Sons da Escrita 258

1 de Janeiro de 2010

Primeiro programa do ciclo Joaquim Manuel Magalhães

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Joaquim Manuel Magalhães2

Páramo

Na varanda sem paz eu vejo o mar
mas já não vejo junto desses olhos
que viam o mar amordaçar-me.
A varanda, todavia, ainda traz
na ondulação, nas maresias
a ilusão de um silêncio
em que tu pretendias: aqui,
nesta lei tão dura, senti
que nada mais terei do que ser de ti.
A varanda continua a sua conjura,
eu continuo o desgaste do mar
só que noutra jura a tua vida dura
e até o mar te deixou de esperar.

O vário vento que vem e que voa
sobre argolas com vasos de gerânios
que tombam vagarosos e rosas
sobre ruas ruidosas de Lisboa
toca ao de leve no copo por que bebo
esquecido e sozinho ali
onde dantes vinhas com o maior apego
ouvir ao fim da tarde eu olhar para ti.

Ao alto dessas ruas que Lisboa já não tem
havia um andar quase arruinado
com o estilhaço, a cólera, o fermento
de quem se resignava também
a que não valesse a pena nada.
No vagar desse desmoronamento
essa ruína foi tua e foi minha,
o seu reboco de cal, a pele refém,
a cisterna petrificada.
Amávamo-nos entre eléctricos que passavam
do nascer do dia até ao nascer do dia.

Não há nada que se peça que nos seja dado
mesmo quando gritamos alto por perdão.
Merecemos tudo o que ficou fragmentado
no pensamento que não sabe inebriar-se
quando os sentidos perderam o condão.

Essas ruas de Lisboa que findaram
como findaram os dedos que prenderam
o bordão de ternura
que tantos outros nos cortaram.

Tal qual o prédio caímos
e apenas o pó
desenha entre o que nem persigo
um resto que sabe que está só
porque nenhuma solidão vem ter consigo.


This house (Alison Moyet)

Whose sticky hands are these?
And what is this empty place
I could be happily lost but for your face
Here stands an empty house
That used to be full of life
Now it's home for no one and his wife
It's a hovel and
Who can take your place?
I can't face another day
And who will shelter me?
It's cold in here
Cover me

Under these fingertips a strange body rolls and dips
I close my eyes and you're here again
Later as day descends
I'll shout from my window
To anyone listening. "I'm losing"

Who can take your place?
I can't face another day
And who will shelter me?
It's cold in here
Cover me

Oh in a plague of hateful questioning
Tap dancing every syllable from ear to ear
I hear the din of lovers jousting
When I'm hiding with my head to the wall

Who will shelter me?
It's cold in here


Joaquim Manuel Magalhães2

Summertime

Olho a sua boca. Tanto
que vem o punhal da luz
levar-me os olhos.
O carvão, a cinza dos
meus olhos. Os seus.
A sua boca, o sulco
onde me pergunta e eu
respondo. A morrer,
a olhar anavalhado
o seu brilho bravio.
Sons de sirenes, uivos,
estrondos, desabamentos,
ravinas donde rompe
o amor. Sua boca. 


Summer knows (Patricia Kaas)

The summer smiles
The summer knows
And unashamed
She sheds her clothes
The summer smoothes
The restless sky
And lovingly
She warms the sand
On which you lie
The summer knows
The summer’s wise
She sees the doubts
Within your eyes
And so she takes
Her summertime
Tells the moonto wait
And the sun to linger
Twist the world
Round her summer finger
Lets you see
The wonder of it all
And if you’ve learned
Your lesson well
There’s little more
For her to tell
One last caress
It’s time to dress
For fall...
And if you’ve learned
Your lesson well
There’s little more
For her to tell
One last caress
It’s time to dress
For fall...


Joaquim Manuel Magalhães2

Lareiras

Estendi o braço, apaguei a luz,
senti os seus lábios cercados de rendição.

Do meio de uma tristeza que não podia findar
abraçámo-nos e, no centro mais cego do pavor,
de novo nos encontrávamos. Mais perdidos,
mais perto, tão perto que chorávamos as mesmas lágrimas.

Vivia na rede de ruas ao alto da vila
sobre o porto. Numa casa de tinta nova
com a entrada confusa, nunca
soubemos lá ir dar.
Certas vezes tinha o rosto coberto de sangue.
Nós e a noite cortávamos de beijos a sua dor.

Primeiro o lume salta, bate nos tijolos,
destrói o fumo que sobe na chaminé.
Depois os toros estalam, abre-se o calor
para dentro da sala, a nossa pele
encontra a tua pele, esquece
a realidade: o teu pequeno emprego, o tempo
que não tens, o dédalo
sexual da situação de classe.
Por fim as chamas começam a tombar
em brasas, em cordões de cinza.

O seu rosto cintilava nos fins de tarde
em que seguíamos para nossa casa.
Mas quando tirava a samarra e abria,
um por um, os fechos do blusão,
ninguém se lembrava desse rosto, o acetilene
dos dedos corria-nos sobre o peito,
o mundo inteiro parecia incendiar-se.

Estavam envolvidos num manto,
sentados no chão de pedra, as labaredas
roubavam sombras nos seus corpos.
Nas horas de depois dos bares,
um pouco antes do amanhecer.

Um rapaz nos últimos anos da juventude.
Confirmava do amor a rápida colheita,
o cansaço tardio, a maldição
de me ter dado e ter perdido. E voltar a perder-te
quando for a tua vez de achares quem te receba,
quem te faça pagar-me, faca por faca,
o preço das trocas tão desertas dos outros amores.

Outras vezes, ao beijares os seus olhos
verás como se fecham a fugir. Dantes
temiam reabrir-se e encontrar os teus
fixos na parede, em busca doutro corpo
que não sabias quem viria a ser.

A testa de altura moderada,
o nariz rectilíneo, os olhos
cor dos ouriços vivos, o lábio inferior
tenso e sem sorrir e os cabelos
iluminados, abertos à solidão.

Vai crescendo com o dia a dia a saudade.
Os dois príncipes melancólicos
aguardam o mensageiro.
O trovador, o mar, cobre-se da segura tempestade,
canta de encontro às rochas uma exaltação.
Aprendo a viver o sofrimento da espera,
a despedida, a chegada do temível triunfo.

Duas braçadas de lenha dão para uma noite
de repouso e ouvimos um do outro
o silêncio de muitos anos de conflito.
Outras vezes a triaga do ciúme agita-se
ao vento peregrino das dunas. As jóinas
não tardam a reabrir e os cardos roxos,
ouve, os cães a ladrar enquanto chove
nesta primavera que não devia voltar.

Posso sentar-me junto de ti?
Pegar na tua mão?


Private Fires (Carly Simon & Andreas Vollenweider)

We Were Happy Here
Even In The Cold Spells
Even With The Roads
Like A Frozen River
We Would Keep Each Other Warm
And We Were Happy Here
With The Soup On The Fire
And The Wind In The Chimney
And The Floors Too Cold For Bare Feet
And We Were Happy Here
When The Spring Broke The Ice
And There Were Limbs To Be Cleared
And The Melting Snow
Let The Pines Spring Back Up
Toward The Sky
And We Were Happy Here
Even When The Rains Came
And The Storms Broke The Sea
With A Whistle And Drum
And The Moon Ran For Cover
And The House Shook All Over
And The Cats Would Hide Under The Bed
But We Were Happy Here
With Our Simple Life
It Was Our Whole Life
And We Were Happy Here
Before The News Came
That The World Was Small
And The Roar Was Loud
And Not Quite So Distant After All
I Remember How It Felt Before The Fall
I Remember The Day When We Heard The Call
And The Walls Came Down
And Our Perfect Dream Was Gone
But We Were Happy Here
When The Cries Of Our Babies
Were The Only Cries
And Our Bad Moods
The Only Bad Moods
Which We Coaxed And Stroked
Just Like Our Own Private Fires
But We Were Happy Here
Before


As inúteis coisas vistas,
tão sedutoras agora, em breve,
as vamos deixar de ver.
Com elas te procurei.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Air, Giovanni Marradi, Devakant

Ligações
Alison Moyet, Patricia Kaas, Carly Simon & Andreas Vollenweider

Textos:
Joaquim Manuel Magalhães

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012