Sons da Escrita 277

8 de Maio de 2010

Quarto programa do ciclo Jesús Recio Blanco

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jesús Recío Blanco

Fado apaixonado

(Para a Cristina)

Disfarça-se a tua boca quando falas,
disfarça-se de espuma e de amaranto.
 
Às vezes, o teu cabelo é búzio, chuva,
azevinho molhado e cortina.
 
Outras vezes, o teu corpo de feto
abandona-se em silêncio,
 
veste-se de risos,
povoa-se de pombas.
 
E quando olhas para mim,
há um ninho de tapetes e fitas
 
que aconchegam os meus ossos
e os meus navios mais secretos.


Tu risa (Olga Manzano e Manuel Picon)

Poema de Pablo Neruda

Quítame el pan, si quieres,
quítame el aire, pero
no me quites tu risa.

No me quites la rosa,
la lanza que desgranas,
el agua que de pronto
estalla en tu alegría,
la repentina ola
de plata que te nace.

Mi lucha es dura y vuelvo
con los ojos cansados
a veces de haber visto
la tierra que no cambia,
pero al entrar tu risa
sube al cielo buscándome
y abre para mí todas
las puertas de la vida.

Amor mío, en la hora
más oscura desgrana
tu risa, y si de pronto
ves que mi sangre mancha
las piedras de la calle,
ríe, por que tu risa
será para mis manos
como una espada fresca.

Junto al mar en otoño,
tu risa debe alzar
su cascada de espuma,
y en primavera, amor,
quiero tu risa como
la flor que yo esperaba,
la flor azul, la rosa
de mi patria sonora.

Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de este torpe
muchacho que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
por que me moriría.


Jesús Recío Blanco

Fado secreto

Sou uma mulher de geada,
um céu dividido, a areia
que se repete nas tuas mãos.
 
Sou a humidade nua
sobre a tua boca exposta,
a duna do teu olhar,
 
a voz simples do vento.
Sou o nevoeiro que cobre a tua pele,
a água que desce pelo teu ventre.
 
O segredo do teu segredo.


Los gatos lo sabrán (Loquillo)

La lluvia caerá aún
Sobre tus dulces suelos
Una lluvia ligera
Como un aliento o un paso
Aún la brisa y el alba
Florecerán ligeras
Igual que con tu paso
Y entonces volverás
Entre flores y alféizares

Los gatos lo sabrán
Los gatos lo sabrán

Seguirán otros días
Seguirán otras voces
Sonreirás a solas
Oirás viejas palabras
Voces cansadas, vanas
Igual que trajes viejos
De las fiestas de ayer
También gesticularás
Responderás palabras
Los gatos lo sabrán
Rostro de primavera
Y una lluvia ligera
Y el alba de jacinto
Que hacen daño al corazón
De aquel que no te espera
Son la sonrisa triste
Que te ilumina a solas
Seguirán otros días,
Voces y despertares
Rostro de primavera
Sufriremos al alba

Los gatos lo sabrán


Jesús Recío Blanco

Fado pessoal

Noite de cal no adro,
missangas de lua.
Uma cotovia de ébano e aço
corre pela minha cintura.
 
Pérolas de ar no meu flanco!
Batel de quebrada figura!
Quero vestir de branco
se a neve for escura.
 
Noite de cal e orvalho,
noite de arquitectura.
Quero morrer nos teus braços,
ser os olhos da chuva.


Chuva (Mariza)

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir 

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir 

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder 

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer 

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera 

Ai... meu choro de moça perdida
gritava à cidade
que o fogo do amor sob chuva
há instantes morrera 

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade


Foi um descuido,
um fragmento de vazio.
Eu chegava tarde.
Tu ainda esperavas.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Gene

Ligações
Olga Manzano e Manuel Picon, Loquillo, Mariza

Textos:
Jesús Recio Blanco

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012