Sons da Escrita 278

15 de Maio de 2010

Quinto programa do ciclo Jesús Recio Blanco

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Jesús Recío Blanco

Fado fantasia

Nos telhados mais altos
a lua chora e chora.

Tem medo do ar.
Receia do vento e cora.

Some-se entre as árvores.
Mascara-se hora após hora.

Quem me dera,
quem me dera ser gaivota,
 
diz enquanto a noite
bate à sua porta.

Nos telhados mais altos
a lua esconde os seus olhos de terracota.

Os seus cabelos de prata
mergulham em todas as poças.

Quem me dera,
quem me dera ser aquela outra,

diz enquanto a noite
passa ao largo, medonha.


Escrevi teu nome no vento (Carminho)

Escrevi teu nome no vento
Convencido que o escrevia
Na folha dum esquecimento
Que no vento se perdia
Ao vê-lo seguir envolto
Na poeira do caminho
Julguei meu coração solto
Dos elos do teu carinho
Em vez de ir longe levá-lo
Longe, onde o tempo o desfaça
Fica contente a gritá-lo
Onde passa e a quem passa
Pobre de mim, não pensava
Que tal e qual como eu
O vento se apaixonava
Por esse nome que é teu
E quando o vento se agita
Agita-se o meu tormento
Quero esquecer-te, acredita
Mas cada vez há mais vento


Jesús Recío Blanco

Fado lembrança

Um violino quebrado neste canto,
uma lua ferida na janela,
quatro cravos vermelhos e uma estrela.
Isto é tudo o que tenho, por enquanto.
 
Na minha sala um barco de amaranto,
entre ecos de mercúrio e de canela;
uma espada de vento em cada vela,
uma esteira de sombra, um nó de espanto.
 
Três espelhos de neve por meu rosto,
três pássaros sem peito e sem pegada,
um calendário triste e descomposto;
 
apenas o silêncio da almofada.
Isto é tudo o que resta desse agosto:
teus olhos de ar e musgo. A minha nada.


Lágrima (Dulce Pontes)

Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim o castigo
Eu não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
estando o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Por uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar


Jesús Recío Blanco

Fado misterioso

Para a Lisa

Quase em azul
a palavra debaixo da língua,
o universo a navegar por rios de sombras,
o olhar nesta página nevada.
 
(uma pausa de luz)
 
Quase em azul
a chuva como um gesto de violão,
o ar entre as pálpebras duma pomba,
a solidão a explodir na dança das ondas.
 
(reticências)
 
Quase em azul
a noite quebrada nos meus lábios,
o espelho a se reflectir no meu peito,
a lua a espalhar o seu grito.
           
(silêncio)


I’m not Lisa (Jessi Colter)

I'm not Lisa, my name is Julie
Lisa left you years ago
My eyes are not blue
But mine won't leave you
'Til the sunlight has touched your face

She was your morning light
Her smile told of no night
Your love for her grew
With each rising sun

And then one winter day
His hand led hers away
She left you here drowning in your tears, here
Where you've stayed for years
Crying Lisa, Lisa

I'm not Lisa, my name is Julie
Lisa left you years ago
My eyes are not blue
But mine won't leave you
'Til the sunlight shines through your face

I'm not Lisa


Era a mesma palavra a desenhar,
o meu barco ancorado na mudez,
era a ponte da cinza no alto-mar,
eram dois entretantos e um talvez.
Era um fado de brisa, desregrado,
uma estória de amor, um dó fadado.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Franck Thore

Ligações
Carminho, Dulce Pontes, Jessi Colter

Textos:
Jesús Recio Blanco

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012