Sons da Escrita 136

12 de Outubro de 2007

Segundo programa do ciclo Gonçalo M. Tavares

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

GonçaloMTavares

O Senhor Juarroz – Resolução de problemas práticos

O senhor Juarroz estava a pensar que o mundo andava dessincronizado pois de um lado havia inundações e do outro pessoas com sede, quando finalmente começou a prestar atenção ao ruído de uma torneira a pingar.
O senhor Juarroz ficou depois longos minutos a observar os pingos a caírem da torneira.
O senhor Juarroz voltou então a pensar que o mundo estava dessincronizado porque ali, na sua casa, havia uma torneira a pingar enquanto noutras casas não.
Tentou depois lembrar-se da ferramenta utilizada para apertar a torneira, e de facto ela estava ali mesmo, certamente deixada pela esposa, para que ele agisse em conformidade.
O problema é que o senhor Juarroz, mesmo depois de olhar longamente para aquele instrumento, não se conseguiu lembrar do seu nome.
– Não mexo em coisas de que não sei o nome – murmurou para si próprio o senhor Juarroz, como se acabasse de estabelecer mais um mandamento da sua religião existencial.
Decidiu então eliminar o ping-ping da torneira através do pensamento pois através da acção nunca mais chegaria lá. Começou assim a pensar numa música de Mozart, tendo o cuidado adicional de colocar o seu volume acima do volume da realidade. Assim fez. Resultou.


Problema de expressão (Clã) 

Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu. 

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.


GonçaloMTavares

O Senhor Juarroz – A chávena e a mão

O senhor Juarroz hesitava em pegar na sua chávena de café porque não conseguia deixar de pensar que não são as mãos que pegam nos objectos, mas sim os objectos que pegam nas mãos. E tal repugnava-o, pois não aceitava que uma simples chávena lhe agarrasse a mão (como o noivo impetuoso agarra nos dedos tímidos da noiva).
Por isso o senhor Juarroz em vez de agarrar na chávena ficava longos minutos a olhar para ela, de modo agressivo.
Mais tarde queixava-se do café frio.


One more cup of coffee (Bob Dylan)

Your breath is sweet
Your eyes are like two jewels in the sky.
Your back is straight, your hair is smooth
On the pillow where you lie.
But I don't sense affection
No gratitude or love
Your loyalty is not to me
But to the stars above.

One more cup of coffee for the road,
One more cup of coffee 'fore I go
To the valley below.

Your daddy he's an outlaw
And a wanderer by trade
He'll teach you how to pick and choose
And how to throw the blade.
He oversees his kingdom
So no stranger does intrude
His voice it trembles as he calls out
For another plate of food.

One more cup of coffee for the road,
One more cup of coffee 'fore I go
To the valley below.

Your sister sees the future
Like your mama and yourself.
You've never learned to read or write
There's no books upon your shelf.
And your pleasure knows no limits
Your voice is like a meadowlark
But your heart is like an ocean
Mysterious and dark.

One more cup of coffee for the road,
One more cup of coffee 'fore I go
To the valley below.


GonçaloMTavares

O Senhor Juarroz – Sombras e esconderijos

É evidente que o senhor Juarroz sabia que esconder-se atrás de um móvel não era o mesmo que esconder-se atrás de uma sombra. O problema desta é que não tem volume.
O senhor Juarroz no entanto não podia deixar de pensar que atrás da sombra da torre alta se está mais bem escondido que atrás da sombra do candeeiro. Não ficamos tapados, pensava o senhor Juarroz, mas ficamos mais longe.
E estar mais longe é outra forma de nos escondermos.
Mais cansativa, no entanto, dizia o senhor Juarroz.


Hide in your shell (Supertramp)

Hide in your shell 'cause the world is out to bleed you for a ride
What will you gain making your life a little longer?
Heaven or Hell, was the journey cold that gave you eyes of steel?
Sheltered behind, painting your mind and playing joker
Too frightening to listen to a stranger
Too beautiful to put your pride in danger
You're waiting for someone to understand you
But you've got demons in your closet
And you're screaming out to stop it / Saying life's begun to cheat you
Friends are out to beat you / Grab on to what you scramble for
Don't let the tears linger on inside now / 'cause it's sure time you gained control
If I can help you, if I can help you / If I can help you, just let me know
Well, let me show you the nearest signpost
To get your heart back up on the road
If I can help you, if I can help you / If I can help you, just let me know
All through the night, as you lie awake and hold yourself so tight
What do you need, a second-hand-movie-star to tend you?
I as a boy, I believed the saying the cure for pain was love
How would it be if you could see the world through my eyes?
Too frightening the fire's becoming colder
Too beautiful to think you're getting older
You're looking for someone to give an answer / But what you see is just illusion
You're surrounded by confusion / Saying life's begun to cheat you
Friends are out to beat you / Grab on to what you can scramble for
Don't let the tears linger on inside now / Cause it's sure time you gained control
If I can help you, if I can help you / If I can help you, just let me know
Well, let me show you the nearest signpost
To get your heart back up on the road
If I can help you, if I can help you / If I can help you, just let me know
I wanna know... I wanna know... I wanna know you...
I've got to know you / Well let me know you
I wanna feel you / Oh I wanna touch you
Please let me near you, let me near you / Can you hear what I'm saying?
Well I'm hoping, I'm dreamin', I'm prayin' / I know what you're thinkin'
See what you're seein' / Never ever let yourself go
Hold yourself down, hold yourself down / Why dont ya hold yourself down?
Why don't you listen, you can trust me / Oh there's a place I know the way to
A place there is no need to, to feel you / To feel that you're all alone
Hear me / I know exactly what you're feelin' 'cause all your troubles are within you so begin to see that I'm just bleeding to
Oh Love me, love you / Loving is the way to Help me, help you
Why must we be so cool, oh so cool? / Oh, we're such damn fools...



A morte de Deus
O senhor Juarroz pensou num Deus que, em vez de nunca aparecer, aparecesse, pelo contrário, todos os dias, a toda a hora, a tocar à campainha.
Depois de muito meditar sobre esta hipótese, o senhor Juarroz decidiu desligar o quadro da electricidade.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos – Tangerine Dream, Harold Budd, Rubén García & Daniel Lentz, Andreas Vollenweider

Ligações – Clã, Bob Dylan, Supertramp

Textos:
Gonçalo M. Tavares

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012