Sons da Escrita 276

1 de Maio de 2010

Terceiro programa do ciclo Jesús Recio Blanco

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Jesús Recío Blanco

Fado de embalar

A noite cinge a lua
com uma fita de pérolas murchas,
ai, meu menino, que não te acorde
o grito espantado que vem do Norte.
 
Virão navios de papel
carregados de búzios e de pianos,
ai, meu menino, e um grande anel
de aragem sólida e de pano.
 
E em penas de açafrão e cetim
docemente hei-de te embalar,
ai, meu menino, quero neste mar
vestir-te com folhas de alecrim.


Suo gan (John Williams/Charlotte Church)

Huna blentyn yn fy mynwes
Clyd a chynnes ydyw hon;
Breichiau mam sy'n dynn amdanat,
Cariad mam sy dan fy mron;
Ni cha' dim amharu'th gyntun,
Ni wna undyn â thi gam;
Huna'n dawel, annwyl blentyn,
Huna'n fwyn ar fron dy fam.
Huna'n dawel, heno, huna,
Huna'n fwyn, y tlws ei lun;
Pam yr wyt yn awr yn gwenu,
Gwenu'n dirion yn dy hun?
Ai angylion fry sy'n gwenu,
Arnat ti yn gwenu'n llon,
Tithau'n gwenu'n ôl dan huno,
Huno'n dawel ar fy mron?
Paid ag ofni, dim ond deilen
Gura, gura ar y ddôr;
Paid ag ofni, ton fach unig
Sua, sua ar lan y môr;
Huna blentyn, nid oes yma
Ddim i roddi iti fraw;
Gwena'n dawel yn fy mynwes
Ar yr engyl gwynion draw.


Jesús Recío Blanco

Fado oração

Após tanta chuva,
tanto cisne solitário,
tanta duna
debruçada ao pé da janela.
 
Após tanto poema,
tantas noites estropiadas,
tanto salitre
espalhado pelos nossos ossos.
 
Após tanta insónia,
tantas escadas vazias,
tanto silêncio
ajoelhado entre outros silêncios,
 
perdoai, Pai, este tempo
povoado de palavras caladas.


Imortal (Rodrigo Leão)

(instrumental)


Jesús Recío Blanco

Fado solidão

(Para a Sonia)

Era um canto no fragor da tarde,
uma janela maior do que a noite,
uma parede sem eco,
uma rua a guardar todos os segredos.
 
Era a sombra do meu peito,
a chuva mole dos topázios,
o reflexo da lua,
o meu corpo coberto de folhas e espuma.
 
Era o grito dos espelhos,
o vento a pairar no vácuo,
a neve dormida,
o silêncio a alambicar palavras, todavia.


La Soledad (Pablo Milanes)

La soledad
es un pájaro grande multicolor
que ya no tiene alas para volar
y cada nuevo intento da más
dolor.

La soledad
anida en la garganta para esperar
el grito que se arranca con su
cantar cuando llega el silencio
del desamor.

La soledad
a veces tiene ganas de acompañar
el rostro que recuerda mal
aquel amor que nunca fue para
soñar.

La soledad
inventa la más bella aparición
remueve los rincones del corazón
para quedarse sola la soledad...
con su niñez
su mocedad
con su vejez
para llorar
para morir
en soledad...


Quando for grande
quero um cavalo de cartão,
duas rosas gigantes

e um pássaro por coração.
Correr pela noite dentro,
ser forte como um dragão,

lançar a minha voz ao vento.
Quando for grande
quero por um momento
ter os olhos dum navegante.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
John Williams, Rodrigo Leão, Pablo Milanes

Textos:
Jesús Recio Blanco

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012