Sons da Escrita 135

5 de Outubro de 2007

Primeiro programa do ciclo Gonçalo M. Tavares

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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GonçaloMTavares

O Senhor Valéry – Os dois lados

O senhor Valéry era perfeccionista.
Só tocava nas coisas que estavam à sua esquerda com a mão esquerda, e nas coisas que estavam à sua direita com a mão direita.
Ele dizia:
– O Mundo tem 2 lados: o direito e o esquerdo, tal como o corpo; e o erro surge quando alguém toca o lado direito do Mundo com o lado esquerdo do corpo, ou vice-versa.
Seguindo escrupulosamente esta teoria, o senhor Valéry explicava:
– Eu dividi a minha casa em dois, com uma linha.
E desenhava…
– Defini um lado direito e um lado esquerdo
Lado direito | Lado esquerdo

– Assim, para os objectos do lado direito reservo a minha mão direita e vice-versa.
Nesse momento, perante uma dúvida colocada por um amigo, o senhor Valéry explicou:
– Aos objectos muito pesados coloco-os exactamente com o seu centro na linha.
E desenhou…
– Assim – explicava o senhor Valéry – posso carregá-los utilizando a mão esquerda e a mão direita, desde que tenha o cuidado de os transportar com o seu centro exactamente sobre a linha divisória.
– Para os objectos leves – continuou o senhor Valéry – não necessito de tantas preocupações: mudo-lhes a posição apenas com uma mão. A mão certa, claro.
– Mas como manter esse rigor em todas as situações? – perguntou-lhe o mesmo amigo: quando o senhor Valéry está de costas, por exemplo, como sabe qual a parte direita e a esquerda da casa?
O senhor Valéry mostrou-se quase ofendido com a questão, pois não gostava de ser posto em causa, e respondeu, bruscamente:
– Eu nunca viro as costas às coisas.

(Isto era o que o senhor Valéry dizia, mas na verdade, para nunca se enganar, havia pintado todo o lado direito da casa, incluindo os seus objectos, de vermelho, e todo o lado esquerdo de azul. Assim se percebia melhor a verdadeira razão de o senhor Valéry ter pintado a sua mão direita de vermelho e a esquerda de azul. Não tinha sido um acto estético, como ele dizia. Era bem mais do que isso.)


The weight of the world (Ringo Starr)

Maybe your daddy never held you like he should
Maybe your mama just held on the best she could
Every soul has a secret
Give it away or keep it
But yesterday's gone so tell me why

You carry the weight
The weight of the world it's breakin' me down on my back like a boulder
Before it's too late get rid of it girl
Get it off of your shoulder
I know you've been used but you gotta lose the weight of the world

Maybe I haven't always been there just for you
Maybe I try but then I got my own life too
Every heart has a hunger
I'm not gettin' any younger
And I got all the crosses I can bear

Don't gimme the weight
The weight of the world it's breakin' me down on my back like a boulder
Before it's too late get rid of it girl
Get it off of my shoulder
You know I've been used
And I gotta lose the weight of the world
It all comes down to who you crucify
You either kiss the future or the past goodbye
We could fly so high

But we carry the weight
The weight of the world it's breakin' me down on my back like a boulder
Before it's too late get rid of it girl
Get it off of our shoulders
We've all been used
And we gotta lose the weight of the world
It's takin' us down
And the night's growin' colder
Just blame it on fate
That was yesterday girl
And we're just growin' older
We've all been abused
Now it's time to lose the weight of the world


GonçaloMTavares

O Senhor Valéry – O espirro

O senhor Valéry tinha medo da chuva.
Durante anos treinou a sua rapidez a esquivar-se da água que caía do céu.
Ficou um especialista.
Ele dizia: É assim que eu fujo à chuva.
E desenhava, representando-se a si próprio como uma seta.
– No fim – orgulhava-se o senhor Valéry – cá estou eu, seco e sem guarda-chuva.
Detesto objectos feios – dizia ele.

Um dia, por acidente, uma senhora que fazia limpeza no passeio atirou um balde cheio de água para a rua no preciso momento em que o senhor Valéry passava.
Completamente encharcado, o senhor Valéry, explicou:
– Eu estava a olhar o céu quando tudo aconteceu.
E acrescentou ainda:
– Se a vertical se une à horizontal existe sempre um ponto que é capturado.
E desenhou…
– Esse ponto – murmurou o senhor Valéry, ainda a pingar do cabelo – esse ponto fui eu.
– O Destino – disse, por fim, o senhor Valéry – isso é que desconheço o que seja.

E terminou com um forte espirro.


Lord, let it rain (Sheiks)

Please, Lord
Lord let it rain
Greenfields and meadows
Are dying in vain

Please, Lord
Lord let it rain
We’re together praying
With faith, peace and pain

Listen, Lord
Blowing in the wind
Rain coming
So wonderful thing

Please, Lord
Lord let it rain
Bless your homeland
Please don’t be ashamed

Listen, Lord
Blowing in the wind
Rain coming
So wonderful thing

Please, Lord
Lord let it rain
Bless your homeland
Please don’t be ashamed


GonçaloMTavares

O Senhor Valéry – O truque

O senhor Valéry vestia sempre de negro.
Ele explicava:
– Ao verem-me de preto julgam-me de luto e, por compaixão, não me enviam mais sofrimento.
E dizia ainda:
– Não se pode sofrer o dobro de muito. É essa, aliás, a única razão por que consigo ser feliz, em certos dias: o meu fato de luto engana-os. E é sempre boa a sensação de enganar os mais fortes – acrescentava, orgulhoso, o senhor Valéry, nunca se sabendo propriamente a que se referia. O senhor Valéry, porém, insistia:
– É uma reacção química.
E desenhou…
– Se de um lado se encontra tudo escuro e do outro tudo claro, a tendência é para o lado escuro oferecer escuro ao lado claro e o lado claro oferecer claridade ao lado escuro.
Passado algum tempo encontra-se um equilíbrio.
(E nessa altura o senhor Valéry fez outro desenho)
– O meu truque – dizia o senhor Valéry, enquanto distraído pelos raciocínios, vestia um fato branco – o meu truque – dizia ele – é andar sempre vestido de luto. Para atrair a alegria.


Your latest trick (Dire Straits)

All the late night bargains have been struck
Between the satin beaus and their belles
And prehistoric garbage trucks
Have the city to themselves
Echoes roars dinosaurs
Theyre all doing the monster mash
And most of the taxis, most of the whores
Are only taking calls for cash

I dont know how it happened
It all took place so quick
But all I can do is hand it to you
And your latest trick

My door was standing open
Security was laid back and lax
But it was only my heart got broken
You must have had a pass key made out of wax
You played robbery with insolence
And I played the blues in twelve bars down Lovers Lane
And you never did have the intellegence to use
The twelve keys hanging off my chain

I dont know how it happened
It all took place so quick
But all I can do is hand it to you
And your latest trick

Now its past last call for alcohol
Past recall has been here and gone
The landlord finally paid us all
The satin jazzmen have put away their horns
And were standing outside of this wonderland
Looking so bereaved and so bereft
Like a Bowery bum when he finally understands
The bottles empty and theres nothing left

I dont know how it happened
It was faster than the eye could flick
But all I can do is hand it to you
And your latest trick



O senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos.
Ele explicava:
Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Enigma, Suzanne Ciani, Enya

Ligações
Ringo Starr, Sheiks, Dire Straits

Textos:
Gonçalo M. Tavares

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012