Sons da Escrita 076

17 de Agosto de 2006

Primeiro programa do ciclo Isabel Meyrelles

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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IsabelMeyrelles

Tu já me arrumaste (Isabel Meyrelles)

Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começámos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo,
tu és ainda o meu relógio de vento,
a minha máquina aceleradora de sangue,
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?


Clocks (Coldplay) 

Lights go out and I can't be saved
Tides that I've tried to swim against,
You've put me down upon my knees
Oh I beg, I beg and plead, singing

Come out of things unsaid
Shoot an apple off my head
And a trouble that can't be named
tigers waiting to be tamed, singing

You are
You are

Confusion that never stops
Closing walls and ticking clocks, gonna
Come back and take you home
I could not stop that you now know, singing

Come out upon my seas
Cursed missed opportunities
Am I a part of the cure?
Or am I part of the disease, singing

You are
You are
You are
You are

And nothing else compares
Oh! nothing else compares
And nothing else compares

You are
You are

Home, where I wanted to go, home
Home, where I wanted to go, home
Home, where I wanted to go, home (you are)
Home, where I wanted to go, home (you are)


IsabelMeyrelles

É perigoso debruçar-se (Isabel Meyrelles)

É perigoso debruçar-se
na janela dos fantasmas !
Podes encontrar o  lobisomem
ou Erzsébet a sangrenta
podes também encontrar-me
e o meu sumptuoso cortejo de carícias
ou posso eu encontrar-te
(serás então de âmbar e nevoeiro).
Qual de nós
saberá então
reconhecer os fantasmas?


The ghost of sex and you (Mike & The Mechanics)

It was an unbelievable night / She was an unremarkable girl
You may not call it poetry / But it changed my world

It was an unforgettable dawn / She was an indisputable fact
Even if I could have / I might not have it back

It's an unexceptional day / She's an unavoidable truth
Uncompromised elation / Suspended since my youth

It's an unforgivable lie / I have nothing in my defence
There can be no forgiveness /To caution this descent

It wasn't in a dream / A film or on TV
This was really happening / Happening to me
Though I may protest / Suggest I never knew
The ghost comes back to haunt me / The ghost of sex and you

I held her hand outside the hotel / Kissed her mouth in the back of the car
Whether fact or fantasy / I knew we'd gone too far

I feel her breath on the back of my neck / She's lying naked here on the floor
Wrap the sheet around her / Disappear beyond the door

It was an unbelievable night / She was an unremarkable girl
You may not call it poetry / But it changed my world
The ghost of sex and you

It was an unforgettable dawn / She was an indisputable fact
Even if I could have / I might not have it back
Sex and you

It's an unexceptional day / She's an unavoidable truth
Uncompromised elation /Suspended since my youth
Sex and you

It's an unforgivable lie / I have nothing in my defence
There can be no forgiveness / To caution this descent
The ghost of sex and you


IsabelMeyrelles

Não, meu amigo (Isabel Meyrelles)

Não meu amigo, a realidade
partiu a corda,
e de forma alguma agradece
ser a nossa espada quotidiana
o bife mal passado
sobre a bomba aux champignons.
Fatigada fatigada
tão fatigada de nós todos!
Mesmo tu meu amor,
a roda do universo,
tu que eu fiz de plumas e silêncio,
tu minha noite cintilante,
a realidade fatigou-se de ti.


Vida real (Maria Bethânia)

Você desconversa, você pode tapar o sol
E me desconcerta
Deixando o meu sangue sem sal
Você atravessa o sentido de cada sinal
Que eu mando de dentro do azul
Desse amor que é só seu afinal, só meu afinal

Tão forte querendo eu me multiplico por mil
Você não está vendo há uma coisa que é você e eu
Que brilha no espaço no tempo no céu e no chão
Que arde mesmo aquém e além
Desse jeito de eu dizer que sim e você que não
Um dia você vai voltar
Como numa canção do passado
Dizendo que foi muito burra
Em não atender ao chamado
Agora entre os dedos
Você deixa escorrer o mel
Se agarra a segredos e medos e ponto final
Mas é sempre assim
É uma regra maldita e geral
Ou feia ou bonita
Ninguém acredita na vida real



Mais uma vez o tempo estilhaça-se nas minhas mãos
mais uma vez tu serás o silêncio à minha volta.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Ligações
Coldplay, Mike & The Mecanics, Maria Bethânia

Textos:
Isabel Meyrelles

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012