Sons da Escrita 077

25 de Agosto de 2006

Segundo programa do ciclo Isabel Meyrelles

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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IsabelMeyrelles

O amor entrou em mim (Isabel Meyrelles)

O amor entrou dentro de mim
por arrombamento, contra a minha vontade.
Sinto-me invadida, devassada, afogada!
Este fedelho julga que pode fazer o que quiser
mas está completamente enganado,
hei-de arranjar maneira de me livrar
desta espécie de anjinho vira-lata,
vou armar especialmente para ele
ratoeiras labirintiformes
com memória circular,
vou fazê-lo devorar pelo Minotauro,
pedir ajuda aos marcianos verdes,
fazer-me exorcizar pelo abade da esquina
ou pedir um conjuro à feiticeira de serviço,
enfim, qualquer coisa, o que quero sobretudo
é que ele seja esmagado, empalado, apedrejado, supliciado,
reduzido a pó,
quero que este andrajoso querubim
saia completamente da minha vida e me deixe em paz.
Nunca desconfiarei suficientemente do amor.
Que filho da mãe!


The ole devil called love (Alyson Moyet) 

It's that ole devil called love again
Gets behind me and keeps giving me that shove again
Putting rain in my eyes, tears in my dreams
And rocks in my heart
It's that sly old son of a gun again
He keeps telling me I'm the lucky one again
But I still have that rain
Still have those tears
And those rocks on my heart

S'pose I didn't stay
Run away wouldn't play
The devil what a potion he would brew
He'd follow me round
Build me up
Tear me down
Till I'll be so bewildered
I wouldn't know what to do

Might as well give up that fight again
I know darn well he'll convince me that he's right again
When he sings that sorry song
I've just gotta tag along
With that ole devil called love

He'd follow me round
Build me up
Tear me down
Till I'll be so bewildered
I wouldn't know what to do

Might as well give up that fight again
I know darn well he'll convince me that he's right again
When he sings that sorry song
I've just gotta tag along
With that ole devil called love

With that ole devil called love


IsabelMeyrelles

Se é infeliz (Isabel Meyrelles)

Se é infeliz, insone, angustiado,
cardíaco, dipsomaníaco,
melancólico ou hipocondríaco,
se anda deprimido pelo tempo morto dos sonhos
e se acredita  que um na mão  vale mais que dois a voar,
faça como eu: arranje um armário.
O meu tem protecção contra o nevoeiro, as traças, a amnésia,
possui o tudo-é-d’esgo(s)to, ar condicional e muros acolchoados para cabeças sensíveis.
Previ também uns ganchos no tecto para o excedente dos bolsos:
óculos, amores mortos, sapatos velhos, casa dos antepassados
e várias outras coisas de que não direi o nome.
Para as horas de ócio, escolhi um pedaço de mar,
a biblioteca de Babel, a praça St. Germain des Prés às 5 da manhã
e uma floresta do Plistoceno com inúmeros mamutes e macairódus,
sem esquecer o fundo sonoro ad hoc, rugidos, uivos e barridos extremamente típicos.

Muito repousante.
Experimente e depois diga se gostou.


50 ways to leave your lover (Paul Simon)

"The problem is all inside your head", she said to me
The answer is easy if you take it logically
I'd like to help you in your struggle to be free
There must be fifty ways to leave your lover

She said it's really not my habit to intrude
Furthermore, I hope my meaning won't be lost or misconstrued
But I'll repeat myself at the risk of being crude
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover

You just slip out the back, Jack
Make a new plan, Stan
You don't need to be coy, Roy
Just get yourself free
Hop on the bus, Gus
You don't need to discuss much
Just drop off the key, Lee
And get yourself free

She said it grieves me so to see you in such pain
I wish there was something I could do to make you smile again
I said I appreciate that and would you please explain
About the fifty ways

She said why don't we both just sleep on it tonight
And I believe in the morning you'll begin to see the light
And then she kissed me and I realized she probably was right
There must be fifty ways to leave your lover
Fifty ways to leave your lover


IsabelMeyrelles

Senhores passageiros (Isabel Meyrelles)

Senhores passageiros tomem os vossos lugares, partida da via 0,
não esqueçam no cais as vossas tristezas nem o vosso armário Renascença.
Agradece-se aos senhores passageiros que mantenham as garrafas de whisky pela trela,
chegaremos dentro de 51 dias e 3 minutos, hora local.

Senhores passageiros tomem os vossos lugares,
neste comboio todos os corpos são permutáveis
sendo-vos  portanto permitid arrancar um olho à vizinha
e cortar a cabeça ao vosso vis-à-vis se ela não vos agradar.
Não deixem os vossos lugares salvo em caso de força maior,
Ahasvérus ou o arcebispo de Canterbury
poderiam ocupá-los e seríeis definitivamente riscados do comboio.
Quem tiver o lugar 46 pode trocá-lo pelo 64,
ninguém verá absolutamente nada e os cornudos ficarão contentes.

É proibido debruçar-se ,
os vizinhos poderão empurrar-vos julgando-vos uns pássaros de arribação,
mas é-vos permitido contar os postes telegráficos até mil ou mais,
actualmente há mais postes que carneiros e são muito mais fáceis de distinguir.
O comboio entra na estação,
os senhores passageiros deixaram de ser uns mal-partidos para serem uns mal-chegados,
antes de descerem verifiquem se é bem a vossa cabeça que têm sobre os ombros,
um erro depressa se comete.
Atenção ao degrau, um bom passageiro é um passageiro morto.

Obrigada pela vossa atenção.


Long train running (Dobbie Brothers)

Down around the corner
A half a mile from here
You CAN see them LONG trains RUN
And you watch them disappear
Without love
Where would you be now
Without love 

You know I saw Miss Lucy
Down along the tracks
She lost her home and her family
And she won't be comin' back
Without love
Where would you be RIGHT now
Without love 

Well the Illinois Central
And the Southern Central Freight
Gotta keep on pushin' Mama
'Cause you know they're runnin' late
Without love
Where would you be now - now, now, now
Without love 

WELL THE pistons keep on churnin'
And the wheels go 'round and 'round
And the steel rails are cold and hard
For the miles that they go down
Without love
Where would you be right now
Without love
Where would you be now



Eis que chegaste.
E cada coisa recomeçou o gesto interrompido


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Arkenstone

Ligações
Alyson Moyet, Paul Simon, Doobie Brothers

Textos:
Isabel Meyrelles

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012