Murphy)

My mother loved it so she said
Sad eyed pearl and drop lips
Glancing pierce through writer man
Spoke hushed and frailing hips
Her old eyes skim in creasing lids
A tear falls as she describes
Approaching death with a yearning heart
With pride and no despise

Hot tears flow as she recounts
Her favourite worded token
Forgive me please for hurting so
Don't go away heartbroken no
Don't go away heartbroken no

Just wise owl tones no velvet lies
Crush her velvet call
Oh Marlene suffer all the fools
Who write you on the wall
And hold your tongue about your life
Or dead hands will change the plot
Will make your loving sound like snakes
Like you were never hot

Hot tears flow as she recounts
Her favourite worded token
Forgive me please for hurting so

My mother loved it so she said
Sad eyed pearl and drop lips yeah
Glancing pierce through writer man
Spoke hushed and frailing lips yeah
Old eyes skim in creasing lids
A tear falls as she describes
Approaching death with a yearning heart
With pride and no despise

Hot tears flow as she recounts
Her favourite worded token
Forgive me please for hurting so


Florbela Espanca

Eu…

Eu sou a que no mundo anda perdida,
eu sou a que na vida não tem norte,
sou a irmã do Sonho, e desta sorte
sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
e que o destino amargo, triste e forte,
impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!“

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Algué sonhou,
alguém que veio ao mundo pra me ver,
e que nunca na vida me encontrou!


I will find you (Clannad)

(Mohican)
Nachgochema
Anetaha
Anachemowagan 

No matter where you go
I will find you
In the place with no frontiers 

(Cherokee)
Hale wú yu ga I sv
Do na dio sv I
Wi ja lo sv
Ha le wú yu
Do na dlo sv 

In the place with no frontiers


Para as traições, para as mentiras, para o que é vil e falso, tem a gente remédio: tem o orgulho; mas para a dor que te faz mal, para essa nenhum remédio há.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kevin Kerr

Ligações
Cassandra Wilson, David Sylvian, Peter Murphy, Clannad

Textos:
Florbela Espanca

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012