Sons da Escrita 158

22 de Fevereiro de 2008

Segundo programa do ciclo João Camilo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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João Camilo

Relação obscura (João Camilo)

Quantos anos vivemos ignorando saber o que sabíamos? Escondia-se de nós mesmos — daquela parte de nós que parecia clara, transparente — a sabedoria.
Numa noite de Verão, inesperadamente, abriu-se a porta para a escuridão do nosso destino. A escuridão exige, antes de mais nada, ser esclarecida. A cegueira tinha consistido em agirmos de acordo com o que não sabíamos que sabíamos; o que é uma forma de ignorância. Por outro lado, que queremos dizer quando nos interrogamos: «abriu-se a porta para a zona escura?»
Sabemos agora o que não sabíamos que sabíamos? Existe enfim alguma coisa de que se pode falar, em que se pode reflectir atribuindo-lhe um nome, nomes, ou de que vemos enfim, mesmo se são confusas, algumas imagens? A resposta não se sabe qual seja. Isto é: ignoramos se acedemos enfim ao que, sabendo, ignorávamos que sabíamos. E por cansaço deixou de interessar-nos o assunto, pareceu-nos de uma complexidade excessiva para a simplicidade do espírito. Já não queremos saber.
Evidentemente, deve haver alguma razão para acreditarmos que uma parte do desconhecido do espírito se deixou entrever como conhecido. Mas o quê, que conhecemos exactamente? Não sabemos nem pretendemos sabê-lo.
Provavelmente faz parte da natureza do conhecimento que as coisas (as revelações) mais importantes permaneçam suspensas, em estado vago, no interior da nossa vida mais íntima.
O que é a vida mais íntima? Também não sabemos explicar o que é a vida mais íntima.
Se fôssemos filósofos, provavelmente podíamos explicar isso e tudo o que nos aflige. Mas não somos filósofos, limitamo-nos a viver a vida.

Não sentimos frustração por isso, nem complexos. Já nos dá bastante que fazer a parte da realidade que é redutível à acção, que a acção pode modificar. Além disso nada sabemos do amor, embora nos tenha acontecido, muitas vezes, amar e ser amados. Ou pelo menos iludimo-nos com as palavras e as aparências. Pode acontecer que nunca o amor tenha sido um sentimento ao alcance do nosso entendimento.
No exílio deturpa-se perigosamente a relação com o real; e consequentemente a relação com a linguagem. É possível, não sei que responder. Mas a aprendizagem da ignorância tem sido a parte mais frutuosa da nossa experiência. Longe da pátria, mas ligados à terra, às raízes. Embrenhados na relação obscura cqm as origens. Por aí devíamos ir, era isso que devíamos tentar compreender e explicar.
Mas bastaria recordar a infância sobressaltada, as paisagens desse tempo, os rostos, as palavras?
Difícil de saber. Recordamo-nos, com frequência recordamo-nos de acontecimentos que tiveram lugar há muito tempo. Imaginamos que constituem uma parte importante da nossa personalidade, pois de outro modo talvez os tivéssemos esquecido. Mas quem sabe se não é aquilo que esquecemos — ou que não conseguimos recordar verdadeiramente — que explicaria melhor, tanto quanto possível, em todo o caso, a pessoa que somos, as razões por que sofremos e nos alegramos, nos abandonamos à melancolia ou nos deixamos escravizar pelo entusiasmo?
Mistério.
Jovens raparigas que vos sentais perto de nós nas esplanadas dos cafés, com que graça inimitável ajeitais o cabelo loiro amarrado num nó no cimo da cabeça.
Perfeição da vida, ilusão passageira do instante.
Logo a seguir voltam as perguntas e a impossibilidade de lhes responder.


Little blonde plaits (Chris Rea)

Sweet September, I remember
Eyes of August deepest blue
While the lazy town was sleeping
Strangest love that I ever knew
Feel the wind blow, see the shadows
Kiss the breeze of a sudden shore
Of my life's loves and fascinations
The only one who left me wanting more
Little blonde plaits
Drink to you love, drink to me love
Sun burned feet on a dusty track
Evening waves that turned in twilight
Caught forever those little blonde plaits


João Camilo

Elogio do inimigo (João Camilo)

1
Quem atentou contra o sentido das palavras, foi contra nós que atentou. Mas passado o momento da hesitação, de novo avançámos para a meta inalcançável do desejo: a sabedoria.

Quem contra nós atentou, abriu-nos as portas do desconhecido. E por ela nós embrenhámo-nos, lutando com o medo.

Um dia, novamente, alcançámos um lugar de habitação. Aí, no sentido atingido, repousámos. E durante uns instantes reflectimos sobre as razões do ódio e sobre a fragilidade do sentido. Depois, finalmente, sorrimos, como se o alívio nos tivesse visitado a seguir à tempestade que fizera vacilar os alicerces da casa.

2
Porque tivemos inimigos não morreremos tão inocentes. Eles quiseram destruir-nos, mas reforçaram o nosso direito à existência. Por outras palavras: quiseram negar-nos, negar o que nós éramos e a maneira como víamos o mundo. Mas nós meditámos. E depois de termos sofrido e hesitado, erguemos o nosso destino de novo como uma estrela resplandecente na escuridão ameaçadora.

Fazer o elogio do adversário não me repugna neste momento. Quem, sem inimigos, podia aproximar-se tão empenhadamente da zona árida e selvagem da luz? Quem, sem oposição, teria progredido no caminho que leva à morte abrindo os olhos?


Follow the light (Travis) 

Nobody really knows
Where they're supposed to go
Hiding behind a wall
Afraid that they'll lose it all
But it's alright
Just follow the light
And don't be afraid of the dark
In the moonlight
You'll dance till you fall
And always be here in my heart
But nobody wants to know
'Cos nobody even cares
Everyone's on the make
Yeah and everyone's out for themselves
Me I'm on the longest road
Where everything's overload
But I've got my heart and soul
So don't throw me overboard
'Cos it's alright
Just follow the light
And don't be afraid of the dark
In the moonlight
You'll dance till you fall
And always be here in my heart
'Cos it's alright
Just follow the light
And don't be afraid of the dark
In the moonlight
You'll dance till you fall
And always be here in my heart
'Cos it's alright, alright now
And you're alright
Yeah we're alright now

João Camilo

Vistos do exterior (João Camilo)

Há aqueles que chegam. Outros caminham eternamente.
A cada um deu a Natureza o sopro que lhe era necessário.
Quem sabe, porém, o que é chegar? E alguns começam eternamente.
O que é a Natureza senão o fervor e a maldição recebidos com o sangue e o destino?
Tantas coisas se seguiam, nascia o sol e punha-se sobre o mar no horizonte.

Os passos do peregrino da vida soam na calçada — e quem os ouve?

Um percurso, cada um de nós caminha ao encontro da revelação. Quantos não atingem nunca a clareira na floresta e se perdem nas brumas românticas que do lago sobem até às árvores e as envolvem?

Obscurecem-se os caminhos ao longo dos anos abertos na confusão das plantas rasteiras.
E aquele que procura um sol, o seu sol, fica à deriva no nevoeiro.

Nunca chegará, ele. Mas o que é chegar? E quem sabe o que acontece no espírito secreto do homem, quem conhece a profundidade da alma humana?

Vistos do exterior, os nossos gestos perdem o sentido que lhes dávamos.
Julgam-nos e nada sabem da obsessão e da dor que perturbam a carne até ao desespero.
O sentido da viagem, secreto, única posse, para sempre será apenas nosso.
Ficção inacessível aos contadores de histórias.

Com a nossa morte levâmo-lo para o rio do esquecimento.


And when I die (Blood, Sweat & Tears)

I'm not scared of dying,
And I don't really care.
If it's peace you find in dying,
Well then let the time be near.
If it's peace you find in dying,
And if dying time is here,
Just bundle up my coffin
'Cause it's cold way down there.
I hear that its cold way down there.
Yeah, crazy cold way down there.
And when I die, and when I'm gone,
There'll be one child born
In this world to carry on,
to carry on.
Now troubles are many, they're as deep as a well.
I can swear there ain't no heaven but I pray there ain't no hell.
Swear there ain't no heaven and I pray there ain't no hell,
But I'll never know by living, only my dying will tell.
Yes only my dying will tell.
Yeah, only my dying will tell.
Give me my freedom for as long as I be.
All I ask of living is to have no chains on me.
All I ask of living is to have no chains on me,
And all I ask of dying is to go naturally.
Oh I want to go naturally.
Here I go,
Hey Hey!
Here comes the devil,
Right Behind.
Look out children,
Here he comes!
Here he comes! Hey...
Don't want to go by the devil.
Don't want to go by demon.
Don't want to go by Satan,
Don't want to die uneasy.
Just let me go naturally.
and when I die,
When I'm dead, dead and gone,
There'll be one child born in our world to carry on,
To carry on.


João Camilo

Indecisão (João Camilo)

O excesso dos sentimentos — a perda,
o desejo — é nocivo para o poeta.
Por isso ele se distancia de si mesmo,
depois observa-se da outra margem do rio;
tenta então dominar o fluir das palavras.

As paixões são necessárias ao surgir
da linguagem e à poesia; mas se queimam
a mente e o coração, perturbam o espírito do
poeta e ele cala-se. Sem medida nem
peso, sem limites marcados, perdemo-nos
na extensão do vazio. Para aquele
que se encontrou consigo mesmo o
amor que já não é, deixa de ser e não
se transforma em nostalgia inutil; e o
amor que ainda não cresceu imobiliza-se
na sua indecisão.

Sozinho em casa, no refugio do espírito,
o poeta aprende a respirar. Aguarda
a chegada da noite profunda e
recorda-se dos anos em que teve família
e foi feliz, há tanto, tanto tempo já.


In my life (Susan Ashton & Gary Chapman)

There are places I'll remember
All my life though some have changed
Some forever not for better
Some have gone and some remain
All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead and some are living
In my life I've loved them all

But of all these friends and lovers
There is no one compares with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new
Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I love you more

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I love you more
In my life I love you more


Nem elegias
nem idílios.
Nem lamentos
nem a consolação
do amor.
Nada
que distraia
o olhar
que se fixou
num ponto obscuro
da paisagem
e aí parece ter adormecido,
como se
não devesse
prosseguir
o nosso destino.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jerry Goodman

Ligações
Chris Rea, Travis, Blood, Sweat & Tears, Susan Ashton & Gary Chapman

Textos:
João Camilo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012