Sons da Escrita 275

24 de Abril de 2010

Segundo programa do ciclo Jesús Recio Blanco

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Jesús Recío Blanco

Fado pântano (Jesús Recio Blanco)

Sei de cor cada centímetro quadrado
da tua pele,
cada margem, cada memória,
cada navio que ancora
nos teus olhos desabitados,
cada silêncio estilhaçado
dos teus lábios.
 
Sei de cor cada estrela
que mora
no pântano dos teus peitos,
cada desenho das tuas mãos,
cada grito que emana
do espelho invisível
das tuas águas.


Te Juro (Camané)

Meus olhos eram mesmo água
Te juro
Lustro de brilho vidrado
Te juro
Meus olhos eram mesmo água
Verde claro
Verde escuro
Três barquinhos de brinquedo
Te juro
Fui botando todos eles
Te juro
Naquele rio tão puro
Naquele rio tão puro
Veio vindo a ventania
Te juro
As águas mudam seu brilho
Quando o tempo é inseguro
Quando o tempo é inseguro
Te juro
Quando as águas escurecem
Todos os barcos se perdem
Entre o passado e o futuro
Entre o passado e o futuro
São dois rios os meus olhos
Te juro
Noite e dia correm, correm
Te juro
Mas não acho o que procuro
Mas não acho o que procuro


Jesús Recío Blanco

Fado Aleph (Jesús Recio Blanco)

Olhar pela janela
é ver todos os mundos possíveis
dentro do vidro,
é esburacar as sombras da neve,
é abrir feridas no vento futuro,
é queimar o céu
que se sonega nos olhos do que espreita,
e é despojar ao tempo
de todos os véus.
Olhar pela janela
é sentir, de chofre,
toda a luz
dum milhão de anos
num só segundo.


Luar um dia (Ala dos Namorados)

Fecha a luz quando te fores
deixa o resto como está
Talvez um dia
sabe-se lá...
Deixa-me acreditar

Se acordares antes de mim
bate a porta devagar
Deixa assim esta janela

a Lua pode bater
Talvez um dia
sabe-se lá...
Deixa acontecer

Quando for a nossa hora

Fecha a luz quando te fores
embora


Jesús Recío Blanco

Fado do cais do vento (Jesús Recio Blanco)

Anjo ferido no berço do dia,
- pó de estrelas e insectos, -
a neve é uma grande mentira
nas veias frementes do desejo.
 
Pelas lojas cavalgam rios,
amores nus, moedas de oxigénio.
Os teus olhos reflectem no vidro
e há céus sem pele nem hélio.
 
Vai para o cais do vento,
anjo acabado, ferida sem rosto,
que ainda há muito tempo
para morrer sem pressa nesses flocos.


Faluas do Tejo (Madredeus)

Faluas,
Vaga lembrança
Qu'eu de criança
Guardei para mim

Se as vejo ainda
Às vezes no Tejo
Revivo a alegria
Do tempo em que via no rio a passar

Faluas do Tejo
Que eu via a brincar
E agora não vejo
No rio a passar
Faluas vadias
Que andavam ali
Em tardes perdidas
Qu'eu nunca esqueci

E era tanta à beleza
Que essas velas ao sol vinham criar
Belo quadro da infância
Que ainda não se apagou

E eu tenho a certeza
Que as Faluas do Tejo hão-de voltar
Outra vez a Lisboa


Embora cada pulmão da terra
se alague com todos os oceanos da infância,
com toda a neve da infância, com todos os pássaros da infância,
sempre, inevitavelmente,
ficará um vestígio de ar,
uma cicatriz de ar e falésia,
um olhar de ar e tacto,
uma palavra que se mune
sempre, inevitavelmente, de ar.

Para nos deixar um lenço de gaivotas nas mãos,
um rasto de transparência nos olhos,
um sabor de seda nos lábios.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Devakant

Ligações
Camané, Ala dos Namorados, Madredeus

Textos:
Jesús Recio Blanco

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012