Sons da Escrita 274

17 de Abril de 2010

Primeiro programa do ciclo Jesús Recio Blanco

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jesús Recío Blanco

Fado quotidiano (Jesús Recio Blanco)

À noite os muros têm
A sombra certa das pombas
E os telhados de Março vestem-se
De antigas Primaveras e de chuva.

Há ouriços que tremem
Nas esquinas dos largos,
Cães que uivam
Aos pés dos obeliscos dormidos.

Esta noite decidi
Fechar as portas à neve
E inventar-me um sol que desligue
O obscuro silêncio das caves,

A poeira azul das lembranças.


Foi Deus (António Zambujo)

Não sei, não sabe ninguém
Por que canto o Fado
Neste tom magoado
De dor e de pranto
E neste tormento
Todo o sofrimento
Eu sinto que a alma
Cá dentro se acalma
Nos versos que canto
Foi Deus
Que deu luz aos olhos
Perfumou as rosas
Deu oiro ao sol
E prata ao luar
Foi Deus que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
E pôs as estrelas no céu
E fez o espaço sem fim
Deu o luto às andorinhas
Ai, e deu-me esta voz a mim
Se canto
Não sei o que canto
Misto de ventura
Saudade ternura
E talvez amor
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando
Se tem um desgosto
E o pranto no rosto
Nos deixa melhor
Foi Deus
Que deu voz ao vento
Luz ao firmamento
E deu o azul às ondas do mar
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
Fez poeta o rouxinol
Pôs no campo o alecrim
Deu as flores à primavera
Ai, e deu-me esta voz a mim.


Jesús Recío Blanco

Fado caligrafia (Jesús Recio Blanco)

Talvez se alguém enfiasse
Estas agulhas que marcam
O pestanejo dos dias
E considerasse respirar a prazos
A imensidade do ar.

Digo, se talvez o coração
Atraísse levemente
O adejo das libélulas
Que se escondem nos sonhos
Para mudarem de endereço.

Então, este escrever sobre rio,
Com uma tristeza de imã,
De fósforo no paladar,
Teria o som duma pétala
A se prender na pele.


Poetas (Mariza)

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!


Jesús Recío Blanco

Fado silêncio (Jesús Recio Blanco)

Para falar do silêncio
é preciso ficar em silêncio
ouvir os grilos do silêncio
olhar os murros do silêncio
incendiar paredes de silêncio
navegar por rios de silêncio
vestir calças de silêncio
dançar em duplo silêncio.
É preciso beijar o silêncio
rascunhar o silêncio
temperar o silêncio
nascer em silêncio
morrer em silêncio.
Entre moinhos de vento e silêncio
sob um céu de betão e silêncio
sobre camas de relento e silêncio
por estátuas de cera e silêncio
ao pé duma meia-noite de vidro e silêncio.
Para falar do silêncio
é preciso silenciar o silêncio
morar no silêncio
salgar o silêncio
inventar o silêncio.
Para depois, em silêncio,
calar o silêncio.


Os meus versos (Katia Guerreiro)

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sofrimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…


Talvez seja fado,
se calhar é valsa,
um, dois, três, um, dois, três,
navios que trago
na minha garganta.

No meu peito o mar,
nos meus pés o céu,
um, dois, três, um, dois, três,
até o próprio ar
tenho por chapéu.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Devakant

Ligações
António Zambujo, Mariza, Katia Guerreiro

Textos:
Jesús Recio Blanco

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012