Sons da Escrita 159

29 de Fevereiro de 2008

Terceiro programa do ciclo João Camilo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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João Camilo

A quem? (João Camilo)

Eu amava as árvores, a rua deserta em que descansava
o sol da tarde, o frio que arrefecia o meu corpo.
À janela da casa olhava lá para fora. Nenhuma
paixão pelo que é humano perturbava,
durante esse instante de silêncio, a paz
do meu espírito. Flores amarelas na erva
que crescia entre a estrada e a residência. De uma
árvore caíam, lânguidos, os ramos e no seu
verde brilhavam espigas vermelhas. Era sábado,
talvez. A poesia era-me inacessível. As palavras
pesavam no papel e no espírito como erros de cálculo,
como um excesso e prova, inesperadamente,
do desajuste. A quem dirigir uma súplica ou uma carta
em que, não falando de amor, se revelaria o maior amor?
A quem? Incapaz de responder e de me atormentar,
eu deixava passar os minutos. Depois levantava-me
da cadeira em que estivera sentado e ia àquilo
a que eu chamava a minha vida, o meu destino.


Stand (Mark Owen)

A bag of years, a cup of tears, lie in a glass
And every line on my face has a tale to tell.

For, I have worn this skin I live in
And so I will until I'm dying
I've had it good, had it bad, until its over.

Stand, if you wanna know yourself
Stand, if your head's with someone else
Stand, if you feel like making up
Stand, when you think you've had enough 

A set of words, a busy mind lie in a bed
And everyday there is a way I've yet to walk
So many times I took for granted
When love is all I've ever wanted
To come alive, see the sights, stay up late and then its over.

Stand, if you love the one you're with
Stand, when you've nothing else to give
Stand, cos its all you'll ever know
Stand, cos there's nowhere left to go
Stand, if you have something to say
Stand, when you need a place to stay
Stand, if you wanna be alone
Stand, anywhere you want to 

All that I am is all I'll be, when you....
Stand, as a woman or a man
Stand, anywhere you know you can
Stand, if you want without a sound
Stand, when you're tired of sitting down


João Camilo

Sábado à tarde (excerto) (João Camilo)

Uma outra mulher tivera recentemente a generosidade de olhar para mim com algum interesse e emoção, eu sentira-o e ficara a pensar nisso. Estávamos no intervalo de um filme no cinema e eu não a conhecia. Percebi depois que estava sentada duas filas à frente da minha, à minha esquerda. Ela também olhou para trás quando se sentou e quando cruzou o meu olhar sorriu discretamente. Fiquei meio sobressaltado, já não vi o resto do filme em paz. Os meus olhos de vez em quando desviavam-se do ecran e precipitavam-se sobre a sua nuca, sobre o seu cabelo. Na penumbra da sala a sua figura vaga enchia-se de mistério. Romantismo. Sou incorrigível. Arranjei maneira de lhe falar quando a apercebi atrás de mim na fila que depois de terminar o filme ia abandonando a sala. Ela não sorriu quando a olhei, mas respondeu-me quando comentei que o filme me parecera excelente de muitos pontos de vista apesar de me ter escapado um pouco o seu sentido principal. É uma história política, mas a violência do desejo na intriga amorosa acaba por diminuir a importância de tudo o resto, disse ela. Eram 10 da noite, caminhámos juntos para o parque de estacionamento. Eu já a tinha visto antes e ela também se lembrava de mim. Ficámos a conversar uns dez minutos, depois arrefeceu e separámo-nos. 

Encontrei-a dois dias depois numa livraria do centro da cidade. Percebi que lhe deu prazer ver-me. Tomámos um café e falámos, disto e daquilo, de livros e de filmes, de tudo e de nada. As palavras tornavam-nos conhecidos um do outro, embora a pessoa que cada um de nós era continuasse escondida e a sua descoberta reservada para um futuro hipotético. Gostei dos olhos dela, da vivacidade juvenil dos seus gestos. Entrevi-lhe os seios pela abertura da camisa, mas o corpo dela não me perturbou, eu queria primeiro saber que pessoa é que ela era, se seria mulher para me amar e se deixar amar. Em casa pensava nela com ternura, talvez ela não me desiludisse.

Ia passando o tempo lentamente e eu ia esperando pelo amadurecimento dos frutos, sem saber o que iria acontecer. Entretanto, para não morrer de tédio, para me distrair, ia jantar com raparigas que não podia nem queria amar. E no sábado à tarde sentava-me no pátio da casa a contemplar na minha memória os destroços do passado, troncos e ramos de árvore que deslizavam na água do rio a caminho do vasto oceano. Há quem esteja convencido de que o amor é uma alegria ou uma excitação permanente. Mas a maior força do amor, a sua virtude mal conhecida, é manter a ordem nos nossos dias e na nossa vida.


I'm not in love (Will to Power) 

I'm not in love, so don't forget it
It's just a silly phase I'm going through
And just because I call you up
Don't get me wrong, don't think you've got it made
I'm not in love, no-no
(Just because...)

I like to see you, but then again
That doesn't mean you mean that much to me
So if I call you, don't make a fuss
Don't tell your friends about the two of us
I'm not in love, no-no
(Just because...)

Ooh, you'll wait a long time for me
Ooh, you'll wait a long time

(Just because...)

Ooh, you'll wait a long time for me
Ooh, you'll wait a long time

I keep your picture upon the wall
It hides a nasty stain that's lyin' there
So don't you ask me to give it back
I know you know it doesn't mean that much to me
I'm not in love, no-no


João Camilo

Beber (João Camilo)

À tua saúde: levanto o braço e bebo.
Onde estarás ó rapariga que vieste
visitar-me algumas vezes no verão passado?
Como tudo se vai transformando em outra coisa.
Como falarei de mim num tempo que há-de vir?
Estarei pobre de quê e há-de faltar-me quem?
Terei aprendido a privar-me de mais alguma coisa)?
Quem sabe se não serei apenas mais feliz.
As páginas brancas de livros que talvez sejam meus
e se não forem há-de ter pouca importância.
hei-de escrever cartas se não escrever romances.
E terei em que pensar aconteça o que acontecer.
De todas as voltas que o mundo pode dar
nenhuma que me ponha a cabeça no chão e os pés no ar.
Sou eu que me o permito às vezes para divertir-me
e fazer circular o sangue nas veias mais cimeiras.
Entretanto que dizer? Não chove nem há sol,
não é um dia particular nem um mês de férias.
Estar aqui à espera é apenas estar aqui e esperar.
rapariga que hei-de voltar a ver levanto o copo
e é à tua saúde que entorno o vinho dentro.
Quero ir contigo e ver os teus olhos contentes
E um dia talvez hei-de explicar-te o que se sente.
Por ora digo: bolas! E que estás longe.
E que chatice. E que nunca mais decido.
Mas que importa o que tu fazes e o que eu digo:
Tu estás aí e eu aqui, é longe e é difícil.
Há tantas maneiras de passar o tempo.
E entretanto a vida continua e eu digo adeus,
levanto o braço de novo e vou agitando o lenço.


Picasso's last words (Paul McCartney)

The Grand Old Painter Died Last Night
His Paintings On The Wall
Before He Went He Bade Us Well
And Said Goodnight To Us All.
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me, Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More

3 O'clock In The Morning
I'm Getting Ready For Bed
It Came Without A Warning
But I'll Be Waiting For You Baby
I'll Be Waiting For You There

So Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More
Drink To Me Drink To My Health
You Know I Can't Drink Any More

(French Interlude)
(Temp Change)
(Jet... Drink To Me)


João Camilo

Na areia húmida (João Camilo)

A solidão verdadeira, quando a conhecerei de novo?
Vejo-me caminhar à beira da água, embebido em mim mesmo.
Os meus pés deixam marcas na areia húmida, o meu cabelo
esvoaça suavemente ao vento do outono, brisa vinda de longe.
De mãos nos bolsos, eu sei que me afastei de tudo, do meu
destino e das cidades, dos pais e dos filhos que me couberam
para que também eu conhecesse o peso das palavras e do tempo.
Praia do Norte que chamas por mim, floresta densa
coberta de neve, quando virá enfim a manhã de novembro,
quando poderei caminhar na tua areia ensopada de sal?
Na véspera terei posto uma cruz nos dias que faltam
para que o mês termine. O sucesso da minha existência
terá deixado de interessar-me. De manhã saí de casa, era cedo,
como se fosse ao encontro da morte que espera por nós
na luz pálida de um dia igual aos outros.


Parallel lines (Kings of Convenience)

What's the immaterial substance
that envelopes two,
that one perceives as hunger
and the other as food.
I wake in tangled covers,
to a sash of snow,
you dream in a cartoon garden,
I could never know.
Innocent imitation,
of how it could be,
if when the music ended,
you did not retreat.
In my imagination,
you are cast in gold,
your image a compensation for me to hold.
Parallel lines, move so fast,
toward the same point,
infinity is as near as it is far.
Parallel lines, move so fast,
toward the same point,
infinity is as near as it is far.


Não me digam nada, deixem-me em paz. Já sei
que hei-de morrer. Já aprendi a suportar a dor
diante da beleza intocável. Não me consolam
as palavras, prefiro que não dêem por mim.
Digo-o sem ironia, detesto dramatizar.
Nada tem muita importância. Tudo acaba, até,
por ter um certo encanto. Sorrio por dentro, todo
o meu corpo é um sorriso quando a melancolia
se instala no meu espírito ao fim da tarde.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kirsty Hawkshaw

Ligações
Mark Owen, Will to Power, Paul McCartney, Kings of Convenience

Textos:
João Camilo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012