Sons da Escrita 078

1 de Setembro de 2006

Terceiro programa do ciclo Isabel Meyrelles

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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IsabelMeyrelles

Não é minha culpa (Isabel Meyrelles)

Não é minha culpa,
apunhalei o olmo
e ele chorou seiva e vespões,
derrubei o ponto de referência
e os navios naufragaram,
assassinei as nuvens
e a terra cobriu-se de cinzas,
destruí a falésia
e os afogados tomaram o seu lugar,
destruí o mar
e a areia ficou negra de sangue,
fulminei a terra
e as flores desabrocharam.
Então arranquei o seu coração
e o homem ainda vive.
Devo eu destruir o universo
por um punhado de vermes?


Not guilty – take 102, remix (Beatles) 

Not guilty
For getting in your way
While you’re trying to steal the day.
Not guilty
And I’m not here for the rest,
I’m not trying to steal your vest.

I am not trying to be smart,
I only want what I can get.
I’m really sorry for your ageing head.
But like you heard me said:
Not guilty.

No use handing me a writ
While I’m trying to do my bit.

I don’t expect to take your heart.
I only want what I can get.
I’m really sorry that you’re underfed.
But like you heard me said:
Not guilty.

Not guilty
For looking like a freak,
Making friends with every sikh.
Not guilty
For leading you astray
On the road to mandalay.

I won’t upset the apple cart.
I only want what I can get.
I’m really sorry that you’ve been misled.
But like you heard me said:
Not guilty.


IsabelMeyrelles

Pinhal (Isabel Meyrelles)

Pinhal, onde está a velha senhora
que contava à neta
histórias de fantasmas?
( o diabo estava escondido nas águas furtadas
e gemia: eu caio... eu caio...
e caía uma perna.)
Onde está a doce criatura de cabelos grisalhos
que sabia tão bem cuidar das cabras?
(Ah! o copo de leite directamente
saído da teta , aureolado de espuma!)
Onde está o velho louco que escavava
poços por todo o lado à procura da água dos seus sonhos?
Onde está o homem bondoso
que tomava o seu pequeno-almoço sorrindo
para que a mulher acreditasse que o seu café
era a maravilha das maravilhas?
Pinhal, tu permaneces aí, murmurando
giestas, tomilho, e alecrim,
grilos e cigarras,
as tuas veias resinosas perfumam,
rochedos majestosos, ainda aí permanecem,
esperando ser escalados
pelas pequenas pernas escuras da criança
que se sentava lá no alto
sobre a pedra que tinha a forma de um piano
para ver a tarde cair,
doente de beleza, sem palavras para o exprimir.
(Consegui-lo-ia ela hoje? )
Casa, tu permaneces aí,
Com os teus muros caiados e o teu tecto vermelho
com a sua chaminé engraçada,
o banco de pedra onde já não se ordenham as cabras,
a porta que mudou de lugar,
a janela que já  não está no mesmo sítio
e este ar de ser e de não ser já a mesma
que a memória recusa.
Casa, que fizeste tu dos teus antigos habitantes?
Casa, que fizeste tu da tua alma?


You can ever go home (Moody Blues)

You can ever go home (Moody Blues)
I don't know what I'm searching for
I never have opened the door,
Tomorrow might find me at last,
Turning my back on the past,
But, time will tell, of stars that fell,
A million years ago.
Memories can never take you back, home, sweet home.
You can never go home anymore.

All my life I never really knew me till today,
Now I know why, I'm just another step along the way,

I lie awake for hours, I'm just waiting for the sun.
When the journey we are making has begun,
Don't deny the feeling that is stealing through your heart,
Every happy ending needs to have a start.

All my life I never really knew me till today,
Now I know why, I'm just another step along the way,

Weep no more for treasures you've been searching for in vain.
'Cos the truth is gently falling with the rain,
High above the forest lie the pastures of the sun,
Where the two that learned the secret are now one.

I don't know what I'm searching for
I never have opened the door,
Tomorrow might find me at last,
Turning my back on the past,
But, time will tell, of stars that fell,
A million years ago.
Memories can never take you back, home, sweet home.
You can never go home anymore.


IsabelMeyrelles

Os meus passos de criança (Isabel Meyrelles)

Os meus passos de criança não deixavam pegadas,
a tua mão de areia e de espuma
atraía-me para o teu seio
e eu partia numa braçada confiante
em direcção ao azul dos gritos das gaivotas,
esse azul reluzente ao nível dos olhos
que me chamava sempre mais longe
em busca da vaga que seria enfim minha.
Hoje olho-te, mar ,
e lembro-me das lágrimas vertidas,
do sal amargo do regresso,
da tua cor cambiante
que me traz o esquecimento
e eu permaneço lá , apaziguada e feliz,
a olhar a maré do presente
que já não é para mim chamamento
da tua mortal imensidão.


The end of the world (Aphrodite's Child)

You should come with me to the end of the world
without telling your parents and your friends
You know that you only need
say a word
So end my play with thy
end of the world
But I know
that I'll go... away by myself
I feel you don't want to come

You should come with me to the end of the world
We could lie all day on the quiet sands
I would introduce you to my friend the bird
who sings and flies along the fairy strand

But I know
that I'll go... away by myself
I feel you don't want to come



Eu morrerei.
E nos outros serei a recordação dum grande pássaro selvagem
que bateu asas longamente.... longamente...
Enquanto se ouvir o eco das minhas asas, terei a vida das aves.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
John Sposito

Ligações
Beatles, Moody Blues, Aphrodite’s Child

Textos:
Isabel Meyrelles

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012