Sons da Escrita 155

1 de Fevereiro de 2008

Segundo programa do ciclo Graça Pires

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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GraçaPires

Palavras (Graça Pires)

Em horas escolhidas ao acaso
recordo palavras que me trazem
outras palavras, outros sons,
outras sombras;
palavras redondas como os seios
das meninas, em cujos olhos
se anuncia um brilho inquietante;
palavras que resvalam pela fala
e transformam o vulto
incerto das mãos em pássaros
ébrios de fogo, ou explodindo de luz
como se fossem astros;
palavras sangrando na boca,
ou um desvio, tecido às cegas,
para deixar entrar a noite.


Palavras (Maria Bethânia)

Não tente me enganar
Vejo em seu olhar
Que já não existe
Aquele mesmo amor que nunca esperou
Acabar tão triste
Não tente me dizer
Palavras que eu
Já não acredito
Eu posso compreender
O que restou de um amor
Que foi tão bonito
Eu fiz daquele amor
O meu sonho maior
Minha razão de tudo
Foi pouco o que restou
De tanto que existiu
Recordações e nada mais
Não, não vá me dizer
Palavras que venham
Me fazer chorar depois
Eu sei que vou viver
Por muito tempo ainda
Das lembranças de nós dois


GraçaPires

Já não posso olhar as palavras (Graça Pires)

Já não posso olhar as palavras como dantes.
O tempo apagou-me das mãos tantos desejos.
É possível que a minha boca
se encha de silêncios,
à míngua de alegria,
como se uma noite inquieta
me ardesse nos ossos
e as aves me segredassem
ausências sem recuo.
Porém, já outros pássaros
reiniciam um voo mais que perfeito,
à procura de um lugar
onde, transfigurados,
possam tecer, de novo, as suas asas.


Outras palavras (Caetano Veloso) 

Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more

Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza:
Outras palavras

Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo:
Outras palavras

Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim
quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha:
Outras palavras

Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente:
Outras palavras

Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras


GraçaPires

Volto à caligrafia da sede (Graça Pires)

O outono entra-me pela casa.
Ao longo das paredes sublinho a minha cronologia,
num gráfico de sílabas, susceptível à tristeza.
Neste momento, avalio mal o equívoco do silêncio
frente à disponibilidade das palavras.
Acerto os livros pela lombada e vejo,
nas estantes, as sombras de poetas românticos,
com um imenso rio na expressão dos olhos.
A privação de rostos, torna violentas todas as cores.
Coloco as palavras sobre a mesa
e volto à caligrafia da sede.
Onde estão os pássaros de olhos aguados,
que sobrevoavam, ainda há pouco, as minhas mãos?


Tenho sede (Gilberto Gil)

Traga-me um copo d'água, tenho sede
E essa sede pode me matar
Minha garganta pede um pouco de água
E os meus olhos pedem teu olhar
A planta pede chuva quando quer brotar
O céu logo escurece quando vai chover
Meu coração só pede o teu amor
Se não mo deres posso até morrer


GraçaPires

A nitidez do tempo (Graça Pires)

A quem anunciarei a súbita clareira,
onde a lua do meio-dia
anula a morte das aves nocturnas?
Há uma cilada de palavras a envolver a volúpia,
no vértice de um sexo quase puro.
A vigília do poema acende-se numa linguagem única
e a forma adejante das letras traça ficções de solidão
nas minhas veias, por onde circulam ódios e paixões.
Qualquer eternidade me aguarda,
porque ouço a nitidez do tempo retocando o meu olhar.


Canção do tempo (Fernando Tordo)

Para um tempo que fica doendo por dentro e passa por fora
Para o tempo do vento que é o contratempo da nossa demora
Passam dias e noites, os meses, os anos, o segundo e a hora
E ao tempo presente é que a gente pergunta: E agora?, E agora?

Tempo para pensar cada momento deste tempo
Que cada dia é mais profundo e é mais tempo
Para inventarmos outro tempo menos lento

Tempo dos nossos filhos aprenderem com mais tempo
A rapidez que tem de ser o pensamento
Para nascer, para viver, para existir
E nunca mais verem o tempo fugir

Ai o tempo constante que a cada instante nos passa por fora
Este tempo candente que é como um cometa com laivos de aurora
É o tempo de hoje, é o tempo de ontem, é o tempo de outrora
Mas o tempo da gente é o tempo presente, é agora, é agora

Tempo para agarrar cada momento deste tempo
Interminável e absoluto rasgo o tempo
Num temporal com os ponteiros do minuto

Tempo para o relógio bater certo com a vida
De um homem bom, de um homem são, de um homem forte
Que da chegada conseguir fazer partida
E que desperta adiantado para a morte



Encho os olhos de mar
e abro, de par em par,
os meus sentidos,
para deixar passar
todos os barcos perdidos..


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos – Blue Earth, Nightnoise, Brian Man, Yanni

Ligações – Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fernando Tordo

Textos:
Graça Pires

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012